16 May 2017

Obrigado

Olá.

Fiquei um período sem acompanhar o que estava acontecendo no blog – e acabei de ver que vocês persistem em ler o que escrevo. Como faz tempo que não ponho novidade nesse espaço imaginava que vocês tinham sumido mas estão todos, e mais, por aqui. Então de novo muito obrigado.

Ah, sim, vou continuar publicando capítulos de O espelho de Lâseja. Só estou dando um tempo para ver o rumo que quero dar ao conto  – é na verdade um romance só que ainda o chamo de de conto, como originalmente ele começou. Há, já disse isso aqui, muitas possibilidades, e vamos ver onde ele vai parar. 

Muito obrigado também, claro, a quem além de ver os textos me manda mensagem – e sempre com palavras tão generosas. Como também já disse são palavras superiores ao meu trabalho. Então realmente agradeço.

W.

25 April 2017

Conto em construção (Parte 9)

Para Ângela

O espelho de Lâseja

Ao virar as páginas de O espelho de Lâseja – agora você não está lendo O espelho de Lâseja, e sim O bibliotecário de uma certa Biblioteca – o leitor da Biblioteca leu que o bibliotecário de O bibliotecário de uma certa Biblioteca é um homem de fé, e que está em busca de Deus para entregar sua fé.

Um início ainda

A pedra existia.
Com o homem existe um homem fazendo dela um fogo.
E a pedra é um pedaço nosso fincado no tempo
gás pó peixe cerâmica
ferro faísca fusão
gelo música cristal átomo ar réptil
roda placenta faca palavra
A Terra é redonda séculos A Terra é azul
África câncer e galáxia
Mistério de ser o próprio mistério:
o homem é um tempo que tinha rabo, e lama,
e antes disso era um início
muito atrás do que somos ainda – um início.
A água transforma-se em pedra e voz
e ela própria é gênese herdada:
um tempo já maduro para ficar sólido.
Sim, a voz é tão sólida como a pedra,
dois sólidos sempre em mutação.
As pedras as palavras a ciência
o desejo das frutas (a água dentro delas)
minhas pernas as suas
para o sol (ou o seu antes)
estão iguais ao futuro voo
que uma ave
ao nascer
já carrega nos olhos.
Talvez pensar não seja nosso último órgão.
(Temos um corpo onde éramos silêncio).

Continuando em O bibliotecário de uma certa Biblioteca, o leitor da Biblioteca ficou instigado quando viu, no começo apenas pelo desenho do conjunto das palavras, e depois, aí sim, pelo conteúdo, que esse poema Um início ainda e A lucidez da Terra, que ele leu há pouco tempo em O espelho de Lâseja, estavam juntos, e repetidos. Ele então parou nessa página em que notou a repetição:

Aos 16 anos eu era um menino tentando entender o que comecei a ver de misterioso na mulher, e foi quando algo me chamou – a palavra. Quer dizer, depois eu soube que foi a palavra. No começo eu não era tão íntimo dela a ponto de saber que era ela que me chamava. Só sentia isso: a palavra é feminina. E então eu, aos 16, me seduzi por ela ainda que sem saber direito a sua força – e fui, do meu jeito, a seduzindo:

Um início ainda

A pedra existia.
Com o homem existe um homem fazendo dela um fogo.
E a pedra é um pedaço nosso fincado no tempo
gás pó peixe cerâmica
ferro faísca fusão
gelo música cristal átomo ar réptil
roda placenta faca palavra
A Terra é redonda séculos A Terra é azul
África câncer e galáxia
Mistério de ser o próprio mistério:
o homem é um tempo que tinha rabo, e lama,
e antes disso era um início
muito atrás do que somos ainda – um início.
A água transforma-se em pedra e voz
e ela própria é gênese herdada:
um tempo já maduro para ficar sólido.
Sim, a voz é tão sólida como a pedra,
dois sólidos sempre em mutação.
As pedras as palavras a ciência
o desejo das frutas (a água dentro delas)
minhas pernas as suas
para o sol (ou o seu antes)
estão iguais ao futuro voo
que uma ave
ao nascer
já carrega nos olhos.
Talvez pensar não seja nosso último órgão.
(Temos um corpo onde éramos silêncio).

A lucidez da terra

O osso dentro da terra,
tudo é lama
a sua cor o cheiro da lama o gosto
a consistência maleável da lama.
É que a terra o envolveu de forma toda,
deu a ele as suas marcas de íntima e úmida febre.
E ainda assim era o osso igual ovo
(onde se guarda uma pura lama)
anônimo
de dura mas frágil pele
e também dentro dele alguma coisa,
apesar de em finais,
se fabrica.
A terra aos poucos resguarda
o que produz fora de si.
De quem terá sido esse osso?
[...]
A terra nada pergunta:
acolhe o osso
como acolhe os pingos da chuva
uma minhoca os bicos dos pássaros procurando alimento
e como junto acolhe o mar,
que a cobre,
com rendas de sal e peixes.
[...]
E tudo é unido por seus grãos:
do osso,
já em lama,
ao fruto que o homem pega na árvore
e come,
andando depois sem olhar o chão.
[...]
A terra, lúcida, não se decifra.
E cada vez mais elabora seu pó.
A terra sabe esperar pelo que lhe será antigo.

Zero

Zero é o primeiro
ou o último dos números?
É número?
Zero tudo.
Zero nada.
Qualquer número anula-se multiplicado por ele
– na verdade vira ele:
zero Deus,
início de tudo,
de tudo o fim.
Um,
se vê que é um lápis
e não dois ou quinze.
Mas zero lápis?
Zero catedrais?
O inexistente risco por grafite
então
iguala-se às seculares inexistentes templárias pedras.
Grão do grão do grão e em todos os grãos,
coisa antifilosófica
– que só foi conhecida antes da História,
que será só depois da História.
Coisa filosófica.
Desenhado
– e como foi difícil desenhá-lo –,
limita no papel o seu espaço:
vazio sob margens
(onde porém se pode colocar o que quiser
– sua fronteira é
a do próprio universo).
Ângulo autofágico:
o reverso dele próprio,
origem de todas as formas
– inclusive
a do quadrado,
que não é é seu extremo
e assim revela o sutil ápice
do que se transfigura em todo imaginário e intacto vácuo.

E eu já sentia mesmo que escreva o que escrever a palavra para mim é feminina – a mulher, aquela, única, única para sempre, que se conquista, e pela qual é conquistado, numa, a ambos, conquista que é entrega, e entrega que é conquista:

Corpos

No escuro
onde duas bocas
se ardem
tudo busca os fachos perpétuos do fogo:
clarão de estrelas
galáxia de grãos
o aceso do fogo nos corpos
mas
à procura da chama escura,
a chama-dentro.
Aquela com que o açúcar
prepara o fogo do mel (na saliva?
em sua dança?
na viva noite?)
línguas febres olhares
mãos cabelos carícias seios per-
todos os infinitos incendeiam-se entre as coxas
nas aromas braços corações
desejos peles dois corpos que
águas peixes planetas répteis asas
já não são apenas corpos mas sendo apenas, e sobretudo, corpos
um ao outro em mútuo mais profundo mergulho
buscam, no jorro, todas as até então ocultas chamas da já tempestuosa água.

Ao folhear mais O bibliotecário de uma certa Biblioteca o leitor da Biblioteca deparou com uma citação de A Biblioteca de um certo bibliotecário – e se surpreendeu porque até então tinha lido que esse livro ainda não tinha sido publicado. Mas até que gostou pois pelo menos não teve que ficar lendo os poemas escritos aos 16 anos por aquele autor desconhecido. E além do mais essas outras páginas de O bibliotecário de uma certa Biblioteca citando A Biblioteca de um certo bibliotecário têm muito mais ação:

A quinta lua do rei
Fábula trágica

Personagens: ainda não todos definidos – vão surgindo enquanto a peça está sendo escrita
Local: ainda não definido
Época: ainda não definida

Castelo.

Rei
Ataquem! Ataquem! Que a cabeça de Vossilan me chegue pendurada no seu próprio sangue!

Exército vai se postando à frente do rei. Lanças, armaduras, cavalos. Barulho crescendo.

General
Sua vontade, nosso rei, reparte-se em nossos 2.000, 3.000, 10.000 soldados. E, ao repartir-se em nós, nos une.

Exército já todo pronto.

Rei
Se um olho de Vossilan a espada justa do general na outra batalha já perfurou, essa mesma lâmina, guiada por esse mesmo braço, também justo, agora tem até cinco luas para penetrar afiada no outro, tirando-lhe com isso a dor de, num átimo, ver o ferro em seta cortar de uma ponta a outra seu pescoço.

General
(Empunhando a espada) Olho! Pescoço! São golpes forjados pelo ferreiro nesse ferro e que esse ferro por destino quer cumprir. Cumprirá!

Rei
O fogo que forjou esse ferro é sagrado! Como o homem que nele trabalhou!

General
Como também é sagrado o desejo do nosso rei! (Ao exército.) Vamos! Vamos! O olho esquerdo de Vossilan não verá mais que cinco luas! À vitória! À vitória! O sangue de Vossilan, e dos seus, respingará no luar que, no máximo em cinco noites, mais refletir nossa ira! Vamos! Vamos! (Serviçais abrem o portão do castelo.)

Rei
Avancem, avancem para que, cega por completo, a cabeça de Vossilan entre por esse portão com sua última nobre missão – ser arremessada às mesmas labaredas transformadas em cinzas no corpo de minha irmã, que a ele em traição das mais malditas se juntou como ilegítima esposa.

General
Nossos olhos, os nossos olhos, sempre acesos, disso não esquecem. Vamos, rápido, vamos! Fileira por fileira, em frente!

Rei
Só voltem com o sangue que do nosso sangue não tenha nem o vermelho. A todos as melhores luas! E entre elas a lua da lua!
22 abril, 1h19

W.

8 April 2017

Conto em construção (Parte 8)

Para Ângela

O espelho de Lâseja

Você leu há pouco que esta pode ser a versão falsa de O Espelho de Lâseja – e que eu queria garantir a você que não é. Mas que posso fazer – vou ter que voltar ao tema, e ainda por cima estragando a surpresa que você quem sabe estivesse alimentando sobre ele. É que o leitor da Biblioteca virou as páginas para trás e foi parar no prefácio que o autor desse livro deixou para quem o lesse:

Esta é a versão falsa de O espelho de Lâseja – a verdadeira não foi ainda encontrada. E por ser, mesmo que falsa, a única versão de O espelho de Lâseja ela passará, acho eu, pelos anos, ao menos nos anos em que o verdadeiro O espelho de Lâseja ficar oculto, a ser a adotada, verdadeirizando-se. Como autor desse livro – o falso – tenho, mesmo que isso deponha contra mim, a obrigação de avisar a você, leitor, se é que esse livro vai ter, veremos, algum leitor, sobre esse, vamos dizer assim, e vamos dizer assim para que quem sabe eu consiga diminuir ao mínimo o meu pecado, detalhe. Caso mesmo sabendo que esse O espelho de Lâseja é falso se interesse pela leitura dele, e leia-o, leia-o ainda que só numa parte ou outra, você certamente terá a alma de escritor, pois, se o livro já de antemão se diz falso, você poderá reescrevê-lo em sua cabeça do jeito que quiser – e deve ser isso que o atraia. O autor dele nem poderá reclamar do que você fará com a história. Foi exatamente isso que ele fez ao escrever esse livro: reescreveu-a a seu modo. E você também certamente terá a alma de escritor se ler esse O espelho de Lâseja porque o escritor, todo escritor, e todo artista, falsifica sempre o falso – é impossível captar a verdade de cada cena no exato momento em que ela ocorre, e então o escritor, o artista, capta o que já é memória, e a memória em si não é nunca a realidade – quanto mais ao ser resgatada depois de um certo tempo após os fatos. Quero esclarecer que, sim, toda a relação entre Lâseja e Antímaco, e Ângela e Padovani, é verdadeira. E peço desculpa a eles se ao recontá-la não pude ser tão fidedigno a tudo. Nenhum escritor poderia ser. Nem eles próprios fossem, e parece que Antímaco e Padovani até foram, ou tentaram ser, escritores. Você não imagina o alívio que esse prefácio me dá: a culpa será toda sua por ler, se ler, esse O espelho de Lâseja. E, caso leia, me, como direi no próprio livro, perdoe pelo estilo ao mesmo tempo rebuscado e rústico dele. É o meu jeito de ser. E por mais que se falsifique também isso a própria falsificação será, ainda que pelo contrário, o rústico no lugar do rebuscado, e o rebuscado no do rústico, ou tudo linearmente rebuscado, ou tudo rústico, fazendo, pela coagida linearidade rebuscada o coagido rústico, e pela coagida linearidade rústica o coagido rebuscado, assim – o que então dá no mesmo. Cabe a você, se, insisto, ler esse O espelho de Lâseja falso, ser rebuscado quando o texto for rebuscado, e rústico quando for rústico – ou então, para, se no caso anterior foi assim, e esqueci de falar isso que vem a seguir lá, o que corrijo agora, por semelhança, sou tão confuso às vezes, ou tantas vezes, para o mesmo objetivo, por então contraste amenizar a leitura, sobre a qual também já aviso: será difícil, não sou escritor, lembra?, sou, por mais que no livro tente me defender, e até cometendo exageros nessa defesa, e isso ficará, se é que já não ficou, tão evidente nas páginas a seguir que nem vou me estender nessa questão, um falso escritor, e como falso escritor não poderia escrever tão bem como um escritor, quer dizer, como um escritor que escreve bem, que tem, e não vou me incluir nessa lista porque sou apenas um falso escritor, escritor, escritor de verdade, que escreve mal. Se me considera um escritor porque, afinal, escrevi esse livro, ainda que ele seja falso, que você me julgue com os critérios aplicados a um escritor de verdade. Não quero fugir de nenhuma responsabilidade de escritor falso – incluindo então as que decorrem de ele, só por escrever, ser taxado, e essa é a palavra para o meu caso, de um mau escritor verdadeiro. Se eventualmente achar que até que sou um bom escritor verdadeiro você que arque com seus erros – ou falsidades.

Não queria continuar falando de O espelho de Lâseja, nem do seu autor, mas você já reparou, e por isso é que é bom eu me manifestar logo, que estou com alguns problemas, mais alguns, para resolver nessas páginas. Começando por esse: se o bibliotecário está escrevendo O espelho de Lâseja enquanto o leitor da Biblioteca está lendo O espelho de Lâseja como O espelho de Lâseja, contando-se que, como o bibliotecário disse no prefácio, a versão verdadeira do livro nunca foi encontrada, poderia estar, como está, na Biblioteca para o leitor o ler? E dentro dessa questão, indo para os outros problemas, há outra, que também vou ter de resolver: por mais que o bibliotecário fale, igualmente no prefácio, que este O espelho de Lâseja é falso, e ainda que possa, usando a palavra dele, verdadeirizar-se, sua origem é, se for, porque o bibliotecário pode estar querendo é só confundir o que já está muito confuso, falsa, e assim O espelho de Lâseja que o leitor lê na Biblioteca seria o quê? – também falso, já que O espelho de Lâseja verdadeiro, segundo o prefácio do bibliotecário, nunca, repetindo, foi encontrado? Como o bibliotecário está escrevendo O espelho de Lâseja ao vivo, na nossa frente, a tendência é, apesar do prefácio, achar que a versão dele de O espelho de Lâseja é verdadeira. É? Sim, também pode acontecer de as duas versões, a do bibliotecário e a do leitor da Biblioteca, serem falsas. Se eu fosse você eu pararia agora mesmo de ler esse livro. Vá para Shakespeare.

Júlio César se chama Júlio César mas podia se chamar Brutus.

E se Júlio César se chamasse Brutus Brutus podia se chamar Marco Antônio.

Otelo se chama Otelo mas podia se chamar Iago.

O mercador de Veneza se chama O mercador de Veneza mas podia se chamar Shylock.

Duvidamos se duvidamos se Hamlet duvida.

Horácio é um dos ouvintes mais privilegiados da humanidade. Ouviu as célebres frases "Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor sua vã filosofia", "Há algo de podre no reino da Dinamarca" e "O resto é silêncio". Mas não estava perto justamente quando a principal foi dita: "Ser ou não ser, eis a questão". Uma frase que até mesmo os poucos que ainda não a ouviram de certa maneira a conhecem. Está em nós.

Em Rei Lear a verdade, ou mentira, de Cordélia precisava parecer verdade, o que prova que a verdade e a mentira em si não são exatamente verdade e mentira.

Ou que a verdade é a verdade que os outros querem que seja.

Por consequência a mentira é a mentira que os outros querem que seja.

O que não está em Shakespeare não deveria estar.

O quarto ato de Cimbelino, em que um não vê que o outro é ainda outro, é um dos auges de invenção de personagens de Shakespeare. Portanto é um dos auges da humanidade.

Tróilo e Créssida, sobre a Guerra de Troia, tem outra genialidade: Helena, que o troiano Páris, raptou do grego Menelau, é um dos principais personagens da histórica batalha – mas na peça ela só passa pelo palco. Numa cena Créssida pergunta a um serviçal: "Quem é esta?". É Helena.

Tito Andrônico é a caricatura máxima da violência. A cena de Lavínia, que tinha sido estuprada e ainda teve a língua cortada e os braços amputados por dois dos filhos de Tamora – sob influência do diabólico Aarão, amante de Tamora – carregando nos dentes a mão do seu pai, Tito, é impressionantemente cruel. A peça é mesmo um carrossel de maldades. Outro exemplo: Tito implorou para Aarão, e, sim, o endemoniado Aarão também estava por trás disso, e de tudo mais na sequência, cortar sua – dele, Tito – própria mão para atender ao macabro pedido de Saturnino, o recém-empossado imperador de Roma, que em troca da mão lhe devolveria os dois filhos presos por ele, mas o que recebeu em troca foi desesperador: a cabeça dos filhos. E sua própria mão de volta. Aquela que a filha carregou nos dentes.

Tamora, com suporte de Aarão e dos filhos, se vingou de Tito – que no começo da peça mandou matar outro dos filhos dela.

Aarão é ainda mais perverso que Iago, de Otelo, e Edmundo, de Rei Lear. Suas manobras são da sanguinária facção a-morte-pela-morte-como-suprema-conquista. A mesma do Ricardo III – também retratado por Shakespeare em toda sua grandeza má.

Aarão, Tamora, Macbeth, Lady Macbeth, Ricardo III e tantos outros: o mal é anterior ao ser humano?

Em termos de personagem feminino de Shakespeare Lavínia é um destaque nem sempre lembrado. Ela nos consterna quase tanto quanto Marina, de Péricles, outra mulher shakespeariana que poderia ser mais olhada. Logo após o parto e suposta morte da mãe Marina é deixada por Péricles, seu pai, em Tarso, já que ele é um fugitivo jurado de morte e tem que continuar sua rota de fuga. Lá, a rainha, Dionisa, que acha a beleza de Marina humilhante para a filha, a manda matar. Marina escapa – mas é pega por piratas, que a vendem. Ela é forçada a ir para um prostíbulo – e não se prostitui. E, assim como o pai, Péricles, e a mãe, Taísa, tem final redentor.

Em muitas das peças de Shakespeare determinados personagens se refugiam numa floresta. E, ali, trocam de papel.

Voltando a Cimbelino, Imogênia, que também se refugia na floresta, e troca de papel – vira Fidélio –, é outra forte criação feminina de Shakespeare. Suporta tudo e luta para provar que é inocente da acusação de traição feita pelo marido Póstumo aliás, eis outra marca do bardo, a de mulheres falsamente acusadas de trair o marido. A mais conhecida de todas, claro, é Desdêmona, de Otelo. Mas Desdêmona não consegue lutar. Imogênia sim.

Nessa linha, Hermione, de Conto de Inverno, acusada pelo marido, Leonte, de o trair, conta, em sua luta, com a ajuda da aparentemente coadjuvante Paulina. Ela, primeiro, ousa desafiar o próprio Leonte – nada menos que o rei da Sicília. Depois, com toda sua coragem, resguarda Hermione da fúria de Leonte. E no final ainda tem a sagacidade de movimentar uma estátua. Paulina na verdade é protagonista – ou no mínimo uma das mais poderosas coadjuvantes de Shakespeare, o que por si só já a coloca na mais nobre galeria do teatro. E da vida.

Rosalinda, de Como Gostais, é considerada a principal personagem feminina de Shakespeare por muitos críticos mas demora para se juntar ao pai, o Duque Sênior, no exílio, banido pelo irmão, Duque Frederico. E onde se exilou Sênior? Na floresta.

Shakesperare no mundo das mulheres ainda tem, entre muitas outras além das citadas aqui, Ofélia, Julieta, Pórcia, Viola – e uma lasciva Cleópatra. Num dos ápices dessa lista está a rainha Gertrudes, mãe de Hamlet. Só por ser mãe de Hamlet, o maior personagem de todos os tempos, já é uma mulher bem marcante no palco.

Harold Bloom está quase muito certo nisso: "Shakespeare inventou o ser humano".

Bom, é que talvez Sófocles já tinha feito isso com o maior – único ponto em que Shakespeare fica abaixo – dos personagens femininos: Antígona. Em muitos sentidos, ela é mesmo insuperável. É a heroína trágica, e ponto. Desafiou o rei, Creonte, e todo o poder masculino ao enterrar o irmão, que, a mando de Creonte, deveria permanecer insepulto por, no julgamento do mesmo Creonte, ter se insurgido contra Tebas. Num mundo dominado por homens, oráculos e deuses, Antígona tomou a decisão sozinha – uma decisão humanamente solitária. Então quem sabe Sófocles tenha inventado o humano aí, o que mudaria a frase do Bloom. Mas Shakespeare, 2.000 anos depois de Sófocles, deu, com seus personagens, um perfil ainda mais humano aos humanos. Reinventou-os. Reinventou-nos.

Shakespeare frequentemente usa expressões como “não se coloque entre minha espada e minha fúria”, “o ar, esse elemento agora infectado” – e, clássico dos clássicos, “homem é ator e a vida, teatro”.

A madeira sob Hamlet

Nas costas de Shakespeare transportada,
aquela madeira,
agora a caminho de um ponto a outro à beira do Tâmisa,
por sina serviria como apoio
para o primeiro passo de Hamlet no palco
após o que, no ator, de humano sobrara
na penumbra do incógnito não-público enredo.
Shakespeare levava mais que carga de lenhoso ramo:
era o peso
do compromisso, e sacrifício, de Hamlet aos ombros,
como se, e é, de vegetal,
e assim minério,
e assim líquido,
e gás,
nascesse a barda criação,
devolvendo, pelo gênio destilado, ao universo
todo o remoto enigma
- que só ele,
em profundas letras,
e minúcias,
captou.
De elizabetanas nódoas,
a madeira,
por monárquica,
anexa as imediatas dinamarquesas guerras:
a externa,
que o fantasma antes ainda rei
recém-deflagra
ao simétrico Fortinbrás,
e a interior,
que de igual modo o fantasma,
antes ainda pai,
ao corpóreo renascentista filho
recém-provoca
rumo ao,
se verdade,
que é de raiz ambígua,
usurpado trono.
De madeira em madeira
o antigo teatro,
logo em pó,
de mínimo súbito se converte em outro
– e vira,
ele mesmo,
ator e personagem.
Recobre-se
de outro
mas
com as mesmas, como vestes, madeiras,
que lhe são arquétipos pilares.
Enfim o Globe,
como soberbo personagem,
interpõe
pelo mago aspecto da obra
o teatro no teatro,
concreta metáfora aos olhos da platéia.
E ao, no pulso, erguer
o novo teatro
a partir de outro em desmonte
Shakespeare,
quase à régia de James,
e em meio aos ainda escombros da peste,
vivia um papel
que ele próprio,
pela manchada mão de tinta,
não se deu,
embora,
ali,
no instante,
não herodizasse Herodes,
sem por isso nenhum respingo de excessivo gesto.
Hamlet,
ao redor daquela prescrita madeira às costas de Shakespeare,
já enfrenta Laertes
– e pelo fio das espadas,
e veneno,
vai morrer e matar.
O Globe mais uma vez lança ecos do seu último suspiro,
e o resto
não será silêncio.
Pelas frestas dos séculos,
a madeira ressoa
a história que o príncipe
em final agonia
pediu a Horácio
para
de tragédia a tragédia
com as palavras a todos os futuros traduzir
e que ao infinito
percorre de fato todo palco
– porque todo palco
tem hamlítica madeira como suporte
e,
pelo shakespeariano tronco,
também os permanentes, de Avon, pesadelo e sonho.

Hamlet e Ofélia 
A paixão do mais instigante personagem que já existiu 

Ofélia foi a única paixão do maior personagem de todos os tempos – Hamlet –, da maior peça de teatro de todos os tempos – Hamlet – e do maior escritor de todos os tempos – Shakespeare. E ela amou Hamlet até na loucura – de ambos.

Hamlet e Ofélia é uma fábula de dois jovens poetas perdidos um do outro pela tragédia do destino. Enquanto Ofélia vai pouco a pouco se transformando em mulher, e com desejos de mulher no amor, Hamlet tem que se transformar em outro homem, e com as dúvidas de um homem frente ao desafio dessa transfiguração, para cumprir a vingança exigida pelo fantasma do pai dele – que era o Rei da Dinamarca antes de seu irmão, Cláudio, tio de Hamlet portanto, casar com Gertrudes, a Rainha, mãe de Hamlet, ex-mulher do antigo Rei, e assumir a coroa. E a busca desesperada dos dois – cada um a seu modo  – heróis para seguir o caminho que o futuro lhes reservou não os leva, apesar da paixão entre eles, a um destino em comum, juntos.

Drama, suspense e romance: as cartas e ações de Hamlet e Ofélia agora reveladas – incluindo a carta de Ofélia que Hamlet nunca leu, e a de Hamlet que Ofélia também nunca leu – desvendam essa espécie de Romeu e Julieta até hoje oculta atrás da maior história já escrita para ser contada num palco. E que saiu do palco definitivamente para a vida. 

Personagens  

Hamlet – Príncipe da Dinamarca
Ofélia – Noiva de Hamlet
Gertrudes – Rainha da Dinamarca, mãe de Hamlet
Cláudio – Novo rei da Dinamarca, tio de Hamlet
Fantasma do pai, já morto, de Hamlet – ex-rei da Dinamarca
Laerte – irmão de Ofélia
Polônio – Conselheiro de Estado, pai de Ofélia e de Laerte
Horácio – amigo e confidente de Hamlet
Marcelo e Bernardo – oficiais do castelo
Francisco – soldado do castelo
Coveiros
Padre
Morte
Bobo da Corte
Ama de Ofélia
Serviçais
Músicos

Locais 

Elsinore, Dinamarca
Mar do Norte, que liga a Dinamarca à Inglaterra

Tempo 

Fim do século 16

1º. Ato

Cena 1

Pátio do castelo de Hamlet

Hamlet
Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
pedradas e flechadas do destino feroz
ou pegar em armas contra o mar de angústias?
[...] A reflexão faz de todos nós covardes.
Refletidas demais
as empreitadas de vigor e coragem
perdem o nome de ação.
[...] Mas devagar agora.
A bela Ofélia!
(Para Ofélia) Princesa,
em suas orações
sejam lembrados todos os meus pecados.

Ofélia
(Deixando de rezar) Hamlet!
Como tem passado todos esses dias?
(Continuam falando enquanto aparecem os quadros seguintes)

Rainha
(Em seu quarto no castelo) A Rainha começa
a fazer coro à Dinamarca.
Meu filho está sim diferente:
não é o mesmo Hamlet.
O Rei tem razão.
O motivo é que me falta saber.
Será o amor?
O amor é um sentimento
que enfrenta a todos,
fazendo de todos o que quer.
E Hamlet está tendo que enfrentá-lo agora
por causa de sua doce Ofélia.
Muitos aqui no castelo reprovam as mudanças de Hamlet.
Mas deve ser só o amor.
Assim desejo.

Polônio
(No esconderijo onde estava com Rei Cláudio para juntos ouvirem a conversa entre Hamlet e Ofélia. Falando baixo) Já ouvimos tudo nosso Rei.
Daqui por diante não nos interessa mais...
As palavras já parecem a mesma água
que serpenteando invisível evapora no rio,
e em novelos forma a nuvem...

Rei
E cai de novo como pedra no rio...
Agora é hora para dourar o idioma?
Vamos, Polônio, vamos embora...

Ofélia
(Ainda com Hamlet no pátio do castelo) Mas o que me dizia no começo Príncipe da Dinamarca?
Gentilmente: falou de verdade comigo
naquela sua conversa
sobre “ser ou não ser”, “destino” e “pecados”?
Ou confabulou sozinho usando meu nome
– e minha presença?
Você estava me vendo?
Minha inocência é tão transparente
que muitas vezes passo sem ser vista.
Principalmente para quem não quer mesmo me ver.
E pela sua última conversa comigo
você talvez não quisesse mais me ver.
Imagine: com a roupa toda amassada,
o rosto em desarranjo,
um Príncipe dos Mendigos estudado em Wittenberg,
uma das pedras mais preciosas da coroa alemã,
me aconselhou,
raivoso,
a morar num convento
ou num bordel,
confundindo
a beleza
e a honestidade
como se fossem coisas
que não podem andar juntas.

Hamlet
Esse Hamlet
até bate contra ele próprio
de tão tolo
mas comecei a falar com você porque vi você.
Sempre vejo você e sua inocência.

Ofélia
Mesmo com toda minha ingenuidade
não pareceu.
Mas se fala que me viu,
e que suas palavras chegaram a mim não por acaso,
eu acredito.

Hamlet
Quem perto um do outro
indo na direção em que estamos aqui,
quase amarrados,
não acreditaria?
Até Hamlet acredita!

Ofélia
Então sempre fala comigo
só para eu acreditar
que fala comigo.
Mas de fato não está falando comigo
para falar comigo...

Hamlet
Passou a gostar de um jogo de palavras
no meio do discurso?

Ofélia
Só quando é necessário...
E o necessário é quase sempre espontâneo.
Mas voltemos às palavras
sem esse tipo de recurso
que pode até parecer infecção.
De que pecados dizia?

Hamlet
Não dos meus,
que ainda não tenho pecado nenhum
a não ser no meu pensamento.
E o pensamento não é prova de nada.

Ofélia
Desde que sua mãe,
a boa Rainha Gertrudes,
casou com seu tio,
o bom Rei Cláudio,
depois da morte do seu pai,
o Rei guerreiro, e também bom, de mesmo nome Hamlet,
você, Hamlet, o Príncipe, e futuro Rei,
anda por Elsinore,
da boa Dinamarca,
como se estivesse louco.
Para alguns está mesmo.

Hamlet
Mesmo sem virar ação
o pensamento dos outros
se é contra nós
já é pecado.

Ofélia
Mas também gentilmente meu Príncipe:
se não está diferente do que era
posso entender
que ainda somos noivos?

Hamlet
Noivos nós?
Isso não quer dizer que não fomos
nem que não seremos.

Ofélia
Não somos então mais noivos.

Hamlet
Sua ingenuidade é muito rigorosa.

Ofélia
A ingenuidade pode ser o transporte para erros
mas nunca para mentiras
e muito menos justificar um propósito cruel.
Me desculpe se te ofendi.

Hamlet
Caso estivesse louco
não me sentiria ofendido.
E mesmo não estando louco
me senti ofendido.

Ofélia
Seu jogo de palavras agora me atordoa.

Hamlet
Fique com minhas palavras enquanto eu não estiver com você.
Ou seja, continue atordoada...
Quem sabe assim voltamos a nos reconhecer um no outro.
Saio agora para encontrar um destino nada inocente.

Ofélia
(Já sozinha) Palavras, palavras, palavras:
Hamlet perdeu algumas
que sempre trazia
penduradas no seu pensamento.
Nem na despedida prometeu me beijar...
Minha impressão
diz que isso ainda não representa nada
mas se fosse manipulá-la
quem sabe iria me sentir uma ex-noiva.
(Após silêncio) Acabou?
A loucura de um homem
exclui o amor?
E o amor
já em si
não é loucura?
É nisso que vou pensar.
(Também sai)

Cena 2

Sala da residência de Polônio no castelo

Polônio
E Deus deu um ouvido a mais
do que o número ímpar e singular de boca,
que é uma só,
porque...

Laerte
Sim,
meu pai,
estou te ouvindo...
Tomarei todo o cuidado nas terras da França,
para onde vou,
com sua permissão,
e a do Rei,
para, como o senhor diz, desenvolver
em laços firmes a minha maturidade...

Polônio
Vá, meu filho, vá...
E não esqueça mesmo dos meus bons conselhos
– afinal esse é o meu trabalho nesse castelo junto ao Rei:
dar conselhos sobre isso e aquilo,
sobre aquilo e isso.

Laerte
Adeus meu pai!
Até a volta!
(Saem)

Hamlet
(Em seu quarto no castelo) Os novos fatos me desnorteiam.
Meu pai me apareceu em forma de fantasma,
um fantasma que parecia abraçar todo esse castelo de Elsinore,
toda a Dinamarca,
todo o mundo,
e me contou a verdade sobre sua morte.
O fantasma foi claro: o irmão dele,
meu tio Cláudio,
o novo Rei da Dinamarca,
é que matou meu pai
para depois casar com minha mãe,
a até aquele momento imaculada Rainha.
O fantasma continuou o relato:
me ordenou a vingança.
E é ela que toma meus pensamentos
expulsando de mim o amor.
Pecado contra pecado!
O amor vira pecado se me atrasa a vingança.
Em nome do meu pai
tenho que matar meu tio!
Só não sei como
– e isso,
além de ter que cometer o assassinato,
assassinato mesmo,
com morte e tudo,
me paralisa.
Hamlet inepto!
(Após silêncio) Mas antes o que faço com essa carta
que ainda não entreguei para Ofélia?
(Lendo) Primeiro vem a Ofélia,
depois vem o ar.
Porque sem o ar eu morro
e sem a Ofélia eu nem vivi.
E na natureza tem mais ar do que Ofélia.
Ele é tão comum: se não tem ar aqui, tem ali.
Mas a Ofélia
só se forma com a raridade
do que é sempre e sempre novo, natural, recente.
E quanto mais ela surge a meus olhos
e a meus pensamentos
mais ela é melhor do que todas as mulheres,
incomparável,
exclusivamente única.
O que é essencial para mim?
Existo sem Saturno, e todos seus anéis.
Netuno, não preciso da sua frieza.
Mercúrio, ah, Mercúrio é um pequeno enfeite
do sol ali tão perto.
E o próprio sol
para mim
sem a Ofélia
é apenas uma fogueira
com um fogo que não me aquece.
A água, essa criatura tão volúvel?
Não, já me basta a inconsistência
de não ser eu mesmo
quando estou longe da Ofélia.
Existo enfim sem isso tudo
a que chamamos de a perfeição da Via Láctea.
E existo sem todas as outras galáxias:
as conhecidas e as não conhecidas.
Mas existo sem a Ofélia?
Não, esse que aqui escreve, sem ela, não é ninguém.
Não é nada.
É só a sombra,
o vestígio,
a poeira já sumindo das palavras que um dia escreveu.
(Ele mesmo se aplaude) Onde deixar
todo esse amor agora?
O ar não está à frente de Ofélia em minhas predileções
mas ele se poluiu de tal modo no castelo
que tenho que limpá-lo
para Ofélia sobreviver...
E eu também...
É no ar limpo que cabe a virtude
do amor entre Hamlet e Ofélia!

Ofélia
(Em seu quarto, também no castelo, acabando de ler uma carta) E por fim
quanto mais exista Ofélia
mais eu quero Ofélia.
Do seu sempre Hamlet.
(Depois de ler) Nessas cartas eu sempre identifico:
esse é Hamlet.
Ainda que eu não mereça ser essa Ofélia.
Não mereço?
Insegurança,
me deixe a sós
com essa mulher
em que estou me transformando!
Quem mais mereceria?
Já conversei com Horácio,
o confidente de Hamlet.
Ele me garante
que é tudo mesmo intriga da minha mente,
que sai agora das nuvens incertas da juventude.
A exuberante princesa da Áustria?
Hamlet não tem olhos para ela.
Diz Horácio!
E já se viu Horácio
falar algo de Hamlet
que não seja de Hamlet?
Ao pescoço todo carregado de joias
da Princesa do Reino da Espanha
Hamlet prefere o meu, branco, só com esse colar:
ah, pérola na pérola!
A princesa da Prússia?
Eu sou o palacete de Hamlet!
Palavras de Hamlet para Horácio!
Eu só passo um bom lustro nessas palavras
– mas é isso o que Horácio quer dizer
ao me falar as palavras de Hamlet.
E então essas são as palavras de Hamlet!
Esse é o Hamlet que me ama.
Onde está esse homem além dos seus pensamentos atuais,
que parecem querer dar a ele outro destino?
É possível o pensamento mudar o destino?
Pensar já é também o destino fazendo seu caminho?
Não faço mais parte do destino de Hamlet?
Meu irmão,
o bom Laerte,
agora em viagem pela França,
e meu pai,
o bom
– e também tão amado como filha por mim –
Polônio,
homem que alguns veem
apenas como ornamento empolado do castelo
mas que é personagem vivo
e que pelo fiel cumprimento
do seu cargo de Conselheiro do Estado
deu tantos juízos ao Rei da Dinamarca,
meu pai e meu irmão,
enfim,
me disseram para não levar a sério o amor de um príncipe.
Mais: pediram para eu me afastar dele,
e exatamente porque ele é o que é: um príncipe.
Príncipe? Príncipe da Dinamarca!
De que me serve esse título?
Não estou encantada pelos louros
nem pela coroa que um dia Hamlet vai ostentar.
Nem sei como é Hamlet com a coroa,
que isso nunca se viu.
O que sei é do momento em que ele me olha
com seus olhos de Hamlet...
De Hamlet apaixonado...
Quando passa as mãos pelo meu rosto...
pelos meus cabelos...
pega a minha mão...
E é isso o que eu quero de volta
para marcar nosso amor para todo o Eterno.

Hamlet
(Descendo a escadaria do castelo) Tenho que me preparar
para viver um tempo separado de Ofélia...
Mas como se separa
do próprio corpo?
É loucura?
Pois a loucura vai me ajudar...

Ofélia
(Ainda no seu quarto) Quanto mais perto de mim Hamlet está,
e quanto mais louco só de loucura do amor,
menos príncipe, e mais humano, ele é.
Dentro de sua ainda virginal Ofélia,
Hamlet é príncipe?
Não, dentro de mim, Hamlet é um sonho,
um sonho que eu posso tocar.
Quando ele se aproxima para um beijo
sinto,
mesmo não havendo o beijo,
sinto em mim e nele,
e em nós então juntos,
o calor mais humano,
quase desumano.
Não é comum o amor
– e mais raro, na realidade único, é o meu por Hamlet.
Sou uma jovem saindo da ancestral fonte feminina para a vida,
fonte que faz nós mulheres
sermos diferentes dos homens,
atraindo-os.
E por até agora não ter saído dessa fonte ancestral
me sinto paralisada.
Mas eu, em minha castidade de seda pura, atraio Hamlet?
Sim,
porque ainda chamado de louco,
e não louco de amor mas de loucura de louco mesmo,
ele me busca – nem que seja para exibir seus devaneios.
E se na loucura que agora esteja o guiando
ele me insulta
– já me segurou forte pelo pulso sacudindo meu braço,
o que só lembro quando tenho que lembrar,
e até já me mandou uma carta mal-escrita,
que rasguei – 
é só outro sinal do seu amor por mim.
Existo nele até no meio da sua loucura geral
– e não só na que o amor faz numa cabeça.
Existo nele além da razão.
E isso me faz perder minha própria razão.
(Após silêncio) Hamlet está mesmo louco
– ou parece mesmo louco.
E eu,
Ofélia,
a Ofélia que nasceu para Hamlet,
também estou.
O que é a razão diante do poder do sangue
que corre pelas veias mais próximas do coração?
A vida é mais intensa ali,
nesse centro do mundo,
do que em todo o universo,
que apesar de sua imensidão chega a desfalecer
diante de tanta força.
O coração é a fonte de tudo, o fluxo, o fim.
E meu coração está em seu melhor movimento.
E está finalmente comigo: eu o pego com as mãos.
Um dia vou entregá-lo inteiro a Hamlet porque de Hamlet ele é.
Está comigo mas de Hamlet ele é.
Junto com meu coração Hamlet vai receber toda a Ofélia.
E todos os meus desejos ainda inocentes.
E os outros, que virão.
(Falando mais baixo) Também vou viver minha loucura,
até agora tão recatada.

Cena 3

Salão nobre do castelo

Rainha
E então – sua opinião
sobre o que se passa com Hamlet
ainda é a mesma?

Rei
Pelo que escondido junto com Polônio
ouvi de Hamlet falando com Ofélia,
sem que ele tivesse nos visto,
pode ser o amor.
Mas ele fala muito de destino...
E não me parece ser só o destino que o levou até Ofélia.
Parece algo a mais,
algo a ser ainda cumprido.
Vamos acompanhar de perto o que ele faz.

Cena 4

Jardim do castelo

Hamlet
Que barulho é esse no castelo?

Ofélia
Quase nunca sei das coisas da nobreza.
Só o que ouço do meu bom pai sem que ele nem saiba.

Hamlet
E onde eu vá aqui dentro do castelo ouço uma palavra:
Hamlet, Hamlet, Hamlet.
Até parece que sou o inimigo da Dinamarca,
o cão contra o Estado.
(À parte) O cão louco contra o Estado...

Ofélia
Ouço essa palavra – “Hamlet” – a todo minuto
no meu coração.

Hamlet
(À parte) Mas sempre que dizem Hamlet
 é como se dissessem junto Ofélia.
Deus sabe o sacrifício que é me separar dela.
(Agora olhando para Ofélia) Adeus querida.
Vou ver do que se trata.

Ofélia
Hamlet vai.
Hamlet volta?
Ele estava aqui?
Estava comigo?
Cada pétala de cada uma dessas flores do inverno
sabe do meu amor por Hamlet:
já escorri lágrimas em todas elas.
Por que o amor invade um coração tão jovem e indefeso?
O amor é um soldado oportunista.
Se meu coração já fosse forte
se protegeria naturalmente de um ataque.
Mas assim fraco, imaturo, doente?
O soldado crava sua lança mais aguda
– e meu corpo todo padece.
O distúrbio começa sim no coração
E levado pelos glóbulos,
plasma,
o sangue todo,
entorpece meu corpo por completo,
minha mente,
minhas ações.
Não só Hamlet,
pelo que percebo,
parece enfrentar um bloqueio,
ou loucura,
e sabe-se lá por quê.
Já ouvi meu nobre pai
dizendo que a loucura de Hamlet tem métodos.
Mas quais?Também me sinto bloqueada,
e às vezes entrando numa espécie de loucura,
só que por um motivo muito concreto:
meu amor por ele próprio, Hamlet.

A Rainha e o Rei aparecem conversando no corredor que dá vista para o jardim. Ofélia não os vê.

Rainha
Mesmo com o frio,
que dia lindo esse...
E seria mais lindo
sem esse barulho marcial no castelo.
E também se Hamlet
não estivesse
tão nocivo para ele mesmo...

Rei
Não se preocupe minha flor de Rainha.
Minha Senhora sabe
que esse é um barulho igual ao de música agora:
o Exército está trabalhando.
Afinal a Noruega outra vez se interpõe na vida da Dinamarca.
A guerra parece mesmo certa.
(Após silêncio) Ainda não falamos da guerra para Hamlet
porque ele está enlutado em seus próprios pensamentos.
Fortinbrás,
sobrinho de um mesmo Fortinbrás na Noruega,
quer reaver as terras que o tio
perdeu para o pai de Hamlet.
Esse castelo arquiteta a reação
para deixar a Dinamarca pura
em sua nudez de donzela.
(Após silêncio) Quanto a Hamlet, 
uma pessoa age como o tempo:
num dia é feita desse gelo que cobre Elsinore
e no outro do mais radiante sol...

Rainha
Será que Hamlet,
tão agitado esses dias
sem nem saber ainda dessa iminente guerra,
está mesmo assim só por causa do amor dele por Ofélia,
demonstrando então que a morte do pai
e a nova situação matrimonial da mãe
já não o incomodam mais ao ponto de ficar do jeito que está?
Esse enigma é difícil de eliminar...

Rei
É o que espero.
Que mais nada importune a cabeça de Hamlet...
Mas como te disse antes:
parece que o destino
o vem incomodando... 
(Continuam conversando)

Ofélia
(Ainda no jardim, pensando de novo em voz alta) Hamlet,
com suas dúvidas,
pode ser como uma nuvem virando outra,
mais misteriosa,
para muitas pessoas,
que agora não conseguem decifrá-lo,
se é que em algum instante elas
realmente conseguiram fazer isso.
Não preciso decifrá-lo para senti-lo.
E passo até mal de ter que ser
um pouco mais ríspida com Hamlet,
com o Hamlet louco,
em resposta à rispidez
com que às vezes ele me fala
– e que mesmo só me lembrando dela
quando dela tenho que lembrar
fica como um dor encravada no meu corpo.
Procuro entender suas novas incertezas,
e os momentos em que, por elas, parece ficar longe,
como se estivesse
ele próprio
nas nuvens.
Para mim toda dúvida de Hamlet
é uma das partes que,
juntas,
ou separadas,
fazem dele um ser tão atraente.
(Após silêncio) Minha impressão é a de que conheço Hamlet
quase que como a mim mesma.
E Hamlet nem conheceu ainda 
a profunda Ofélia.
Mas o sinto cada vez mais dentro de mim.
Espantoso como o desejo,
esse ser incorpóreo,
faz do corpo o que quer.

A Rainha e o Rei continuam conversando no corredor que dá vista para o jardim. Foco neles.

(Ofélia retoma, sem ainda ter visto a Rainha e o Rei) Desejo Hamlet
como uma flor aberta para a chuva.
Me martiriza estar inédita para o amor
mas a esperança do primeiro, único e perpétuo amor
alivia o martírio de estar inédita para o amor.
(Após silêncio, vê o Rei e a Rainha, mas não 
acena para eles. Retoma) Hamlet está conturbado
porque o pai está morto
e por ter agora o tio como Rei acima dele.
Ninguém, nem Hamlet, fala desse assunto comigo,
mas é isso...
(Após silêncio) Às vezes me tratam
como se a inocência
me inibisse de entender certas coisas...


O Rei sai.

(Ofélia  acena para a Rainha, que ainda está no corredor) Como está nobre senhora Rainha? (A Rainha devolve o aceno para ela e anda pelo corredor. Ofélia fica olhando a Rainha passar) Como ela é bonita!
Desfila pelo castelo como Vênus
se exibe para os outros planetas!
Uma Vênus com os adornos de Júpiter!
A mais poderosa! Conquistou dois reis! Nossa Rainha!
A invejo por ser mulher!
(Saem)

Cena 5

Esplanada do castelo

Bernardo
Francisco,
pelo que o Marcelo contou
o Príncipe tremeu...

Francisco
Pra te falar a verdade,
Bernardo,
fiquei com o corpo tiritando...
só de saber o que aconteceu...
O fantasma a gente até já viu...
Mas conversando com o Príncipe?

Marcelo
Imaginem eu
que estava ali perto,
a cinco passos do encontro
entre Hamlet e o fantasma...
Fiquei como os galhos da árvore num vendaval...

Francisco
Haha, não é só soldado que treme!
Um superior (apontando Marcelo) também!
O oficial ficou com medo!
Calma, eu entendo:
o antigo Rei
de alto a baixo
igual a ele mesmo
surge à sua frente
como se tivesse
vestido de fantasma...

Bernardo
Era um fantasma... a gente sabe.

Francisco
É, um fantasma que chega do nada
pra conversar com o filho...
Meu Deus!
Isso a gente não viu!
De nós três, só o Marcelo... 

Marcelo
Nem queria ter mais no rosto
os olhos com que olhei
a assombração da Alta Realeza
chamando o Príncipe...
Mas pensei melhor, e que permaneçam em meu rosto...
É com eles que posso continuar a olhar o mundo.

Bernardo
Mas e Hamlet?
O que será que ele conversou com o fantasma?

Francisco
Eu hein!
Se você,
que também é oficial,
não sabe...
Só sei que caso o fantasma
me chamasse pra conversar
como chamou o Príncipe
ele,
se quisesse mesmo falar comigo,
ia ter que correr atrás de mim
até o fim do mundo!

Marcelo
Hamlet não contou nada
pra mim
sobre a conversa.
E ainda pediu segredo
sobre a chegada do fantasma.
Só pra Horácio,
que também viu a cena,
ele deve ter contado tudo...
(Após silêncio) Vamos lá:
agora que passou,
até que foi uma boa forma
de quebrar a rotina de vigiar o castelo
nessas noites em que o frio
congela até o pensamento
aqui em Elsinore...

Bernardo
Ah, Marcelo, mas que o fantasma não volte nunca mais!
Nem fale pros seus amigos lá de cima virem pra cá...
O antigo Rei morreu outro dia
mas já deve ter feito muitas amizades em sua nova vida...

Pátio do castelo

Hamlet
Não,
Horácio,
não repita de essa frase:
“Há algo de podre no reino...”.
Ah, você sabe...
Não fui eu que te falei essa!
Na certa foi algum dos soldados do castelo...
Um desses
que junto com você
me ajudaram a ver o fantasma do meu pai.
Te falei outras frases Horácio!
E melhores!

Horácio
Sei disso...
Mas a Dinamarca inteira
diz que ouvi essa frase do amigo Hamlet...
E ela até que é boa mesmo
– tanto que a repito sempre que dá!
Mas não cito o autor...
Se eu falar que não foi Hamlet que me disse
quem vai acreditar?

Hamlet
Ah,
mudando de assunto,
quanto à Noruega,
inimiga de nossa Dinamarca,
que venha!

Horácio
Estava para te falar isso...

Hamlet
Não se preocupe Horácio.
Quiseram me esconder essa guerra
mas meus ouvidos foram mais ágeis...
Então que a Noruega
ponha logo seu nariz em nossa terra!
Reduzir um Estado a seu tamanho correto
sem que ele tenha
de fato
as longas bravatas
que costuma declarar em alto e bom som que tem
só para tentar assustar o inimigo
e fortalecer seu povo
é mais fácil que extinguir uma pessoa
com nome, cargo e parentesco
– ainda que eu nunca vá reconhecer
o novo Rei como padrasto!
E eu já te disse bom amigo Horácio:
resgatar a honra do meu pai
matando
o novo Rei
por causa do que ele fez
é a minha maior herança.
Nada vai me fazer falhar
nessa justa desforra
pela morte do meu pai!
Nada!
A promessa da vingança agora é maior
que minha promessa de amor por Ofélia.
Talvez não, não maior – mas mais necessária.
Só que minhas reflexões
ainda protelam
meus braços vingativos...
Quando o tumulto sair do meu sangue
e finalmente ter a vingança
cumprida na ponta da minha espada
me entenderei com Ofélia
 – e com meus novos pensamentos depois disso.
Mas e minha mãe?
Sabia ela da sórdida trama que derrubou meu pai,
seu admirável esposo,
nosso magnífico antigo mas recente Rei?
Hamlet,
meu pai,
por meio de seu fantasma,
pediu para poupá-la
no meu ato sanguinolento e mortal.
Por fé em sua decência ou por piedade?
Ofélia a tem como mãe.
Eu nem tanto!
A dúvida me tira metade
do fascínio
de ter vindo de uma mulher!
(Após silêncio) Horácio,
em você guardo meus segredos...
(Sai)

Horácio
E em mim,
Hamlet,
guardo o peso dos seus segredos.
E como eles pesam!
Por que eu o escolhido?
Por que eu e não dois, cinco, sete, dez?
Não, doze, claro que não!
(Após silêncio) Lá em Wittenberg,
no meio de tantos estudantes
que,
se estudavam a sério,
eram também grandes farristas,
enchendo de graça,
e cerveja,
os salões das  tavernas,
eu era mais um
– que nem bebia demais,
ou de menos,
e que nem me divertia demais,
ou também de menos.
Por que então me escolheu Hamlet?
Em Wittenberg
eu era seu amigo,
e você meu,
como éramos de quase todos os outros alunos
– ou pelo menos de uma dúzia deles.
Aí sim: doze apóstolos da boêmia!
Mas depois que me viu aqui em Elsinore
no casamento de sua mãe
você me tomou por confidente.
Não fosse eu
poderia ser outro aluno que para cá viesse?
Não podendo ser,
que vaidade cheia de dever essa!
(Após silêncio) Quem tem tantos
e tão graves
segredos
de alguém
acaba vivendo também por esse alguém.
Algo acaba mudando em nossa vida
se a cada momento
temos que ter todo o cuidado
ao falar
para mesmo sem querer não furar esse círculo,
e quanto mais forte for a confissão,
e o confessor,
mais forte tem que ser o confidente.
E também de tanto saber dos segredos de uma pessoa
começamos a pelo menos tentar pensar como ela...
Ah, Hamlet, mas sinto
que se sei as passagens, as ações, dos seus pensamentos
não sei os pensamentos,
as ideias,
que levam às ações, as passagens, dos seus pensamentos...
Está vendo Horácio:
você pensa muitas vezes do jeito de Hamlet
mas não tem a habilidade dele.
Se tivesse um dia que contar a história dele
teria que escrever mais como Hamlet
do que como Horácio...
(Sai)

2º. Ato
 
Cena 1

Ofélia
(Em seu quarto) Ponto final, acho.
Do sentimento de amor
brota a necessidade
de que Hamlet
já me veja mais como mulher...
Nas palavras que passei a escrever
já me sinto mais mulher... Será?
Pelo menos é assim que agora,
e cada vez mais,
gostaria que Hamlet me olhasse
– e nós nunca nem nos beijamos.
Vou ver o que escrevi sobre isso.
(Lendo o poema que acabou de escrever) A seda que envolve
a mulher que pouco a pouco em mim nasce
pode romper a qualquer instante
– talvez agora, já, nesse segundo.
Sinto meu puro corpo
estender-se por um desejo nunca antes sentido
e isso já estremece a seda,
que logo irá se rasgar.
O novo desejo
faz do meu corpo menos puro?
Não,
pelo pouco que sei
dos ainda desconhecidos anseios
do meu sangue,
se busco a pureza de Hamlet
mais pura vou ficar
– e Hamlet terá a lagoa mais pura.
Os meus ombros,
minhas costas,
pernas,
braços,
tudo em mim,
nada mais poderá deter.
Só que esse desejo,
sem Hamlet,
cai do meu corpo num abismo,
um abismo dentro de mim mesma.
Esse desejo precisa de Hamlet,
do corpo de Hamlet,
do desejo de Hamlet.
Enquanto a ansiedade
que estremece a seda à minha volta
perdurar
Ofélia estará com febre.
Sim, sou uma flor
mas minhas pétalas estão fechadas.
O calor as abrirá para Hamlet.
(Após um silêncio, guardando a carta numa gaveta) Essa fica guardada...
Ah, meu instinto deu de mudar
justo quando Hamlet mudou
seu comportamento comigo.
Agora não o sinto apenas
– agora o desejo...
(Ouvindo, pelo som que vem pela janela, os músicos do castelo tocando) Lalalalalalá,
os músicos!
A música!
Lalalalalalá, flores para a alma!
(De repente a música para – e Ofélia, pela janela, ouve dois serviçais do castelo conversando no corredor) O quê?
Estão falando de mim?
Conheço essas vozes?
Serviçais do castelo.
Eu? Não sou mulher para aplacar a loucura de Hamlet?
Que mais? O outro diz que sou muito doce, e mais nada.
E o primeiro reforça? “E só doce enjoa até um glutão!”
Meus ouvidos sensíveis estão mesmo ouvindo isso?
Não sabia que seria servida num prato para Hamlet!
(Olhando para os músicos) Por favor: música! Música! Por que pararam!
(Os músicos tocam de novo) Lalalalalalá, flores para a alma!
Lalalalalalá, flores para uma alma doce!
(A música para outra vez – Ofélia continua ouvindo os serviçais do castelo conversando no corredor) O quê?
Sim,
até meus lábios são virgens,
e isso agora virou pecado?
Não vou acusá-los de nada a ninguém,
onde já se viu falarem assim de Ofélia
 – mas que essas palavras tão abomináveis
corram da minha memória.
Ah, disseram que sou fraca?
Há quem não entenda a essência da mulher.
Fragilidade é força.
Por Helena
Menelau mandou Agamenon
pôr mil navios no mar Egeu
para resgatá-la em Troia!
Mil navios!
Mulher é tão fraca... 

Cena 2 

Esplanada

Marcelo
Sim,
fantasma agora de lado,
eu mesmo
se pudesse subir até a altura desse altar
ia me apaixonar por Ofélia...

Bernardo
Nem repita mais isso Marcelo!

Francisco
Já está apaixonado Marcelo...
Viu no que dá frequentar toda hora
o interior do castelo
só porque tem um posto melhor
e com isso virou amigo do Horácio:
foi gostar logo da princesa!

Bernardo
É tudo questão de personalidade Francisco.
Também sou oficial como Marcelo
e da nobreza
eu quero distância...
Pelo menos no assunto mulheres
as plebeias já me satisfazem!
E pelo que sei das incursões desse aí pelo castelo,
ah, deixa isso pra lá agora...
Mas Marcelo está gostando ou querendo Ofélia?
E quando Hamlet souber?

Marcelo
O Príncipe vai se entreter com o fantasma...
Mas Ofélia não vai se entreter com Marcelo...
São as condições com que chegamos ao mundo:
(apontando para o alto do castelo) dali pra cima não!
Nunca!
Mas se entreter com o pensamento ninguém proíbe!
Nem com o olhar!
Ah, Ofélia!
Minha linda Ofélia!

Bernardo
Vai sonhando vai!
Bom, o que teremos pra comer?
A fome me pegou!
Tá certo que eles (também apontando para o alto do castelo)
comem a carne em molhos que transbordam das travessas.
Mas se pra nós tiver só a carne já tá bom...
Se às vezes tiver a borra do vinho vai descer melhor...
Ou uma boa cerveja pra empurrar o paladar...

Cena 3

Saguão de entrada do castelo

Hamlet

Muito fácil: vira-se o jarro e a água cai na taça,
olha-se para o céu durante o dia e vemos o sol,
no frio como este de Elsinore não sentimos calor.
Horácio,
você estava lá junto comigo na esplanada:
meu elevado pai
voltou como fantasma
para conversar comigo
– e ser fiel à ordem dele de vingança,
uma vingança declamada
com grandiloquência
pelo meu velho pai,
também deveria ser algo espontâneo.
Mas morrer é algo espontâneo, matar não.
O que é mais pecado?
Deixar
entre as promessas de delícias – são só promessas – nessa Terra
o crápula que matou meu pai
ou matá-lo,
mandando-o para o lugar que ninguém sabe onde fica
e de onde ninguém nunca voltou para falar se é bom ou ruim?
O fantasma do meu pai é o Espectro da Verdade
mas meus pensamentos põem dúvidas
nos meus próprios pensamentos...
Não é bonito ver um Hamlet assim indolente!
(Após silêncio) Rei Cláudio,
o que se passa entre o pensamento e a ação
ainda te mantém vivo!
Pois se os pensamentos são dúvidas
as ações são apáticas.

Horácio
Quantas dúvidas Hamlet...
Para mim a vingança exigida pelo fantasma
mesmo sendo o maior segredo seu que carrego
é mais um deles...
E então para mim
essa vingança é só mesmo um segredo,
quase um sentimento
– não uma ação,
como para você ela,
para se concretizar,
precisa ser.
Por isso essa história te deixa
com tantas dúvidas.
É natural.

Hamlet
Mas e não é que entre tantas dúvidas no universo
vai ter hoje uma festa no castelo
com um grande baile de máscaras no salão.
Esse castelo está vivendo dias estranhos...
Em dois meses teve o funeral do meu pai
e o novo casamento da minha mãe...
Os comes-e-bebes de um
foram praticamente os mesmos do outro...
E parece que tirando apenas minhas penumbras,
que tropeçam por esse edifício,
a tristeza da morte foi logo suplantada
pela alegria das bodas.
(Após silêncio) Agora que me dei conta:
hoje tem o baile e amanhã o teatro!
E a guerra bate à nossa porta...
É um Rei desmedido esse Cláudio
– a Dinamarca festeja
mesmo com os canhões da Noruega
em nossa direção.
Não fosse o que me falou o fantasma
sobre a sanha mortífera do meu tio
esse Rei seria só um completo pândego! 
(Após silêncio) E,
como sabemos,
Horácio,
há muita coisa na minha mente
também indo na direção
desse bufão assassino
que agora é Rei.
Ah, quando minhas ações
pegarem o que minha mente carrega...
Quase diria que a Noruega e Hamlet
estão juntando forças
para derrubar esse mísero homicida incestuoso do trono.

Horácio
Em relação à Dinamarca,
o Exército está preparado.
O mais, Hamlet, é sua consciência que sabe...
Mas aquilo que me pediu
– conversar outra vez com Ofélia
para ver o que ela está achando
desse seu comportamento meio amalucado
com quase todo mundo, incluindo ela –,
pois é,
é isso que vou fazer agora.
Combinamos de nos ver daqui a pouco,
e não gosto de me atrasar.
Até mais!
(Sai)

Hamlet
(Pensando alto) Não deveria ir a esse baile hoje – mas vou.
Preciso ficar atento a meu tio, e à minha mãe.
Nesse meio tempo volto a sentir
nem que seja a promessa que vinha fazendo para Ofélia
– e que também ainda não foi realizada.
Pobre Ofélia!
Pobre Hamlet!
Uma outra promessa se colocou entre nós.
(Tirando do bolso uma carta) Ofélia, essa carta
eu te mostrarei depois... 
(Lendo) E se meu coração é só barulho... (Continua lendo, mas agora em silêncio – e a seguir volta a ler em voz alta) ...os desejos do amor no sangue estancado... (Continua lendo, mas agora em silêncio – e a seguir volta a ler em voz alta) ...mas o coração, 
se bate,
me anuncia...  
(Retomando) Basta!
Não possui a beleza desse poeta
que de Londres já ressoa por toda a Europa
e, dizem, alcançará o mundo: Shakespeare.
Mas tem o seu valor!

Cena 4

Portão do castelo

Marcelo
Com todo o meu zelo,
deixe que eu a acompanhe até dentro do castelo...
Está chovendo (pondo as mãos por cima dela para protegê-la).

Ofélia
Não, não,
caro oficial,
uma chuva não dissolverá Ofélia...

Marcelo
Cada gota d’água é uma beleza própria
dentro da beleza da chuva Senhorita...

Ofélia
Como?

Marcelo
Toda beleza tem muitas belezas dentro Senhorita...
Um castelo, por exemplo...

Ofélia
Está acabando a chuva! Adeus!
Olha meu pai ali!

Saguão de entrada do castelo, e rapidamente 
em direção à primeira sala

Polônio
Toda molhada Ofélia!
Onde está sua ama?
Ama de Ofélia! Ama!
Eis ela chegando!

Amas
Sim, meu Senhor...

Polônio
Prepare toalhas quentes para nossa adorável Ofélia!
Bom,
minha adorável e cativante Ofélia,
hoje no baile aqui no nosso nobilíssimo castelo,
quer dizer,
no nosso nobilíssimo castelo da Dinamarca...
Então,
minha adorável, cativante e solteira Ofélia,
mantenha-se à distância,
mas à distância distante mesmo,
dos novos trejeitos de Hamlet.
Se dançar com ele,
que me pareceria uma desfeita
recusar o convite para dançar de um príncipe,
lance o olhar para o alto,
responda só o necessário
e principalmente não mostre a satisfação
que o corpo a girar mostra quando dança...

Ofélia
Farei o possível meu carinhoso pai.
De qualquer forma,
será uma noite feliz!

Polônio
Lá vem Hamlet...
Confio em sua coerência de filha Ofélia...
(Sai)

Hamlet
(Avista Ofélia e começa a falar com ela à distância 
até se aproximarem) Ofélia!
Não escapou da chuvarada?

Ofélia
Não se preocupe meu Príncipe:
logo estarei enrolada em toalhas quentes...
E aliás já estou quase seca...

Hamlet
Então deixa eu te dizer:
vou sim ao grande baile...
Apesar dos meus atuais tons sombrios,
da minha roupa preta de luto,
luto que nem o branco dos lírios selecionados
para o casamento da minha mãe cobriu,
eu vou.
E lá conversaremos enquanto dançarmos.
Trégua?

Ofélia
Hamlet voltará a ser Hamlet?
As promessas que lançou a meus ouvidos voltarão
ao menos a ser promessas?
O ar que me circunda ainda está repleto delas.

Hamlet
(O Rei passa por ali) Eis (apontando-o) o que até pouco tempo
era só meu tio Cláudio!
Porte de Rei é para poucos!

Ofélia
Pêsames tão recentes por seu pai à parte,
quer dizer que Cláudio merece mesmo ser Rei?

Hamlet
A consciência dele é que sabe disso.
(À parte) E a minha também...

Ofélia
Consciência dele?

Hamlet
E talvez a morte.

Ofélia
Do novo Rei?

Hamlet
Não, a que alcança a todos
– e que portanto conhece bem a todos.
Você gosta de viver?

Ofélia
Mas que pergunta!

Hamlet
Gosta?

Ofélia
Se Hamlet está aqui nessa Terra...

Hamlet
Então vamos brincar de morrer!

Ofélia
Não seria melhor de viver?

Hamlet
Como queira... É tudo um jogo mesmo!
(Quase beijando Ofélia) Se estou perto você vive...
Correndo para o outro lado) Se sumo você morre...
(À parte) Por que não a beijo logo?
Como é difícil deixar de lado o desejo humano
para antes cumprir uma ordem da assombração do pai...

Ofélia
Hamlet!
(À parte) Ele quase me beijou...
E mesmo não me beijando
meu corpo parece que saiu
só das promessas
de ser finalmente um corpo...
(Retomando a conversa com Hamlet) Hamlet!
(À parte) Meu corpo... ah, a carta...
... minha mais recente carta para Hamlet...
... essa sim eu quero entregar a ele...
... ela está aqui comigo...
(Outra vez retomando a brincadeira com Hamlet) Hamlet! Estou viva né?

Hamlet
A vida é dos vivos! Eles estão no comando!
(À parte) A situação do mundo agora
só me faz pensar o contrário:
a morte é que me governa...
Dei minha convicção ao nobre fantasma!

Ofélia
Ei! Traga o amor de Hamlet para mim!

Hamlet
O amor? O que é isso?
Um pacote que dá para esquecer em algum lugar?
Deixar em cima da escrivaninha?
Ou é possível interrompê-lo
para o pegarmos mais lá à frente?

Ofélia
(Tirando a carta da bolsa presa à cintura) Ah, Hamlet!
Venha rápido!
(À parte) Ofélia estava encharcada mas a carta continua seca...

Hamlet
Adeus! Logo nos veremos de novo! À noite na festa!
(Sai)

Ofélia
(Guardando a carta) A esperança pode ser tão triste...
Mas, ah, vem vindo o Bobo da Corte!
(À parte) Como Hamlet costuma dizer,
nosso rosto é uma máscara...

Bobo
Ai, ai, ai: o chimpanzé virou galo!
E o chimpanzé
para se mostrar para as galinhas
agora tem que saber como se faz um ovo!

Ofélia
(Brincando com o Bobo) Sim,
eu sei Bobo,
faz tempo que não me vê assim!
Estou rindo alto!
O chimpanzé quer voltar a ser chimpanzé?
Ai!
Adeus Bobo!
Volte logo!
(À parte) Não, essa frase é para Hamlet... 
(O Bobo sai e Ofélia retoma) A alegria às vezes
passa tão depressa pela vida,
como esse Bobo...(Pega de novo a carta e lê) Meu sempre único e sempre já maior amor Hamlet...
... minhas chamas se alardeiam
por todos os meus sangues...
sou uma mulher urgente...
sou toda instinto... 
(De repente) Ah!
Se Hamlet
soubesse do meu corpo
como sei de cada linha dessa carta...
E se ele,
que cumpriu suas missões perante as armas do Exército,
soubesse também a guerra que é o corpo de uma mulher
transformando-se em mulher...
As vontades medem força com o coração
para serem também um órgão vivo...
Não foi dessa vez que
dei essa carta para Hamlet.
Essa carta,
que é meu corpo
em seus primeiros fogos
de chama mais alta...
Conseguirei um dia entregá-la?
Cara a cara com ele,
eu não teria essas palavras...
Muito menos as ações...
Meu corpo arde
mas ainda não consigo
oferecer esse calor para Hamlet. 
Cena 5
Salão nobre

Rainha
Foi uma boa ideia esse baile hoje Polônio?
E amanhã vem o pessoal do teatro...

Polônio
Não costumo me enfileirar
em tantas alegrias Senhora...

Rei
Sim, sim.
Ótima ideia!
Um pouco de divertimento desanuviará
a mente carregada de Hamlet.

Rainha
Não sei,
pressinto algo estranho.

Rei
Minha esplêndida Rainha:
são pressentimentos só de mulher
e que muitas vezes
não se juntam à realidade...

Rainha
Mas a realidade
só se comprova
com o destino...

Polônio
Palavras que poderiam sair
da boca dos mais atuais dos Hamlet:
o de hoje,
seu preocupante filho...

Rei
Vamos nos divertir!

Rainha
Como meu nobre esposo
consegue intercalar uma festa
em tão graves questões na nossa mente?

Rei
Porque o que está na nossa mente
ainda não está na realidade.
Já o divertimento que uma festa proporciona,
essa é uma realidade inigualável!
Nos preparemos!

Hamlet
(No pátio) Então combinei com Polônio:
o grupo de teatro que está chegando
para se apresentar no castelo
terá o melhor dos tratamentos.
Polônio
em certo sentido
é mais pai de Ofélia do que de Laerte!
Apesar das palavras em geral afetadas
e de perguntas também em geral enfadonhas
– o que está lendo Hamlet?,
o que está fazendo Hamlet?,
só falta mesmo um “Por que está pensando Hamlet?” –,
ele às vezes é tão modesto, tão complacente, tão cortês.
A diferença entre a modéstia dele e a da filha
é que a dele está agarrada a objetivos.
E assim,
todo cortês,
sem pestanejar
foi logo dizendo para eu ficar tranquilo
pois os atores terão sim, como pedi, o tratamento
que eles merecem no castelo.
Foi aí que retruquei com essa frase,
Polônio há de se lembrar dela
palavra por palavra
por um bom tempo:
“O tratamento que eles merecem Polônio? Como assim?
Se tratamos todas as pessoas como elas merecem
quem vai escapar da chicotada?”.
(Após silêncio) “Temos que tratá-las melhor!”.
(Após outro silêncio) Mas eles só chegarão amanhã.
Hoje tem o baile no castelo...
Para mim será uma festa
com aquele clima engordurado de velório
e com o espólio ensanguentado da traição
a ser usufruto da vingança!
Vou eu, eu e meus compromissos, para dentro!
Ofélia, isso tudo logo vai se resolver!
Mas agora estou vendo a morte em todo lugar...
(Entra no castelo).

Ofélia
(Na igreja) E louvando Nosso Senhor aqui estou
pedindo a salvação de Hamlet – e seu amor.
Hamlet está estranho...
E algo muito estranho ronda em torno dele...
Que eu tenha tempo de entregar a ele a carta,
mas já me penitenciando se à visão da igreja escrevi excessos...
Li e reli essa carta
como se a Hamlet
confiasse essas tantas vezes o meu corpo sagrado...
Peço meu Senhor misericórdia
para que esse ato,
no corpo das Escrituras,
se cumpra...
Creio no Espírito Santo,
na Santa Igreja Cristã,
na comunhão dos santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne
e na vida eterna.
Amém.
(Levanta-se e sai da igreja, fazendo o sinal da cruz. E diz depois de andar um pouco na rua) “Senhorita, Senhorita, Senhorita!”
Enquanto minha ama,
que cuida tanto de mim,
repetia isso
a carta não seguia seu destino:
lá estava o papel que escrevi,
o envelope,
tudo isso, minha vida, continuava nas mãos dela!
Dedicada ama
– estou lembrando muito bem da cena –,
eu te suplico:
vá agora!
Entregue essa carta hoje mesmo para Hamlet!
Deus nos ajude!
(Após silêncio) Agora eu que preciso correr...
Tenho que me aprontar para o baile...

Cena 6

Rainha
(Em seu quarto) Quanto estou sozinha
a consciência de Hamlet
parece entrar na minha consciência,
me afligindo.
O que o desespera?
Será só mesmo o amor?
Seu olhar de desconfiança às vezes me apavora...
Um dia Hamlet aceitará
a nova situação de sua mãe?
Casada com o irmão do antigo Rei...
Casada com o tio de Hamlet...
(Após silêncio) Será um baile,
uma festa,
mas uma Rainha não pode mostrar tanta alegria
em meio à gravidade do que ela supõe.
Esse vestido então está bom.
É de festa,
mas não é festivo...
E foi presente do antigo Rei...
Isso vai deixar Hamlet mais perto de mim
porque com esse vestido estou mais perto do pai dele.

Rei
(Em seu quarto) Hamlet, Hamlet, Hamlet,
esse nome me persegue.
Antes era meu irmão,
agora é o filho dele.
Nada como um baile para misturar tudo!
Quem sabe na confusão
outros sentimentos caiam no corpo de Hamlet,
outros pensamentos desabem em sua mente agora agitada...
As ambições de Fortinbrás,
o jovem Rei da Noruega,
de pegar um naco da nossa Dinamarca?
Que meu Exército permaneça em estado de tensão!
Mas já estou levando essa guerra
para a boa luta burocrática...
Será uma guerra de papel!
Cedemos um pouco daqui,
eles cedem um pouco de lá,
assinamos,
colamos por cima de tudo os selos reais
e pronto: podemos comemorar!
(Após silêncio) Mas não posso esquecer uma frase do Hamlet
que de boca em boca ecoa pelo castelo:
“Poderia morar numa casca de noz
e me sentir o Rei do universo não fossem meus pesadelos”.
Essa ele soltou assim ao vento,
para ouvidos que depois viraram bocas...
Não é daquelas que ele joga no cofre de Horácio.
(Abruptamente após outro silêncio) Mas hoje é dia de baile!
Os pesadelos não foram convidados!

3º. Ato

Cena 1
(Noite)

Quarto de Ofélia

Ama
Ainda bem que pude contar tudo para a doce Ofélia...
Ela acabou de sair,
bonita como nunca,
para ir ao baile ver seu Hamlet...
Contei o que sei sobre Marcelo...
Oficial do castelo?
Oficial das mulheres!
Já teve caso com a cozinheira,
a ajudante da cozinheira,
a camareira,
a ajudante da camareira,
a arrumadeira,
a ajudante da arrumadeira,
e,
ai,
valha-me Deus,
até comigo,
uma mulher já entregue às rugas,
ele bateu as asas!
Frangote!
Mas a maior ousadia foi olhar
daquele jeito
para Ofélia!
Ofélia,
a pura Ofélia,
nem percebeu...
Ou melhor, diz que não percebeu...
Tão discreta...
Ainda bem que a noiva é a Ofélia...
Só faltava ter um episódio desse no castelo!
Mas não,
claro que não,
Ofélia nunca se sujeitaria a isso...
Tão pura...
Seus olhos são só para Hamlet...
Quem seria Marcelo
para ela?
Que audácia!
Por muito menos a cabeça
de um oficial nunca mais foi vista nesse castelo!
Nem os olhos, cabelos, braços, troncos, pernas...
(Após silêncio) Em nome de Hamlet,
que nem dá tanta vez para ela agora,
Ofélia vive rejeitando olhares também muito ricos!
Vira e mexe tem príncipe de outros Estados aqui,
todos atrás da afetuosa Ofélia...
Ela sabe lutar de espada contra esses olhares,
mas Hamlet que se cuide!
(Após silêncio) Agora estou até me lembrando melhor
de uma parte que ela me disse...
Foi mais ou menos assim:
“O fato de eu ter percebido
que outro homem
sem ser Hamlet
olhou para mim
só quer dizer isso mesmo:
que eu percebi.
Percebi e não gostei.
Os homens têm isso de ruim:
imaginam que todas as mulheres
têm que olhar de volta para eles
com a mesma intenção
com que eles olharam para as mulheres.
Denunciar Marcelo
com base nas diferenças entre nós,
isso definitivamente
não é do meu perfil.
As pessoas acham que eu não posso
resolver meus problemas sozinha
– mas isso é o que eu mais venho fazendo na minha vida...
São tão cuidadosos comigo
que nem percebem isso.
E
– continuou minha querida Senhorita –
não me leve a mal minha ama:
quem quer toda hora dar provas de carinho
tem provas de carência
 – ou de vaidade,
a vaidade de se sentir especial para alguém,
mesmo que esse alguém não precise,
não peça
e nem queira”.
Espevitada me saiu essa menina não?
Hamlet a merece!
E se ele não estiver louco de vez vice-versa!

Cena 2

 Salão de baile do castelo já está quase cheio. 
Música tocando. 
Entra Hamlet.

Hamlet

Como dizer que o mundo não é um teatro?
Só não sabemos quem é o diretor.
Sou então um ator entre atores!
Mas enquanto todo mundo que está aqui
só tem que representar dançando
eu tenho que dançar,
vigiar meu tio,
espiar minha mãe
e não esquecer da Ofélia!
E mais: a Morte é minha coadjuvante!
Ou melhor: eu é que sou dela!
Dançar com a Morte é algo terrível!
Mas já entrei no palco!
Ah, lá está Ofélia!

Ofélia
(Ao mesmo tempo em que Hamlet fala, Ofélia diz à parte) Olha lá Hamlet.
Já terá lido a carta?
(Para Hamlet) Hamlet! Estava te procurando...
Nunca houve procura mais ansiosa!
Não tinha certeza de que viria...

Hamlet
Então um brinde! (Tilintam as taças)
Vamos dançar... (Dançando) Como você está linda!
(À parte) E a Morte – que não me abandona
em minhas promessas de filho?
Já chegou?
Estará linda também?

Ofélia
Dançando com você, Hamlet, sinto que nunca vou morrer!
A morte não existe
enquanto estou a seu lado
ao som da música...

Hamlet
Sua frase me dá vida Ofélia...
(Só para ele próprio) Mas não sei...
Agora estou pressentindo a presença da morte...
(Voltando-se para Ofélia) Rei Cláudio e Rainha Gertrudes
no salão!
(À parte, e agora tirando a Morte da companhia 
de Cláudio e Gertrudes, que não a veem, para que dance 
com ele, e então com Ofélia, que também não a vê) Morte!
Venha dançar comigo! Minha nova companheira!
Já sou amigo do fantasma!
E que interessante: você não precisou vir de máscara!
A máscara já é sua cara! Ou melhor: ela sempre acabará sendo a nossa cara...
(Hamlet passa a dançar com Ofélia e a Morte. E fala outra vez 
à parte) Agora sinto que estou muito bem acompanhado!
Ah, o Amor e a Morte dançando comigo o balé da vida!

Ofélia
(Olhando Gertrudes, que dança com o Rei) De novo meus pêsames por seu pai,
mas não há como não falar sempre:
Gertrudes,
sua boa mãe,
é um sol radiante de beleza feminina...

Hamlet
Um sol metade cego para mim
pelo menos enquanto minhas dúvidas não forem
como a lua
que com intensas sombras
apaga parcialmente o Astro Rei.

Ofélia
A imagem é tenebrosa
mas romântica...

Hamlet
Dancemos mais!

Ofélia
Dancemos sim!
(À parte) Pergunto ou não pergunto sobre a carta?
Minha ama ficou de entregar a ele hoje...
Ah, na correria para me vestir nem perguntei isso para ela!
E na certa a ama também esqueceu de me falar
por causa das tarefas com minhas roupas...

Hamlet
(Só para ele próprio enquanto rodopia com Ofélia pelo salão) Difícil
dançar com duas ao mesmo tempo!
Ofélia é levíssima! Mas a Morte, pesada como a vida!

Ofélia
Realmente a vida nunca vai acabar
enquanto dançarmos Hamlet!
(Aproximando cada vez mais seu corpo no de Hamlet) A morte nunca existirá mesmo para nós
porque podemos passar a vida dançando!

Hamlet
Não, a morte não existe para nós Ofélia!
Um brinde à vida eterna dos amantes!
(Só para a Morte) Não estou te provocando Morte...
Dancemos também!

Ofélia
Não morreremos jamais Hamlet!
Podemos até fazer careta agora para a cara da Morte!
Vamos rir dela!

Hamlet
(Só para ele próprio) Que a Morte não te ouça!
(Para Ofélia) Fale mais baixo querida...

Ofélia
Tem vergonha do meu amor?

Hamlet
Não! É que quero ouvir isso como um sussurro apaixonado...

Ofélia
Romântico!

Hamlet
Ah! (Agora de novo à parte, encaminhando a Morte para Cláudio e Gertrudes, que ainda dançam) Volte Morte para o Rei e a Rainha!
Corteje eles também!
Faça sua festa tétrica!

Hamlet e Ofélia continuam dançando em rodopios pelo salão.

Hamlet
(À parte para a Morte, trazendo-a de volta para ele e Ofélia) Venha querida!
É um prazer ter outra vez você aqui comigo!
Preciso aprender a dançar a sua dança...

Ofélia
(Aproximando-se ainda mais de Hamlet, e quase o beijando) Por que nunca nos beijamos Hamlet?

Hamlet
Coisas do amor.
Primeiro ele vem como uma promessa,
um desejo,
uma criatura intocável...
Estamos nesse ponto. O ponto...
(Só para ele próprio) Ai meu Deus a Morte
deu para falar comigo bem agora...

Ofélia
Continue Hamlet.
Suas palavras são beijos...

Hamlet
(Para Ofélia) O ponto...
(Para a Morte, sem que Ofélia perceba) Sim, querida,
você dança muito bem!
Quem dançaria melhor essa música em tempos tão fúnebres?
E você nem precisou vir mascarada!

Ofélia
Hamlet!

Hamlet
(Para Ofélia) O ponto... o ponto em que nós
viramos um só na imensidão do mundo!
(Só para ele próprio) Não dá para ser bom poeta
dançando com a Morte!

Ofélia
Ah! É uma frase batida mas é sempre linda!
Não para Hamlet: rodopie!
(À parte) E nada de falar da carta...
Não recebeu!
Já sei: minha ama vai me devolver o envelope lacrado
como quem tem o orgulho
de ter tentado fazer
o que não conseguiu fazer.
Mas ela é uma boa mulher...

Hamlet
(À parte) A bebida, a Ofélia, o rodopio, a Morte
– acho que vou desmaiar!

Ofélia
Bom dançar com quem amamos!

Hamlet
Ah, a música parou Ofélia... Que pena.
(Só para ele próprio) Ufa!

Ofélia
Vamos descansar um pouco então...

Hamlet
Vamos...
(Só para ele próprio) Nem vou me atrever
a perguntar para a Morte
se ela cansou...
Dá que essa sátira insaciável,
por causa dessa festa para ela nada excitante
– um tédio –,
se vingue de mim
me cobrando já,
agora,
o que tenho que fazer em nome dela...

Ofélia
Engraçado Hamlet... Agora me deu a impressão
de que você está quase morrendo de cansaço...
Dançando eu não percebi...
Você está suando!

Hamlet
Dançamos por quatro sessões!

Ofélia
O baile já está para acabar. Vamos para o jardim!

Hamlet
Vamos, vamos... Mas antes:
você viu para onde foram o Rei e a Rainha?

Ofélia
Acho que estão no Grande Saguão
despedindo-se dos convidados.

Hamlet
(Só para ele próprio) É, não foi dessa vez.
Não percebi nenhuma falha,
nenhuma fissura,
nenhuma malícia neles
a respeito da morte do majestoso Rei meu pai.
Também,
rodopiando tanto
não enxerguei nada...
Mas tenho olhos e devo enxergar!
Quando enxergar
eu mancho de sangue
os pilares desse castelo!
E o sangue execrável do meu tio
vai evaporar
até deixar esses pilares de novo limpos...
 (Após silêncio) Só que é sempre a conhecida rotina
desgraçadamente humana
me paralisando:
para ter as ações
eu preciso pensar...
É a natureza vulgar dos seres humanos.
E então o Rei, meu tio, permanece nesse mundo... E até dança!
Os pensamentos tornam mesmo as ações covardes!
Mas ocasião virá!
Até mais Morte!
Nos veremos numa hora melhor!
Você estará amanhã no teatro?
Apareça!

Cena 3

Ofélia
(Dia seguinte. Auditório do castelo) O Rei se levanta! (Apontando-o.)

Hamlet
Pede que se pare a peça!
Os atores vão ficar desolados...

Ofélia
Todos se assustam!
Os atores e a plateia!

Hamlet
(Só para ele próprio) Eu mais!
Incomodado com a parte
que incluí na peça dos atores
mostrando uma cena
igual em todos os detalhes à cena
que meu reverenciado pai
me descreveu sobre a morte dele
  não foi a serpente que o picou,
como se propagou ao vento de toda a Dinamarca,
e sim o veneno que Cláudio
enfiou em seus ouvidos enquanto dormia
para que se disseminasse
por seu sangue sonolento e indefeso
contaminando-o de morte –
o novo e indigno Rei se ergue da poltrona
forçando o fim da peça...
E assim expõe sem saber toda sua culpa.
Minha mãe,
a indefinida Rainha Gertrudes,
quer ter comigo em seu quarto.
Teremos!

Ofélia
Para onde está indo Hamlet?

Hamlet
Vou ter outro encontro com uma discípula da Morte.
(Sai)

Ofélia
O quê?
Pronto: a loucura se instalou mais uma vez em Hamlet...
(Saindo do auditório e vendo a ama) Minha querida ama,
eu sei,
quero dizer,
já soube,
você não conseguiu entregar a carta para Hamlet...
Não se desespere...
(À parte) Deixa que eu faço isso por você
e principalmente por mim...

Ama
Me desculpe...

Ofélia
Claro, sei que você se esforçou...
Mas hoje em dia está difícil mesmo encontrar Hamlet...
(À parte) E quem o encontra fisicamente
terá que fazer outra procura:
a para achar Hamlet dentro dele mesmo...
Nem Hamlet sabe onde ele está...
Ontem no baile senti por vezes que Hamlet não estava lá...

A ama devolve a carta para Ofélia.

Obrigado por me trazer de volta a carta...
Ah, como já está amassada...

Cena 4

Quarto da Rainha

Hamlet
(Para ele mesmo, puxando a espada do corpo 
de Polônio, atrás da cortina do biombo) Não,
não é o aviltante Rei Cláudio
na ponta da minha lâmina?
Por Deus! É Polônio, pai de Ofélia!
Por que se escondeu atrás da cortina?
Fala morto!
Se a Morte já falou comigo
por que não um morto?
É um morto superior à Morte?
(Agora em voz alta) Por que estava aí em missão tão oculta?
Para ouvir a conversa que tive com minha mãe
que ainda está lá (apontando-a) assustada na cama dela?
Fala!
(De novo à parte) Foi uma conversa dura sim,
em que minha mãe se viu
entre a esposa e a devassa
– e pediu socorro!
E você aí escondido,
em vez de ajudá-la,
também pede socorro?
Covarde!
Antes tivesse matado o Rei,
o Rei inescrupuloso,
no corredor a caminho desse hediondo quarto!
Te tomei por ele agora
e em posição de morrer...
cometendo uma infração!
Ficar espionando minha conversa...
Que coisa horripilante!
Grave delito!

Rainha
Hamlet! Hamlet!
O que você fez?
Ah, é o horror!
O horror!

Hamlet
Coisas que acontecem nessa vida!
(À parte) Não matei quem eu queria, o Rei, no corredor
porque o encontrei ajoelhado rezando
e se o mato naquele instante de contato divino
– se falso ou não como iria eu julgar? –
ele ia para o Paraíso.
Era melhor esperar ocasião mais oportuna
para o Diabo seguir o rumo certo do inferno!
Mas errei!
Achei que ele tinha corrido para cá após a reza...
Que tinha entrado nesse quarto antes de mim...
E se escondido atrás dessa cortina...
Tudo isso eu pensei ao ouvir o grito...
Só que era Polônio, e não ele...

Rainha
Hamlet!

Hamlet
(À parte, ignorando a Rainha) Me arrependo
mas não sentirei remorso!
Tenho sentimentos mais importantes para sentir.
Minha promessa de vingança não está cumprida!
O ódio cada vez mais me domina!
Culpa sua (olhando para Polônio) eu desperdiçar uma morte
– e justamente a sua!
Agora vou ter que me ver com a Morte de novo...
E de novo com os pensamentos
que costumam paralisar as ações...
Sua morte foi tão espontânea...
(Ainda à parte mas mais abruptamente) Eu carrego seu corpo! 

4º. Ato

Cena 1

Esplanada

Francisco
Nem acreditei quando soube Bernardo.

Bernardo
Nem eu.
Hamlet deixou louca até sua espada...

Francisco
Pelo visto sim...
E ele já devolveu o corpo de Polônio
para ser enterrado?

Bernardo
Parece que já...

Francisco
E como ele está?

Bernardo
Já até voltou a andar pelo castelo...

Francisco
E não está nem um pouco mais louco?

Bernardo
Aparentemente não... 

Cena 2

Escadaria

Rei
(Descendo) Como acertamos,
avisaremos rápido para Ofélia
que o pai dela está morto.
Rápido, mas na melhor hora...
Antes de confortá-la
temos que tomar uma decisão urgente,
fazendo o que já estava decidido:
despacharemos Hamlet para a Inglaterra.
Ele enlouqueceu de vez.
E não é por amor!
O furo na barriga de Polônio assim comprova!

Rainha
(Descendo com o Rei. À parte) Meus pressentimentos começam
a se juntar à realidade...

Hamlet                                                                                                                                                         
(Subindo. Pensando em voz baixa) Seu sangue, meu pai, não será interrompido
por esse Rei decadente!

Rei
(Ainda descendo. Só para Hamlet, também em voz baixa) Hamlet sobe,
com culpas,
para a divindade?

Hamlet
(Só para o Rei, ainda em voz baixa) E o Rei desce,
com culpas,
para a glória dos humanos?

Rei
(Agora para a Rainha) É tanta confusão em minha cabeça
que não ouvi sua fala...

Rainha
Pensava em voz baixa...
(Agora para Hamlet) Hamlet,
uma viagem pode mesmo te fazer bem
nesse momento de profunda tristeza
pelo seu solitário ato...

Ofélia aparece no pé da escadaria.
Começa a subir.

Hamlet
(Para a Rainha. Ainda não percebeu
que Ofélia está ali) A solidão
às vezes é uma companhia
da qual não percebemos a importância minha Rainha mãe...

Rei
(Para a Rainha) E no que pensava?
(Para Hamlet) Até mais Hamlet...
(Para Ofélia, que acena de volta) Olá Ofélia...
Você vai para o seu quarto?
Temos o que te falar...

Ofélia
(Já perto de todos na escadaria) Sim, logo mais estarei no meu quarto...

Hamlet
(Para o Rei. Evita olhar Ofélia) Até mais...
(Agora para Ofélia) Apesar de tudo 
que você 
em breve vai saber
te ver por um segundo 
é como um lampejo...

Hamlet continua subindo.
Ofélia fica um pouco atrás.
Hamlet gira o corpo por causa do chamado de Ofélia.

Ofélia
Ah, Hamlet!
Por que está tão dramático?
Aprendi uma música
que fala de lampejos:
(Cantando) O brilho da vida
foge como a própria vida...
Um raio cintila aqui...
Outro raio cintila ali...
São tão raros...
Nossa sina é alcançá-los...

Hamlet continua subindo enquanto ouve a música.
Vira o corpo para trás para ver Ofélia cantando.
Rei e rainha continuam descendo.
Ofélia para no meio da escadaria. Continua cantando o que faz durante todo o restante da cena. 

Ofélia
(Cantando) E dizem que quando enfim os vislumbramos
esses raios tendem logo a sumir...
Então por que os queremos tanto
se já se sabe que podem ser um desencanto sem fim...
Ó brilho efêmero
a Fada do Destino me contou tudo:
cada pessoa nesse mundo
acha que cada lampejo
é um tesouro só seu...
E assim ele vai durar
o tempo que cada um deu... 

Rainha
(Ao mesmo tempo em que Ofélia canta. Para o Rei) Como vamos dar
a notícia tão cruel
para uma Ofélia que ainda canta? (E para Ofélia) Ofélia,
querida, como você canta bem...
A vida poderia imitá-la... (Ofélia agradece com a cabeça e os braços. E continua cantando) Mas pode ser aquele lá, aquela ali, você ou eu...
Dessa glória não temos posse...
A fada, que parece tão frágil, manda em todos nós
e, a sós, cada um com cada um,
sabemos que só nos resta buscar o que nos conforme... 

A Rainha sobe e desce alguns degraus
para conversar com o Rei e com Ofélia, que continua cantando. Mas pode ser aquele lá, aquela ali, você ou eu...
Dessa glória não temos posse...
A fada, que parece tão frágil, manda em todos nós
e, a sós, cada um com cada um,
sabemos que só nos resta buscar o que nos conforme...

Rainha
(Para o Rei) E então: como daremos a notícia tão cruel para Ofélia?

Rei
A urgência nos ensinará...

Rainha
Tomara. Já me caem lágrimas só de pensar na reação dela...
(Após silêncio) Então,
meu tão querido Rei,
eu estava falando
que despachar Hamlet para a Inglaterra
é mesmo a melhor decisão.

Rei
A grandeza de uma Rainha se mostra
quando nos momentos mais cruciais
ela pensa não só no filho
– mas no Estado como um todo...
Então,
nobre esposa,
agora mesmo vou acertar os detalhes
da viagem forçada de Hamlet.

Rainha
(Para Ofélia, que continua cantando) Canta, filha, canta...

Hamlet chega ao topo da escada. Sai.
Rei e Rainha chegam ao pé da escada. Saem.
Ofélia fica sozinha no meio da escadaria. 

Ofélia
(Ainda cantando) O brilho da vida
foge como a própria vida...
Um raio cintila aqui...
Outro raio cintila ali...
São tão raros...
Nossa sina é alcançá-los...
E dizem que quando enfim os vislumbramos
esses raios tendem logo a sumir...
Então por que os queremos tanto
se já se sabe que podem ser um desencanto sem fim...
Ó brilho efêmero
a Fada do Destino me contou tudo:
cada pessoa nesse mundo
acha que cada lampejo
é um tesouro só seu...
E assim ele vai durar
o tempo que cada um deu... 
Mas pode ser aquele lá, aquela ali, você ou eu...
Dessa glória não temos posse...
A fada, que parece tão frágil, manda em todos nós
e, a sós, cada um com cada um,
sabemos que só nos resta buscar o que nos conforme
– se é que tem mesmo o que nos conforme...

Cena 3

Cemitério 

Primeiro coveiro
Ouviu dizer que o Príncipe Hamlet
vai fazer viagem pra não mais voltar...

Segundo coveiro
Morreu?

Primeiro coveiro
Não seu tonto!
Vai viajar aqui nessa vida mesmo!

Segundo coveiro
E pra onde?

Primeiro coveiro
Acho que vai pros lados da Inglaterra,
não tenho mesmo certeza...

Segundo coveiro
Entendi, mas não sei onde fica...

Primeiro coveiro
É,
acho que vai pra Inglaterra,
mas é melhor esperar confirmar...
Aqui onde estamos
não dá pra ter certeza
de nada dessas coisas...
As notícias só chegam pra nós
pela boca dos enlutados...
Ontem não apareceu aqui
aquele serviçal do castelo?
Coitado, caiu da torre...
Pois então: foi dos acompanhantes dele,
quer dizer,
dos acompanhantes vivos dele
que ouvi isso sobre Hamlet...
Mas ainda não se sabe...
(Após silêncio) Só temos certeza do que vemos:
todo mundo um dia vem viajar aqui perto...
Segundo coveiro
Perto, e fundo...

Cena 4

Ofélia
(Em seu quarto, na frente do espelho da penteadeira, perfumando-se) Hamlet não devia ter me escrito isso: (Lendo uma carta) O perfume
que toca a pele de Ofélia
em eflúvios esparrama sua sublime essência para o universo
– e o universo então fica a mim mais envolvente.
O álcool que se esconde no frasco
resguarda a mais pura essência de Ofélia,
libertando-a quando se deflagra.
Gota a gota,
vapor a vapor,
Ofélia em névoa cobre cada mínima parte desse mundo
– e meus pensamentos.
Sinto que da fragrância
vem a inebriação que,
como ao ar o perfume,
em Ofélia meu desejo se fixa.
Mas como sentir esses mais atraentes aromas
se Ofélia ainda não posso exalar
em toda sua profundidade?
Só me resta a difícil espera...
Não, não será tão difícil:
o tempo agirá com sua perfeita máquina
e Ofélia logo será a flor do mais expansivo aroma.
Expansivo? Sim, como meu amor.
(Após silêncio) Hamlet não devia ter me escrito isso!
O que faço agora com o amor dele
disperso por todo o espaço?
Um amor assim mesmo:
borrifado, ainda não sólido...
(Batem à porta. Ofélia atende – e retoma) O quê?
A desgraça das desgraças!
Hamlet matou meu pai!
(A Rainha a conforta) Meu pai!
O único homem além de Hamlet
de quem busquei atenção nessa vida...
Minha mãe, minha mãe,
ah, ela se foi cedo demais...
Que lembranças me vêm agora
entre lágrimas
da época em que meu pai era um Rei...
Um Rei para mim!
Mas agora... agora meu pai está morto... e morto por Hamlet!
Meu infortúnio duplamente realizado!
Meus dois reis sem nenhum reino!
Meu pai se foi...
E Hamlet se vai...
O Rei Cláudio o despachou para a Inglaterra
(A Rainha mexe o rosto concordando) Por precaução... em benefício a todo o Estado...
Hamlet, um príncipe nocivo para o Estado? (A Rainha concorda com menos ênfase)
Para o Estado eu não sei...
Mas para a minha pátria mais íntima,
minha Terra Natal,
meu pai...
Ó, Deus, ele matou meu pai!
Que quantidade de choro
vai inundar essa dor em mim? (A Rainha a abraça)

Rainha 
Ofélia,
você suporta
essa dor
por alguns minutos
sem a minha presença?
Sua ama já está vindo...
e quando ela chegar
terei que sair...
Ah, olha ela aí...(Entra a ama)
Tenho que ajudar o Rei
nesse lamentável momento.
Ele já prepara a carta para avisar
seu irmão, Laerte, na França, sobre o que aconteceu,
está cuidando pessoalmente do enterro
e de tudo mais que a vida agora exige... 

(Ainda desesperada, Ofélia faz sim com a cabeça. 
E grita após alguns segundos) Hamlet!
Hamlet!
Meu único e eterno amor de mulher...
Meu pai,
que já teve meu amor de menina
para depois ficar
eternamente
com meu amor de filha,
morto por ele...
Hamlet, Hamlet, Hamlet...
Outro dia dançava comigo!
Outro dia pôs seus lábios perto dos meus
extraindo de mim meu suspiro mais sublime...
O amor e a cólera disputam meu coração!
Tempestade contra oceano!

A ama a conforta. Mas Ofélia sai correndo. Desce a escadaria e vai até o portão do castelo. Quando vê Marcelo, que notando o desespero dela quer aproximar-se, ela para, afastando-o drasticamente. Marcelo pede para o soldado abrir o portão. Ofélia então dispara para a rua.

Hamlet
(Em seu quarto. Escrevendo – e lendo em voz alta o que escreve) Agora para que servem as palavras?
Quais escolher?
Elas podem ser as armas do meu pensamento
– armas que posso usar até contra mim mesmo.
E elas também podem ser
a continuação do meu coração,
apesar de tudo apaixonado.
A um Hamlet em alvoroço quais, enfim, escolher?
Ofélia,
por você escolho as do coração,
as que fazem dele um músculo independente
nessa busca entre um homem e uma mulher.
A vida é um tumulto de ambiguidades!
No pó em que surgiu Adão
já havia dúvidas.
É da natureza do mundo!
Deus nos deu o corpo
e os espelhos como contraponto
para nele,
além das nossas dádivas,
enxergarmos todas as nossas imperfeições.
E somos feitos de lascas, farpas, estilhaços!
Somos uma obra-prima de fragmentos!
(Após silêncio) Ofélia!
Essas palavras são meu álcool!
Me aliviam da realidade sangrenta
e dos meus defeitos...
O que eu fiz?
Que ato condenável!
Mas eu ainda conseguirei te amar!
E você?
... E você?
Só que agora adeus!
O Rei Cláudio já deu ordens
para me encaminhar à Inglaterra
depois que eu matei seu pai Ofélia!
Sim, matei seu pai Ofélia!
(Após silêncio) Contra minha vontade vou viajar...
Me espere!
Quero te mostrar essa nova e tão dolorida carta...

Cena 5

Salão nobre

Rei
(Falando sozinho) Hamlet se foi.
Não voltará!
Sua consciência está confusa?
Não sabe mais o que fazer de sua vida?
A morte saberá!
Que os nobres ingleses
deem sequência a meu plano
assim que lerem minha carta!
A morte sempre oferece um novo parecer à vida...
Ela também limpará minha consciência...
Adeus Hamlet!
E se Hamlet desaparece o Rei ganha mais realeza.
Serei duas vezes Rei!
O que é a vida sem ter autoridade para vivê-la?
Meu sangue nunca foi vassalo!
Nem a mais carregada sombra
do meu irmão
nunca me assustou!
Enquanto Hamlet,
o pai desse Hamlet que agora se vai,
era o todo-poderoso na Dinamarca
eu brincava de teatro das sombras com ele...
Já como esqueleto,
que não brinque de teatro dos mortos comigo...
A vida, a morte, a vida, a morte,
tudo isso é uma rotina sem fim!
Por que então a vida tem que se importar com a morte?
A vida é o único lugar que conhecemos
onde podemos fazer festa.
Festejemos!
(Após silêncio) O antigo Rei Hamlet está no alto das nuvens,
ou nas profundezas da terra,
e aqui,
nesse ar que às vezes tenta nos comprimir,
temos que continuar nossos passos,
ecoem eles culpas ou não.
Falando genericamente,
para um acusado,
qualquer mesmo que seja ele,
e qualquer mesmo que seja a acusação,
a moralidade,
em sua extensa paisagem,
fica como uma armadilha sempre ao longe...
Sem que se saiba o autor,
o eventual crime cometido fica só na cabeça dele,
e cabe a ele afastá-lo da armadilha,
e da moral.
(Após outro silêncio) A moral só começa com o flagrante.
Adeus Hamlet!

5º. Ato

Cena 1

Ofélia
(Numa carruagem)

Deus, me perdoe!
Estou indo atrás do meu amor: Hamlet banido!
Ele baniu uma parte do meu corpo – meu pai!
Quanto ódio tenho por Hamlet!
Mas se ele se for para a Inglaterra,
como está indo agora a mando do Rei
para que o Reino fique protegido de sua loucura,
estarei eu igual a ele: inteiramente banida!
(Gritando para o condutor) Rápido! Mais rápido!
Ponha esses cavalos para correr!
(Retomando) Vou amar Hamlet com todo meu ódio!
(Pega a carta e lê) ... e incêndios,
... em mulher no auge
– a mulher deflagrada dentro dela
corre por sanguíneos enigmas...
(Retomando) Hamlet tem que ler essa carta!
É a carta da minha vida para ele...
e que nunca chegou a ele...
(Para o condutor) Vamos! Vamos!
Tem que dar tempo!
(Som da carruagem correndo por um tempo. Ofélia cada vez mais aflita) Depressa! Mais rápido!
(Som da carruagem correndo por um tempo. Ofélia em sobressalto. E depois descendo abruptamente da carruagem) Hamlet! Hamlet! Hamlet!
Eu te perdoo!
Vem cumprir sua promessa para mim!
Não me deixe ainda mais sozinha...
Minha promessa... essa carta... a entrega... meu corpo...
A sua promessa... seu corpo... sua entrega...
A loucura,
a loucura real,
começa a me invadir...
E uso esse começo de loucura para gritar mais forte:
Hamlet! Hamlet! Não vá para a Inglaterra!
Hamlet! Hamlet! Hamlet!
(Perdendo a intensidade) Hamlet! Hamlet... Hamlet...

Mar do Norte

Hamlet
(Hamlet pulando de um barco para outro) Nessas águas
que,
pelas conexões líquidas,
ainda retratam
a partir do Canal da Mancha
a derrocada da Armada Invencível espanhola para a Inglaterra,
deixo lá trás
outro rastro de vilania contra minha vida:
a mando do Rei,
meu tio,
Rosencrantz e Guildenstern,
meus amigos de infância,
iam entregar uma carta pedindo,
sem que eles soubessem,
para os nobres ingleses me matarem
no ato da minha entrada na Inglaterra,
à deriva do destino que imaginei para mim,
mas que, fosse esse, esse seria.
Miseravelmente esse.
Até esse Mar do Norte,
que une a Dinamarca
à que seria para mim uma mortal Inglaterra,
estava arranjado
por meu tio
para me transportar para o último dos meus dias.
Só que descobri a farsa a tempo
e lá estão eles,
Rosencrantz e Guildenstern,
sempre tão fiéis um ao outro,
fiéis a eles mesmos também agora:
os dois mortos
por um carrasco à minha ordem
na carta que forjei
com a assinatura falsa mas impreterível do Rei
aos nobres ingleses.
Pela coroa de Cristiano 4º.!
Já estou em outro barco...
Outro barco, outra vida!
Elsinore,
Dinamarca,
logo estarei aí!
Ainda não cumpri meu destino.
E o destino ainda não cumpriu seu trajeto para mim.
Hamlet só não saberá se dar bem com o destino
se for um ser negligente!
(Após silêncio) Estava indo para a morte planejada por Cláudio.
Agora estou voltando para matar Cláudio.
E vou poder amar Ofélia sem mais obstáculos...
Se depois de tudo ela permitir
vou me entregar totalmente a ela...
Como Ofélia vai reagir?
As mulheres são tão inconstantes
quanto as ondas desse mar...

Ofélia
(Vagando pelo pátio do castelo) Hamlet estava louco,
no entanto sinto que a loucura de verdade,
sem métodos,
já se infiltrou em mim...
Ainda me resta lucidez
para perceber o quanto
a parte da loucura
logo ficará maior em minha mente...
É incontrolável...
Mas antes,
quando outro tipo de loucura,
só a do amor,
e a lucidez
concorriam pelo mesmo espaço
no meu então cada vez mais arrojado corpo,
tive tempo de escrever tudo o que queria
falar um dia para Hamlet.
A carta...
Me corrói a alma não ter alcançado Hamlet
a tempo de entregar para ele a carta...
É minha melhor carta para ele...
O meu melhor desejo para ele... meu corpo...
Não sou mais aquela Ofélia
que meu pai e meu irmão queriam preservar...
Preciso de Hamlet em mim!
Nunca nos beijamos...
Mas meu desejo agora vai além dos lábios!
(Tira a carta do bolso e lê) Meu sempre único e sempre já maior amor Hamlet,
o desejo rompeu a seda
que envolvia meu corpo
– e do rasgo saiu uma flor selvagem,
e em fogo.
Minhas chamas se alardeiam
por todos os meus sangues.
Agora, Hamlet, sou uma mulher urgente.
Urgente do nosso amor.
Das nossas peles.
Da mulher e do homem que somos.
Minhas convulsivas veias explodem em meu corpo.
Sou uma incipiente mulher já em colapso.
Sou toda instinto.
Minha própria correnteza me leva
– e entre águas tão revoltas me reconheço.
Essa é a Ofélia que se formava em mim.
E agora estou cada vez mais entregue a ela.
A nova Ofélia já se conhece mais:
a pureza que a paralisava
era o remanso do mar
virando
de vibração em vibração
aquilo que rebentaria como grande onda feminina.
E uma onda não há como ser bloqueada
– precisa crescer,
estourar
para
só com o tempo
ir quieta ao encontro das areias da praia.
Só que
como o oceano
a mulher gera outra onda,
e outra,
e outra,
incessantemente outra.
Todas elas são suas Hamlet.
Serão sempre suas Hamlet.
A mulher tem águas infinitas:
águas puras, águas com o vício do próprio corpo
– e enquanto não misturamos
umas às outras,
ainda que no fundo elas sejam as mesmas,
não nos sentimos mulher,
não em sua complexa plenitude.
A mulher é um mistério.
Um mistério repleto de insensatez.
E é essa insensatez que nos faz mais mulher.
Somos despudoradas,
imprudentes,
impulsivas,
desajuizadas,
inconsequentes,
somos tudo isso,
e muito mais,
quando buscamos o amor no corpo de um homem.
Queremos
sem fim
nossos desejos
incitados
pelos desejos dele.
Quero você Hamlet.
Quero seu desejo por mim.
Quero meu desejo por você.
E ele não é pouco.
Vejo o mar em toda sua extensão,
e altura,
e sei que minhas águas em revolta não cabem nele.
São maiores que o mar
– maiores que todos os mares.
E a correnteza delas carregam meus mais fortes ímpetos.
São todos para você Hamlet.
São todos seus.
Sou toda sua.
E cada vez que for sua
serei ainda mais sua,
sempre sua,
sempre
e em cada mínima imensidão do meu corpo
completamente sua Ofélia.
(Após silêncio) Guardei tudo isso para você
em meu peito Hamlet!
Mas você não está aqui!
Deixou só sua loucura,
e os rastros dela,
nessa pobre Dinamarca!
(Após outro silêncio) Por que sua loucura,
Hamlet,
atiçou a minha,
começando a me destruir?
Em breve também te direi adeus!

Hamlet
(Já no outro barco) Minha loucura racional termina aqui!
Agora sou só essa razão louca!
Minha Dinamarca à vista!
Morte ao Rei!
(Só o barulho do mar agitado por um tempo)
Morte a Cláudio!
(De novo só o barulho do mar agitado por um tempo)
Esse mar rebelde me instiga ainda mais!
Vamos espíritos dos oceanos:
me levem a meu verdadeiro destino!
(Outra vez só o barulho do mar agitado por um tempo)

Ofélia
(Vagando pela rua, a igreja ali perto) Ó fogo:
consome meu corpo!
E meu espírito!

Cena 2

Hamlet
(Barco) A sensatez e a loucura são feitas da mesma sutileza...
E eu nunca estive tão loucamente sensato!
(Após silêncio) Já vejo a Dinamarca!
E a Dinamarca já me vê!
Minha sombra a alcança!

Ofélia
(Já no galho de um salgueiro em cima de um riacho) Todos têm que cantar:
“Embaixo, embaixo...
Foi o filho do mordomo
quem roubou a filha do patrão...
E a coruja é filha do padeiro...
As violetas,
todas elas murcharam...
Dizem que meu pai teve um bom final!”.
O salgueiro não dá fruto...
Mas esse vai dar fruto esquisito...
Se cair na água lá embaixo
é fruto que já nasce morto...
Ofélia sou eu?
Sou a coruja embaixo do sol...
Filha de quem se o pai já está morto?
E morto por quem?
Sai coruja de mim!
Amada por quem se...
O alto do mundo é tão alto...
Lá embaixo é muito fundo...
E eu tenho um sonho... Um último sonho...
O passado vira futuro... que vira presente...
A ama me trouxe a carta de volta...
Não entregou para Hamlet...
Um dos serviçais do Rei com um jogo de espadas....
passa... ao lado dela... no corredor... do castelo...
O castelo também enlouquece...
Vai ter algum duelo?
Ó Deus! Não!
Que sonho final!
(Caindo de vez do salgueiro no riacho) Ah, minha razão!
Não fiquei louca...
A vida... a vida é que ficou...
Adeus! Adeus!
O duelo... o duelo... (Começa a boiar no riacho)

Cena 3

Cemitério. Coveiros fazendo a cova para Ofélia.

Primeiro coveiro
Pronto,
Senhor,
como sempre alguém está viajando até aqui hoje...

Segundo coveiro
E daqui vai embarcar pra bem longe meu Senhor!

Primeiro coveiro
Não é que é longe...
É que não sabemos onde fica...

Hamlet
(Hamlet segurando o crânio de uma caveira, e chegando mais perto dos coveiros) Ninguém sabe!
Mas então amigos:
esse era realmente Yorick?
Foi um Bobo da Corte...
Me fazia tanto rir
e agora está aí
como uma peça do infindável tesouro da Morte...
Mas espera Horácio!
(Joga o crânio no chão e afasta Horácio com as mãos) É Laerte que vem vindo!
Minha mãe, a Rainha...
Cláudio, o Rei...
Vem, Horácio, dá uns passos para trás comigo...

Segundo coveiro 
(Apontando com os olhos para Hamlet, e cavando 
a sepultura) Quem era esse?

Primeiro coveiro
(Também cavando) Um louco!
Se diz que brincava com Yorick
só poderia ser Hamlet...
Mas esse aí todo transtornado?
Só se for um Príncipe do Delírio!

Hamlet
(Para Horácio) Vamos ouvir o padre...
(Após silêncio) “Ritos sumários?”
“Circunstâncias especiais?”
“A Igreja recebe o corpo...”
Laerte também fala...
O quê?
É o enterro de Ofélia!
(Adianta-se e pula em cima da sepultura) Cubram de pó
este aqui vivo
e a morta!
Tire suas mãos do meu pescoço Laerte!
Um irmão não amará mais Ofélia do que eu!
(À parte) E ouvi muito bem:
o riacho a levou...
A loucura dela
se encontrou
com a loucura das femininas águas...
Preciso agir!
(Saindo do cemitério, Horácio ao lado) Quando ia para a Inglaterra
vi,
em solo dinamarquês,
Fortinbrás,
o sobrinho do Rei da Noruega,
cujo pai,
antigo Rei,
meu pai derrubou em batalha...
A Noruega,
em acordo com o Rei,
desistiu de avançar sobre a Dinamarca
reivindicando terras perdidas em batalhas passadas...
Mas em troca
ganhou o direito de atravessar a Dinamarca
rumo à Polônia
para lá,
corpo contra corpo,
sangue contra sangue,
tentar adquirir um pedaço de terra...
Um pedaço ínfimo,
mas que levou o também jovem Fortinbrás
à batalha...

Horácio
Um valente esse Fortinbrás...

Hamlet
E eu?
Vacilei sempre entre a espada e o pensamento
para vingar meu pai!
Pois meus pensamentos agora serão só sangrentos!
(Após silêncio, olhando para trás) Adeus Ofélia, meu amor...
Seu coração era minha mais secreta e suave coroa...
(Retomando a caminhada) Agora usarei
só a coroa da vingança!

Cena 4

Hamlet
(Esgrimindo com Laerte num dos salões do castelo. O Rei e a Rainha assistem. Horácio também. E serviçais) Ponto!
Te atingi Laerte!
Não?
O Rei decide se é ponto meu ou não!
Vamos para o próximo!
(Anda de costas para Laerte aprontando-se para o round seguinte. Grita)
O quê?
Me atacou pelas costas!
Traição!
Estou sangrando...
(Apaga-se a luz)

Luz acesa de novo no salão

O fantasma do pai de Hamlet passa sem olhar para nada.

(Apaga-se a luz)

Luz acesa de novo no salão

Hamlet
(Caindo após o golpe mortal de Laerte. Laerte, Rei e Rainha já mortos) Você ouviu tudo o que acabei de descobrir Horácio!
Era para ser só um duelo de esporte,
de aposta,
assim falou a Hamlet, esse ingênuo Hamlet, o Rei Cláudio,
mas a espada de Laerte
trazia um oculto veneno contra meu sangue...
Estou morrendo...
Adeus espetáculo da vida...
Aceitei, foi um erro?, duelar...
– ai, a morte está perfurando de dor a minha pele –
... espada a espada contra Laerte,
que retornou da França para vingar,
ele também,
... a morte do pai... – ai que dor... – por mim...
Eu sou o Rei Cláudio dele...
Ele está aí jogado,
... já morto...
O matei... com a mesma espada que ele,
... em conluio com o Rei...,
perverteu...
Traidor...
Na esgrima... nossas espadas caíram no chão...
e desconhecendo naquele instante...
qual era qual...
Ele... pegou... a minha, castiça como Ofélia...
E eu... peguei... a dele, imoral como Cláudio...
E sem ainda saber do veneno...
trespassei-o... com a imoralidade de Cláudio...
E Laerte agora está... não está mais... entre nós...
Pelo menos... não mais como ele era...
Minha mãe – ai, já me falta ar – está morta...
Tomou sem querer...
a bebida... com a pérola maligna...,
outro veneno...,
que o Rei,
ó meu Deus ..., que palavra essa..., Rei...,
que o Rei Cláudio,
artífice... de toda essa... perfídia,
tinha reservado para mim...
caso a espada manchada... de baixeza... de Laerte...
não concluísse sua tarefa...
Preencho
– ah, dor –
...de palavras...
esses meus últimos momentos...
As palavras são meu reino...
E finalmente... Cláudio,
o Rei...,
meu tio,
... irmão repugnante... do meu pai...,
está morto – o matei.
... Matei-o...
– deem-me ar! –
... com a mesma espada...
corrompida de Laerte
e, por reforço...,
...com o mesmo líquido...
com o mesmo líquido... torturado...
pela maligna... pérola... que matou minha mãe
quando –
... ó quadro ignóbil... – 
depois do golpe... com a espada venenosa
...o forcei... a beber a bebida letal...
ao perceber toda sua longa intriga...
ali... naquele combate... armado por ele...
Só que... também... já estou morrendo...
Há muito... pouco ar... nesse mundo...
As cenas se repetem... na minha... já rasa... memória...
A... espada... infame...
de Laerte...
me atingiu... antes... de cair no chão...
junto... com... a minha espada...
minha virgem... espada...
Ah, casta... Ofélia...
Agora... eu que caio...

Horácio
(Taça com veneno na mão) Horácio
vai junto com você
Hamlet!

Hamlet
Não...!
Não!
Não... se mate... Horácio! (Horácio larga a taça)
Já basta... eu... estar me despedindo...
do que fui...
e do que não fui... ...
Mas você...,
... Horácio...,
você tem... que... permanecer... nessa Terra inconsolável
... para contar... toda essa história...

Horácio
(À parte) Então agora resguarde-se para a morte meu amigo...

Hamlet
Ofélia, ah, Ofélia....
que destino... triste... o nosso...
Aqui...
nos instantes... que... ainda... me restam,
meus olhos... a refletem...
como a última cena...
... de um amor...
... que se tornou impossível.
Meus olhos... reproduzem...
como me contaram...
a forma...
... com que você...
enquanto eu lutava...
... pela vida...
... em farsante embarcação...
se foi desse mundo...
Por não aguentar... a morte do seu pai... cometida por mim...
Meu Deus,
...eu...,
que te amei tanto...,
tive...,
... para vingar a morte do meu pai...,
... ocorrida.... sob tão sinistra constelação...,
que fingir... que... não te amava mais tanto...,
para que assim ...com a promessa letal... me guiando...
... fizesse... o que... meu pai me ordenou ...
... e também...
para poupar
... de ato tão grosseiro...
a... Ofélia tão íntegra.
Mas agora... agora você... está em meus olhos...
(Ofélia surge no palco em meio a brumas que se dissipam 
de um riacho repetindo os movimentos que Hamlet 
fala que ela faz)
E...
... já estirada...
... inerte no riacho...
depois do ato... em falso... no galho...
vai...
em... sua... legítima loucura...,
nunca houve... outra... tão verdadeira...,
vai... vai aos poucos afundando... afundando... afundando...
(Ofélia se arrasta lentamente como se seu corpo baixasse no riacho para com isso ficar quase boca a boca com Hamlet)
... para que esse mundo... esse mundo de imperfeições... cubra...
sua joia... mais imaculada...
Sua presença... nos meus olhos...
é tão forte...
– meus... derradeiros ares... –
... que sinto... seus lábios... perto de mim...
como nunca estiveram...
Sinto seus desejos...
Devíamos... ter... nos beijado... desesperadamente...
... desde... o início.
Mas aqui...
... no fim de tudo...
de novo... teremos... um beijo... que não acontecerá...
coroando... uma história... que... de fato... aconteceu.
Posso até ouvir... você... falando:
“Hamlet..., a morte... entrou em mim...
pelas frestas... torturantes... do meu... frágil coração...
Fique com minha dor...
É tudo... o que posso... te oferecer agora... 
... além... 
do meu grito final...”.
(Ofélia morre)
(Hamlet retoma) Ouço esse grito também...
– ... e vou levá-lo comigo...
... porque esse grito... é... como um beijo seu...
O resto é silêncio.
(Morre).

Nossa, você foi mesmo para Shakespeare – e foi longe. E vou te falar: gostei. Você escreve bem melhor do que eu. Preciso ler mais Shakespeare.
Ah, outra observação – quando eu disse para você sair desse conto tão confuso, absolutamente caótico, e ir para Shakespeare foi só um modo de falar. Você poderia ir para qualquer outro escritor, e se salvaria desse caos. Só que você foi sim ao Shakespeare – e ainda foi longe nele. Você é cruel.