20 de julho de 2018

Rapidíssimo 2
(Mudança)

7h11. De novo no trabalho. Jornalismo.

E outra vez muito obrigado a todas pelas mensagens sobre o posts que falam de intimidade 
– e da mulher. Essas mensagens continuam chegando. Acho que esses posts logo vão ficar mesmo entre os que mais despertam em vocês o desejo de me mandar mensagem. Realmente muito obrigado.

W.  
Rapidíssimo 1
(Mudança)

2h09. Madrugada. Trabalhando. Nova peça de teatro.

Aproveito a pausa – devo parar mesmo o trabalho lá pelas 3 e meia, 4 – para agradecer a todas que me mandaram, e estão mandando, mensagem sobre os posts aí embaixo falando de intimidade. Muito obrigado pelas palavras generosas, e até mais que generosas.


Sim, mais. É que por causa do tema – intimidade – essas mensagens estão inclusive mais próximas, imediatas, confessionais do que as que costumo receber, e assim não tenho, que nem muitas me pediram por eu dias atrás ter posto no blog a, uma numa vez e outra em outra, mensagem de duas leitoras, como publicar elas aqui. Mas, igual sempre, li, e vou ler as que eventualmente ainda chegarem, todas com bastante carinho. De novo muito obrigado então. Muito obrigado mesmo.


Fico lisonjeado por gostarem tanto de Intimidade do olhar e Intimidade do amor – e de todos os outros poemas de Imaginária ela. Como uma boa parte de vocês sabe eles continuam representando muito, tudo, para mim.

W.  

18 de julho de 2018

Continuação da intimidade
(Última-ultimíssima versão)

Bom dia:

Fantasia, Chopin

Anna Fedorova, piano
https://www.youtube.com/watch?v=amM4eDEaw-A

E ainda na intimidade da intimidade, 
continuando uma, essa, na outra, anterior
 – e de novo também do post
aliás, reforço, tão íntimo mesmo para mim, 
e agora, 
também reforço, 
com mais algumas das pequenas mudanças que venho fazendo nele,
mas sempre com o mesmo significado para a mulher,
Imaginária ela (http://wfpadovani.blogspot.com/2016/08/ela_42.html)
:

Intimidade do olhar

Por nosso olhar também ser táctil,
ao ver A noiva judia, de Rembrandt,
num átimo de distância, e de tempo, de mim
ela sentiu,
como eu quando o vi naquele diverso átimo,
nossas mãos se tocando
no implícito compromisso de eterno:
íntima cena fora do quadro.
Nos tocamos pelas ainda que distantes mas atemporais retinas
– os raios que deflagram-se do nosso olhar,
e memória,
e destino,
saga sempre cumprida,
nos compõem, em vínculo, a cada instante,
perto, no rente foco, ou não:
pintura real,
e a toda vez única,
de um homem e uma mulher em busca um do outro.
O olhar tem algo de líquido:
úmido, envolve, pelo foco, a mira, essência,
e envolve do mesmo modo o instante em que da essência se tem o foco
– assim,
naquele momento, um só, em que o quadro surgiu aos nossos olhos,
um só porque o meu momento e o dela,
embora o átimo,
se unem,
água que encontra água,
nos envolvemos com nossa essência,
e nosso, embora aliás o átimo, tempo,
tempo que se não flui entre nós juntos é outra substância,
e, por paradoxo, é o avesso da água,
e se é avesso é parte,
fogo,
não o fogo da volúpia, febre, mas o que devora, canibal.
As mãos que se tocam em intimidade
têm como raiz,
pétala que surge da fricção da seiva,
um incêndio,
a chama que corre pelas veias
– e por isso o fogo, tempo, nos, se longe, devora com sua canibal sede,
que, o avesso como parte, fogo é água.
E se é água, e é, é, ainda, olhar:
os raios que lançamos no mesmo instante,
átimo sobre átimo,
ao quadro,
em outro,
afinal em tudo há vários,
avesso do fogo
exceto a canibal sede,
nos reconforta contra a distância.
A mão dela,
naquele átimo sobre átimo que dissolve o tempo,
e a distância,
afaga a minha,
que afaga seu peito
– nosso íntimo ainda que exposto sem medidas exíguo universo,
irreprimível confidência,
tácito compromisso de eterno.
Pele na pele,
veias nas veias,
o sangue,
o instinto,
a sincronia,
a sensação,
o momento,
o registro em tácteis tintas imaginárias:
nosso quadro.
Um quadro que flui,
escorre,
segue,
pois é de ininterruptos traços que se faz,
e não de obstruída tinta,
– e então a cada ponto em síntese do nosso destino,
saga que se cumpre,
como o da mão na mão no peito,
se solidifica no que dele é contínuo líquido, e fulgor, intacto.

W.  

17 de julho de 2018

Intimidade
(Última-ultimíssima versão)

Boa noite:

Noturno, Chopin

Anna Fedorova, piano
https://www.youtube.com/watch?v=QrdK47U_VKA

E a intimidade da intimidade 
– do post, aliás tão íntimo mesmo para mim, 
e agora com mais algumas das pequenas mudanças que venho fazendo nele,
mas sempre com o mesmo significado para a mulher,
Imaginária ela (http://wfpadovani.blogspot.com/2016/08/ela_42.html):

Intimidade do amor
Inspirado no quadro A noiva judia, de Rembrandt

A mão da mulher toca a minha tocando seu peito
e esse recíproco, e exclusivo, contato,
camada sobre camada,
elo,
nos envolve,
aos dois,
peles,
olhos,
desejos,
e também o rente em volta que de nós mesmos fazemos,
pelo mais íntimo apesar de à mostra universo:
o sangue no sangue,
que o sangue é a veia,
e a veia pele,
mão,
entre ela e eu 
– e por isso o que é interior nos é explícito,
irreprimível confidência.
Mas mesmo irreprimível a nós ainda é segredo:
não então ao externo,
e sim pelo segredo que o silêncio, o cúmplice silêncio, concede
só a nós,
que nele entramos,
ou dele nos cobrimos,
como se sob a capela, catedral, sagrado céu.
Há, assim, segredos no nosso segredo.
E são esses segredos do nosso segredo
que ao tocarmos as mãos,
e veias,
sangues,
avessos,
peles,
resguardamos apenas para nós
– capela, 
catedral, 
sagrado céu 
circunspectos neles,
necessário abrigo de um no outro,
nossos corpos em pacto,
e a boca,
pelo pacto,
como romã aberta para ser absorvida pela outra boca,
retina na retina,
sua mão tocando a minha que toca seu peito.
A mulher,
em espontâneo gesto,
leva a outra mão ao ventre
para,
deflagrada pela nossa intimidade,
abrigar, 
com a mão,
que a mão é capela, catedral, sagrado céu,
a origem,
oculto umbigo,
e sua profunda escuridão,
e silêncio,
silêncio que no entanto é jorro,
vínculo da água na água,
e a água é palavra é verbo é saga.
E por levar sua mão ao ventre
leva,
pela iminência,
a minha,
e o ventre,
minha mão na sua,
fica intrínseco a nós
– oculto umbigo como fruto que de nós também é ramo,
pois, à seiva, nos principia –,
deixando-nos ainda mais perto,
na fronteira entre nós
e o que fora de nós não é cada um 
nem, se não juntos, ambos.
Essa fronteira é o sem medidas exíguo espaço em que só nós vivemos,
com nossos códigos,
cifras,
chaves:
o já portanto íntimo apesar de à mostra universo
– humano universo gerado pelo tácito compromisso de eterno
que existe somente na sua mão e na minha
quando,
já na busca de uma pela outra,
demonstram a nossa mútua táctil conquista,
e entrega. 

W.  

9 de julho de 2018

Mudanças

A nova chamada de Hamlet e Ofélia:


Hamlet e Ofélia
A única, e trágica, paixão
do maior personagem
de todos os tempos
– e cuja história
nos põe cara a cara
com os desafios,
dúvidas
e loucura
do destino humano

Ofélia foi a única paixão do maior personagem de todos os tempos – Hamlet –, da maior peça de teatro de todos os tempos – Hamlet – e do maior escritor de todos os tempos – Shakespeare. E ela amou Hamlet até na loucura – de ambos.

Hamlet e Ofélia é uma fábula de dois jovens poetas perdidos um do outro pela tragédia do destino. Enquanto Ofélia vai pouco a pouco se transformando em mulher, e com desejos de mulher no amor, Hamlet tem que se transformar em outro homem, e com as dúvidas de um homem frente ao desafio dessa transfiguração, para cumprir a vingança exigida pelo fantasma do pai dele – que era o Rei da Dinamarca antes do seu irmão, Cláudio, tio de Hamlet portanto, casar com Gertrudes, a Rainha, mãe de Hamlet, ex-mulher do antigo Rei, e assumir a coroa após a sua morte. E a busca desesperada dos dois – cada um a seu modo – heróis para seguir o caminho que o futuro lhes reservou não os leva, apesar da paixão entre eles, a um destino em comum, juntos.

Drama, suspense e romance: as cartas e ações de Hamlet e Ofélia agora reveladas – incluindo a carta de Ofélia que Hamlet nunca leu, e a de Hamlet que Ofélia também nunca leu – desvendam essa espécie de Romeu e Julieta até hoje oculta atrás da maior história já escrita para ser contada num palco. E que saiu do palco como, ela própria, um fantasma que nos instiga perante a vida.



Mudei também o começo de uma longa fala do Hamlet. Essa:


Hamlet
(Em seu quarto no castelo) Os novos fatos me desnorteiam.
Meu pai,
de quem carrego,
como reforço do seu sangue no meu sangue,
o mesmo nome,
Hamlet,
me apareceu em forma de fantasma,
um fantasma que parecia abraçar todo esse castelo de Elsinore,
toda a Dinamarca,
todo o mundo,
e me contou a verdade sobre sua morte.
O fantasma foi claro: o irmão dele,
meu tio Cláudio,
o novo Rei da Dinamarca,
é que matou meu pai
para depois casar com minha mãe,
a até aquele momento imaculada Rainha.
O fantasma continuou o relato:
me ordenou a vingança.
E é ela que toma meus pensamentos
expulsando de mim o amor.
Pecado contra pecado!
O amor vira pecado se me atrasa a vingança.
Em nome do meu pai
tenho que matar meu tio!
Só não sei como
– e isso,
além de ter que cometer o assassinato,
assassinato mesmo,
com morte e tudo,
me paralisa.
Hamlet inepto!
(Após silêncio) Mas antes o que faço com essa carta
que ainda não entreguei para Ofélia?
(Lendo) Primeiro vem a Ofélia,
depois vem o ar.
Porque sem o ar eu morro
e sem a Ofélia eu nem vivi.
E na natureza tem mais ar do que Ofélia.
Ele é tão comum: se não tem ar aqui, tem ali.
Mas a Ofélia
só se forma com a raridade
do que é sempre e sempre novo, natural, recente.
E quanto mais ela surge a meus olhos
e a meus pensamentos
mais ela é melhor do que todas as mulheres,
incomparável,
exclusivamente única.
O que é essencial para mim?
Existo sem Saturno, e todos seus anéis.
Netuno, não preciso da sua frieza.
Mercúrio, ah, Mercúrio é um pequeno enfeite
do sol ali tão perto.
E o próprio sol
para mim
sem a Ofélia
é apenas uma fogueira
com um fogo que não me aquece.
A água, essa criatura tão volúvel?
Não, já me basta a inconsistência
de eu não ser eu mesmo
quando estou longe da Ofélia.
Existo enfim sem isso tudo
a que chamamos de a perfeição da Via Láctea.
E existo sem todas as outras galáxias:
as conhecidas e as não conhecidas.
Mas existo sem a Ofélia?
Não, esse que aqui escreve, sem ela, não é ninguém.
Não é nada.
É só a sombra,
o vestígio,
a poeira já sumindo das palavras que um dia escreveu.
(Ele mesmo se aplaude) Onde deixar
todo esse amor agora?
O ar não está à frente de Ofélia em minhas predileções
mas ele se poluiu de tal modo no castelo
que tenho que limpá-lo
para Ofélia sobreviver...
E eu também...
É no ar limpo que cabe a virtude
do amor entre Hamlet e Ofélia!


Aqui a peça inteira:


W.  

11 de maio de 2018

[Poema,
detalhe,
quadro
de Miró]

Último truque:
a página
está em branco,
mas ainda assim
dá para ver
as coisas,
e o que as define
– as palavras




























Mágica
(Nihil obstat quominus reimprimatur)

Da cartola
absolutamente vazia
o mágico tira
as pombas,
que logo faz sumir,
como depois os pratos, os lenços, o público,
tudo dentro da mesma cartola,
que também,
junto com ele próprio.
Já não existindo
mais
coisas
para desaparecer,
e com memória que contrasta com o invisível,
passou,
no Último dos Últimos Truques,
o para sempre,
a dar fim
do que lhe restara delas:
os seus nomes
– as palavras.
É por isso
que esta página 
permanece em branco
(só a lê
quem
do remoto escuro a que foi transportado
ainda acende o em volta
com os olhos e os espelhos da ilusão).

W.