Thursday, June 25, 2009

Díspares rastros

Expandindo-se
por músculos
e fúria
em meio
aos fios invisíveis do sol,
o filhote do tigre,
ao mirar o alto,
não vê,
pois parece sempre a mesma,
que,
pó a pó,
e até nele cai,
a, no secreto, perpétua montanha,
também
entre a trama
invisível
dos fios do sol,
contrai-se rumo à ruína,
como agora
ao desprender
os grãos marcados no vento pelo instantâneo passado
com o choque
das garras
de um falcão
que,
junto à sua fome mais recente,
nela acaba de pousar
- e com rápidos,
só de passagem na incessante busca,
olhos voltados ao tigre,
pois,
mesmo em filhote,
a essa ave de cobiça para o futuro, e logo, vôo de rapina
exibe-se,
por insuperável,
como montanha que se movesse
sob o pior súbito medo que de suas asas penda,
e assim era, ainda que em expansão, rastro coadjuvante
para sua retina enquadrar, e já, naqueles sempre invisíveis fios,
a atraente fraqueza de, portanto essa possível, presa rastejando,
da mesma montanha,
à sombra,
e ao pó que ela, em quedas do antigo não-excesso,
incita a formar como relva onde o sangue em breve jorrará.

As palavras da água

As mais antigas águas
guardavam
as palavras,
criadas nos ecos de seus fluentes cristais,
para transmiti-las,
em futuros peixes,
aos homens que sabiam,
nelas próprias,
e por elas,
em gestação
- os peixes
foram expulsos
da borda
pelo destino
de entregar
as sílabas
a ainda inexistentes homens,
refinando-as,
sob absoluto silêncio,
até,
no esforço de ser répteis e vôos
em espera anunciada,
tornarem-se o que em si esculpiam,
nós,
mas,
pelo rastro,
mantendo o caráter, e o exterior, também em peixe,
sua essência,
guelras, escamas e vogais.
E assim há muito dizemos,
e confessamos,
as palavras,
todas elas,
e todas que conheceremos
- e todas são peixes
na busca,
agora por outra época quase eterna,
esta de retorno,
do oceano
que,
em superfícies,
ondas
e profundezas,
da boca
desaguamos.
no ar.

Tuesday, June 02, 2009

Ela que sou eu

Presentes pelo tempo para Raquel, minha lindíssima filha


Peixinha na minha memória
Ela aos 11

No fundo da memória em que me levo
há um oceano intacto,
o oceano que,
naquele instante,
derramava-se
inteiro
na piscina onde minha filha,
uma peixinha de escamas recém-abertas,
flutuava imersa numa bóia em forma de estrela.
Essa bóia, paradoxo, acabou submergindo em outras águas:
as que se movem justamente na memória daquela peixinha
que,
antes de a luz,
essa água aérea,
de veias que em mim correm,
me dar,
era a memória da minha água mais glacial,
líquido
dentro de uma filha que flui para o oceano que também sou eu
e que por isso não faz minha memória
virar um náufrago de que sou mesmo.
Nas águas da memória daquela peixinha
também não houve um naufrágio:
aquela bóia sobe
eternamente
à superfície dos olhos da minha filha
e eles, assim, transformam-se em espelhos
projetando ao ar,
por imagens transponível,
o cúmplice cuidado
que eu,
um rio que se tornou peixe
e depois o útero em que uma peixinha nadava,
senti no reflexo que nos olhos dela o dos meus percorria.
A memória dela e a minha misturaram-se,
alastrando ainda mais o oceano interno de cada um,
um oceano em que o mais remoto
é o que a memória do mundo concebeu
para que os homens,
e suas criações,
não eliminassem o que se foi
e não eliminassem também o que lhes será antigo.
Nossas águas guardam a mesma cena:
a de quem ao me pedir socorro
me socorria da perda nas profundezas do esquecimento.

Sozinho
Ela aos 5

Onde você estava
que eu fiquei
aqui sozinho?

Ah, agora ou depois,
e esteja onde esteja,
saiba que eu mesmo longe, e só,
me sinto sempre junto de você
dentro do seu coraçãozinho.

O vôo da bailarina
Ela aos 9

Depois que a bailarina,
fina como uma linha,
aprendeu mesmo a dançar
viu
que nem precisava
se preocupar com a sandália
- e por isso nem por que
nela
ainda que quisesse
não havia nada nadíssimo de salto.
Foi quando percebeu
que,
na dança,
uma dançarina,
que não cria só os gestos, e junto também os em volta vazios,
nunca fica
com os pés no chão.
Leves,
levíssimas,
as pernas
– e os pés, é claro –
levam
todo aquele frágil mas forte corpo
para onde se escondem os mistérios
que existem no ainda não inaugurado alto.

Espelho na Catedral
Ela fazendo 14

Fazer aniversário
é encontrar o tempo
e,
como num espelho profundo e certo,
ver-se pelo labirinto com o qual já se nasce.
Mas não é o ver-se só de contornos,
rosto,
boca,
cílios,
todas as ilusões dos olhos.
É o ver-se interno,
aquele em que tocamos uma imagem
que se reflete no nosso corpo todo:
a alma
ou o que em outra palavra, ou teor, se chame.
A cada ano
ela
guarda mais histórias, desejos, enigmas,
catedrais que o próprio tempo cria
para que o observemos à nossa volta.
O silêncio do tempo,
então,
é o mesmo das catedrais:
quando se entra nele,
ou por ele é entrado,
ganhamos uma compulsiva busca - que é entrega.
A do tempo que,
secretamente à mostra como um rubi que só a si pertence,
revela o que de nós é sombra e com ou sem espera resplandece.

Descoberta
Ela hoje, aos 21 - e sempre
Uma mulher descobrindo o mundo é mais bonita que o mundo sendo descoberto.

Monday, June 01, 2009

Shakespeare´s Shakespeare (1)

Júlio César se chama Júlio César mas podia se chamar Brutus.

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E se Júlio César se chamasse Brutus Brutus podia se chamar Marco Antônio.

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Otelo se chama Otelo mas podia se chamar Iago.

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O mercador de Veneza se chama O mercador de Veneza mas podia se chamar Shylock.

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Duvidamos se duvidamos se Hamlet duvida.

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Macbeth, Lady Macbeth, Ricardo III: o mal é anterior ao ser humano?

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Horácio é um dos ouvintes mais privilegiados da humanidade. Ouviu as célebres "Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor sua vã filosofia", "Há algo de podre no reino da Dinamarca" e "O resto é silêncio". Mas não estava perto justamente na principal: "Ser ou não ser, eis a questão". Uma frase que até mesmo os poucos que ainda não a ouviram de certa maneira a conhecem. Está em nós. Dúvida, ou quase, a dúvida, ou quase, está em nós. Certeza, ou quase, a certeza, ou quase, está mesmo em nós.

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Em Rei Lear: a verdade, ou mentira, de Cordélia precisava parecer verdade, o que prova que a verdade e a mentira em si não são exatamente verdade e mentira.

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Ou que a verdade é a verdade que os outros querem que seja.

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Por conseqüência a mentira é a mentira que os outros querem que seja.

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O que não está em Shakespeare não deveria estar.

Thursday, May 28, 2009

A inédita razão do guerreiro

É desconcertante,
palavra
que
como as outras
por lamoso gelo em rastro crio de momento,
e em enigma rugia-se,
e que em eco se dividirá em muitas para a mesma, e mesmas,
imaginar,
como no recente já,
que este local,
o chão embaixo da árvore,
onde jorra o sangue
do meu inimigo morto por mim
- e disso por um eu ainda sem o nome
que, como ele, agora em forçada queda, terei, teremos,
quando estiver, mos, em longe anônimo
desse que sou,
e vencedor,
primeiro futuro guerreiro se descostelando dos animais -,
contribui minimamente para a curvatura perfeita da Terra,
que não conheço e acredito e desenho
na que ficará por ancestral rocha de caverna
para, em meio dos deuses a romper da neblina,
e me punirão pelo ato antes só de sangue
pois são descongênitos os ritos, que juntos os formamos,
ser descoberta por quem conceber que o universo,
também já,
além de combates,
possui nome e nomes, desenho e desenhos, tudos e nadas.

Monday, May 25, 2009

Esboço

O já-pronto é o fim,
o amorfo
em sua vã cristalinidade,
pedra sem alma.
Melhor o inacabado:
uma fratura,
um corte,
uma veia exposta,
um sangue,
enfim,
que corre
com o pouco-a-pouco,
o milimétrico,
do eterno.
É a lasca
da escultura
que constrói
todo o perpétuo:
a mão
se mantém
ali,
tocando,
como na mulher,
toda a vastidão
do mistério que está à mostra
ainda que escondido para os olhos rasos e sem luz.

Tuesday, May 19, 2009

Zero

Zero é o primeiro
ou o último dos números?
é número?
zero tudo
zero nada
qualquer número anula-se multiplicado por ele
(na verdade vira ele)
zero deus
início de tudo
de tudo o fim
Um,
se vê que é um lápis
e não dois ou quinze
mas zero lápis?
Zero catedrais?
o inexistente risco por grafite
então
iguala-se às seculares inexistentes templárias pedras
Grão do grão do grão e em todos os grãos
coisa antifilosófica
que só foi conhecida antes da História
que será só depois da História
coisa filosófica
Desenhado
– e como foi difícil desenhá-lo –
limita no papel o seu espaço:
vazio sob margens
(onde porém se pode colocar o que quiser
sua fronteira é
a do próprio universo)
Ângulo autofágico
o reverso dele próprio
origem de todas as formas
inclusive
a do quadrado
que não é é seu extremo
e assim revela o sutil ápice
do que se transfigura em todo imaginário e intacto vácuo

Thursday, May 14, 2009

Rajadas padovânicas: Míopes diante de Beethoven

Quando o assunto é preconceito racial, que existe sim, e em quase todo lugar do mundo, e precisa sim ser combatido, e em todo lugar, umas das piores coisas, pelo menos no plano, digamos, moral, porque, claro, o mais horripilante mesmo é a violência social, e física, que os preconceituados recebem, é quando alguém desanda num discurso torto em tese a favor de quem sofre com essa tragédia - revelando o quanto de preconceituoso, ainda que de um preconceito oblíquo, o tal alguém autodenominado, digamos de novo, libertário é.

Recentemente um programa das manhãs na TV exibiu uma dessas lamentabilíssimas cenas. Num, digamos de novo-de novo, debate, porque num programa desses o debate é sempre uma discussão-de-lanchonete-de-esquina, uma apresentadora - e aqui não interessa o nome dela, e sim a ação -, ao dar sua pataquada filosófica sobre cota de negros nas universidades, e para pretensamente defender os negros, que não precisam desse tipo de defesa, disse algo como os-negros-são-superiores-aos-brancos-em-muitas-coisas-inclusive-por-exemplo-musicalmente. Nossa. Temos, todos, que agradecer a ela por diagnosticar nossa miopia, estigmatismo e outras doenças nos olhos. Afinal, não é mesmo, não sabíamos que Beethoven, Mozart e Bach eram negros. Quero de verdade dizer muito obrigado a essa apresentadora. Vou correndo procurar o oftalmologista mais perto de casa.

Realmente a frase dela é bobagem sobreposta a outra bobagem - e, no geral, típica de quem tem preconceito, ou não tem e quer mostrar que não tem, lançando, ainda que sem querer, uma pérfida essência de preconceito no ar. Primeiro de tudo esse negócio de comparar as raças como se estivessem disputando uma final de 100 metros rasos na Olimpíada já é, para falar o menos, ridículo. Somos todos humanos. Ponto. Sim, claro, há quem, por talento individual, força individual, etc.-individual, seja superior a outro num ou outro aspecto - mas isso não quer dizer que a raça a que ele pertença seja superior a outra. Pelé é melhor que qualquer outro jogador de futebol - branco, amarelo ou, sei lá, roxo. E não é por isso que, numa regra de três analfabeta, se pode dizer que os negros são melhores que os brancos, amarelos e roxos. Para continuar no mundo dos esportes, Michael Phelps é o maior herói da piscina em todos os tempos mas também não é por isso que se pode dizer que os brancos são superiores aos negros, amarelos e roxos. O Beethoven branco também não é álibi para uma teoria besta dessas. Nem o Beethoven negro.

Pelé, um gênio absoluto, é o maior símbolo de injustiça nessa questão no Brasil. Muita gente cobra dele o fato de, também em tese, nunca ter ajudado os negros - os negros pobres. Mas, se for seguir essa linha que na verdade é um beco obscuro, por que essas pessoas não criticam o fato de o branquíssimo Zico nunca, mais uma vez em tese, ter ajudado os brancos pobres do Brasil? Pois é, Pelé recebe, isso sim, é muito preconceito do já em si preconceituoso, ou parapreconceituoso, ou do não-preconceituoso-que-em-permanente-estado-de-defesa-critica-um-preconceito-errado-para-passar-por-vejam-só-não-preconceituoso.

Bom, a cor da vergonha, em caso alheio ou não, é vermelho. E pelo visto continuará sendo por muito tempo.