Friday, February 17, 2012

Avulsas possíveis canções

Olá.

Quem vem acompanhando este blog já viu que de vez em quando coloco aqui alguns exemplos do que chamo de possíveis canções. E são exatamente isso: letras que - pelo menos na minha cabeça - podem virar música. Quem sabe né?

Sim, claro, e como também já disse aqui, letras de música são bem diferentes de poemas-poemas. Outras rimas. Outros ritmos. Outros tudos. Mas, ao contrário de muitos, ou de alguns, não entendo que poesia é, digamos, poesia e letra de música não. As duas são poesia sim. Só que cada uma tem suas próprias características. São mesmo diferentes - mas pertencem à mesma família.

Ah, eis então aí embaixo mais um pouco dessas letras - tem até funk. Algumas delas - de novo na minha cabeça - se encaixariam em mais de um estilo. Várias delas são específicas para cantoras. Outras para cantores. Ou seja, falam do relacionamento mulher-homem, ou de homem-mulher. Mas isso pode mudar dependendo de quem canta. A música brasileira está cheia de casos de música que se dirigem a uma mulher cantada por mulher.

Para quem se interessar em ver outras dessas letras além das que pus aí embaixo deixo este link do blog:
http://wfpadovani.blogspot.com/2009/01/avulsas-possveis-canes-1.html

Beijos.
Abraços.
E sempre, sempre obrigado.
P.

.

Cleópatra e Marco Antônio

Vamos voltar no tempo
Um tempo tão distante
Pra salvar um amor
Um amor que durou tão pouco
Só um instante

Antigo Egito
Marco Antônio chora por Cleópatra
O sol parece que derrete
A lua parece que some
O mundo parece que desaba
Mas a paixão, tão rara, não para

O amor não acabou
com o veneno da serpente
De repente
a história, tão profunda, o destino muda
Cleópatra ainda está com Marco Antônio
Tudo será diferente

Eles de novo se declaram incomparáveis
Ninguém sabe que houve uma saga cruel
O bardo escreveu outros versos
Tudo oposto,
o amor não vai ficar disperso
Cleópatra entra outra vez no palácio
Ambiciosa
Sedutora
Toda volúpia
Olha fixo
Tira o véu
Que beijo!
“Marco Antônio
para sempre
meu coração
eu te deixo”

Cleópatra entra outra vez no palácio
Ambiciosa
Sedutora
Toda volúpia
Olha fixo
Tira o véu
Que beijo!
“Marco Antônio
para sempre
meu coração
eu te deixo”


Inocentes
(O anjo e a sereia)

Tem um anjo caído
ali à beira do mar
A asa machucada,
não pode mais voar

Seu olhar triste
mira pro alto,
mira o céu
E o céu,
o céu para ele
agora quase nem existe

O anjo caiu
num planeta
sem inocência
A maldade que vê
ele não entende,
nem tenta

Já madrugada
conhece uma linda sereia,
uma sereia de colares reais
Juntos
mergulham fundo no mar
Não voltarão jamais
(Jamais)
(Jamais)


Menina do Tempo

Abra a janela
Olha o sol
Fecha a janela
Lá vem a chuva

Menina do Tempo
Ligo a TV
só pra te ver
Menina do Tempo
Me preocupo com você

Se sair pra rua
Você tem guarda-chuva?
Se sair pra rua
Tem protetor, bronzeador?

A pele é frágil
(Olha o sol)
E também não vá pegar uma gripe
(Lá vem a chuva)
Uma chuvinha já molha
Depois só analgésico e antitérmico

Tá chovendo?
Tá sol?
O guarda-chuva
pode ser o guarda-sol

Menina do Tempo
Ligo a TV
só pra te ver
Menina do Tempo
Me preocupo com você


O nariz de Mariana Weickert

Você é linda
seu nariz é lindo
Mariana, Mariana Weickert
Você é tudo
seu nariz é tudo
Mariana, Mariana Weickert

O nariz de Mariana
sente o aroma da maçã, tão vermelha
sente o começo da manhã
O nariz de Mariana
sente as flores nuas, são suas
sente os altos mistérios da lua

O nariz de Mariana (Weickert!)
atrai, seduz, é sexy
O nariz de Mariana (Weickert!)
todo desejo no espelho reflete

O nariz de Mariana
sente o aroma da maçã, tão vermelha
sente o começo da manhã
O nariz de Mariana
sente as flores nuas, são suas
sente os altos mistérios da lua

O nariz de Mariana (Weickert!)
atrai, seduz, é sexy
O nariz de Mariana (Weickert!)
todo desejo no espelho reflete


Gata e loba

Toda mulher é tão complexa
Manhosa como gata
Voraz como loba
É chuva forte gota a gota

Fêmea selvagem
quer carinho
Mas também domina
“A vida é mais doce quando é minha”

Sou gata
Sou loba
Entre uma e outra
você me encontra

Sou loba
Sou gata
São dois lados
Você me acha

Não estranhe
se for gata e loba ao mesmo tempo
Isso sempre acontece
Só sigo meu faro – e também o vento


Fofoca

Não casei
Não separei
Não caí
Não levantei

É tudo fofoca
Não ligue
É tudo fofoca
Imagine

Não fiz topless
Nem fui à praia
Não bebi demais
Jamais, jamais
(Me traz um copo d´água)

Você diz que me viu no jornal
(e na revista)
Me viu em pose estranha
Não insista
Com isso o que você ganha?

Juro, não sou eu
É mais um delírio seu
Você já está hipnotizado
Me vê até sem o meu retrato

Nem tem foto minha na página
Nenhum flagrante, nenhum fato
Só de pensar
me vê com o filme queimado
Ou então
me vê bem demais na cena
Que pena!
Ei!
Nem rica eu fiquei!

É tudo fofoca
Não ligue
É tudo fofoca
Imagine


Eu é que me banco
(Tudo autorizado)

Eu tô bonita
Eu tô no auge
Eu tô no ápice
Louis Vuitton, Gucci, Prada
Que caro nada
Dou de ombro
Vou lá e compro
Dizem que gasto muito, gasto bastante, gasto um tanto
Mas trabalho duro
Eu é que me banco
(Eu é que me banco)

É tudo original
Vem com embalagem e etiqueta
Que chique
Uma tarde no shopping
é mais que o Paraíso
Quero isso, quero aquilo, quero aquilo lá
Sem chilique!
Tô podendo
Trabalho duro
Eu é que me banco
(Eu é que me banco)

Passo o cartão
Digito a senha
2, 7, o resto, meu bem, aqui não falo
Pode deixar: tá no limite
Mas as palavras na tela me liberam
Operação autorizada
Tudo autorizado
(Tudo autorizado)

Eu tô bonita
Eu tô no auge
Eu tô no ápice
Louis Vuitton, Gucci, Prada
Passo o cartão
Digito a senha
2, 7, o resto, meu bem, aqui não falo
Pode deixar: tá no limite
Mas as palavras na tela me liberam
Operação autorizada
Tudo autorizado
(Tudo autorizado)


9090

A menina
tão linda
O som tocando
Me aproximei
Rolou
Dei logo o celular
No dia seguinte
ela ligou
Era 9090
Ligação a cobrar
Era 9090
a conta só aumenta
(Era 9090
a conta só aumenta)

Atendi
Fazer o quê?
Imaginei
É ela
Perguntei:
é você?
E era

No meio do papo
“Te adorei”
“Eu também”
“Minha princesa egípcia”
“O quê?”
No meio do papo
eu disse:
você tem um número fixo?
E ela:
O celular tá muito barato
O fixo ficou antiquado

Era 9090
Ligação a cobrar
Era 9090
a conta só aumenta

Vou dar um jeito
Comprar um cartão
Ela pode ligar
de orelhão


Aquela música

Canta aí
Canta aí
Aquela música
Que me faz
lembrar de você

Tudo acabou
Não há mais amor
Mas você
continua o meu cantor

Então...
Canta aí
Canta aí
aquela música
que me faz
lembrar de você

Enlouqueci
de ver
você no palco
A sua voz
Corri atrás
Te conquistei
Fui feliz
Você também (eu acho)
Mas chegou o fim

Então...
Canta aí
Canta aí
aquela música
que me faz
lembrar de você

Aquela música...
Quem sabe...
Eu corro atrás...
Eu corro atrás...
de você...
(ou de alguém...)


Mar de gente

Tem um mar
à minha frente
Tem gente pra todo lado
Pra todo lado tem gente

Olha a onda
Olha a onda
Avança
Recua
Avança
Recua
Avança
Recua

Tem pirata no oceano
Se esconde, se esconde
Tem sereia lá no fundo
Mergulha, mergulha
O tubarão vem te pegar
Você foge, você foge
O navio tá no porto
Você já pode embarcar

Tem um mar
à minha frente
Tem gente pra todo lado
Pra todo lado tem gente

Olha a onda
Olha a onda
Avança
Recua
Avança
Recua
Avança
Recua

Tem pirata no oceano
Se esconde, se esconde
Tem sereia lá no fundo
Mergulha, mergulha
O tubarão vem te pegar
Você foge, você foge
O navio tá no porto
Você já pode embarcar

Tem um mar
à minha frente
Tem gente pra todo lado
Pra todo lado tem gente

Olha a onda
Olha a onda
Avança
Recua
Avança
Recua
Avança
Recua


Volta coração

Meu coração
saiu do peito
Fugiu
Meu coração
foi atrás de você

Pela razão
eu não queria
Só que ele
não é uma pedra, um rubi
É vermelho sim
Mas é todo sangue
Não tem controle
(É um coração)
Não tem controle
(É meu coração)

Não o trate mal:
ele é mesmo inconsequente
Não me obedece nem um instante
É vulcão, lava que desce

Agora ficou um buraco no peito
O coração tem que voltar logo
pra eu sobreviver
Com seu amor ou não
ele tem que voltar
(Cadê ele, cadê você?)


Acarajé

A-a-á
A-a-cá
Acará
Acarajé
Acarajé
É-é-é
Acarajé

É África
É Brasil
É Salvador
É Salvador
Ôôôôôôôôôô
A-a-á
A-a-cá
Acará
Acarajé
Acarajé
É-é-é
Acarajé

Feijão fradinho
Azeite de dendê
É a massa
da Bahia (da Bahia)
Camarão, vatapá, caruru
É pra comer
na Bahia (na Bahia)

Lorubá de falafel
Lorubá de falafel
Agora
Xangô
E Oxum, Iansã
Orixás
Bola de fogo
Candomblé

Sagrado
e profano
Acarajé é frito
Abará é cozido

É África
É Brasil
É Salvador
É Salvador
Ôôôôôôôôôô
A-a-á
A-a-cá
Acará
Acarajé
Acarajé
É-é-é
Acarajé


Erótica

Hmmmmmmmmmmmmmm, erótica
Eu sei como você me vê
tão hipnótica
Sou eu
nos seus olhos
Sou eu
no seu corpo todo
Erótica
Hipnótica
Me toca
Sou sua
Me produzi pra você
Não tente fingir
Que não está nem aí
Eu sei do que você gosta
Eu sei o que você quer
Erótica
Hipnótica
Sou sua
Me produzi pra você
Estou nos seus olhos
Eu sei como você me vê
Erótica
Hipnótica


O homem paga a conta

Fiz escova
Cortei as pontas
Descolori
Pintei
Fiz a unha
Peeling
Massagem facial
Me maquiei
Comprei saia e sandália
Agora aqui à mesa
Nosso primeiro encontro
A cidade a nossos pés
Tão romântico
O homem paga a conta
O homem paga a conta

Ele veio com a calça e a camisa do trabalho
Não importa, está do meu lado
Mas fiz escova
Cortei as pontas
Descolori
Pintei
Fiz a unha
Peeling
Massagem facial
Me maquiei
Comprei saia e sandália
Agora aqui à mesa
Nosso primeiro encontro
A cidade a nossos pés
Tão romântico
O homem paga a conta
O homem paga a conta


Pole Dance

Nessa noite não quero dançar
Não quero beber
Não quero você
Não quero ninguém

Bota alta
Sainha plissada
Top de prata
Me vesti bem
Mas não quero ninguém

Nem vem com sua falsa alegria
Ela só dura uma hora
Nem vem com seu dinheiro
Agora ele não me satisfaz
Hoje não estou pro seu rápido prazer
Hoje não estou pra ninguém

Vou ficar no salão
Quem sabe me divirta sozinha no Pole Dance
Nem chegue perto
Hoje estou só pra mim
Sem chance


Nossa música

Tão bom ouvir
A música preferida, aquela
Entre as novas e velhas notícias no rádio
ela toca
Surpresa
Por 3 minutos
a vida fica feliz
a vida fica feliz

É tanta lembrança
O tempo vem inteiro enquanto ela dura
Mares, amores, noites afoitas
O mundo até para
Por 3 minutos, o mundo até para
A vida fica feliz
A vida fica feliz
Entre as novas e velhas notícias no rádio
ela toca...
Vamos ouvir


Eletrizar

Vamos eletrizar
eletrizar o clima
Axé é raio no céu
Vem de cima, vem de cima
(E anima)

Que relâmpago!
O mundo
segundo Caio Plínio
sente a corrente
desde o tempo antigo
Olha o peixe-elétrico
Antes de Cristo
já era o Trovão do Nilo

Cuidado
Dá choque
Cuidado
Sai faísca
Cuidado
cuidado
com o peixe-elétrico

Cuidado
Dá choque
Cuidado
Sai faísca
Cuidado
cuidado
com o peixe-elétrico

Vamos eletrizar
(eletrizar)
Vamos te acender
Vamos te pilhar


Mulher elétrica

Corro, pulo, não paro
Por isso você me chama
de elétrica
É, eu sou a Mulher Elétrica

Mas eu tenho sentimento
e meu coração vai lento
Muitas vezes largo tudo, vou chorar
Só que nessa hora você não está

É em você que eu penso quando fico quieta
É você que eu quero na noite escura
Nesses momentos a tristeza me leva
Eu fico ainda mais pura

Aqui no palco
eu corro, pulo, não paro
Mas sei que meu coração está sozinho
e ele é precioso de tão raro

No palco...
corro, pulo, não paro
Por isso você me chama
de elétrica
É, eu sou a Mulher Elétrica

Mas eu tenho sentimento
e meu coração vai lento
Muitas vezes largo tudo, vou chorar
Só que nessa hora você não está


Tum, tum, tum

Quem achou aí
meu coração?
Ele fugiu
escapuliu
me deixou aqui sozinha...

Quem achou aí
meu coração?
Ele fugiu
escapuliu
me deixou aqui sozinha...

Para tudo!
Silêncio!
Vou ouvir ele bater
e correr
até achar
Vou ouvir ele bater
e correr
até achar
(Só eu sei como ele bate!)

Tum, tum, tum
Ó ele aí
Tum, tum, tum
Cuidado pra não pisar!

Tum, tum, tum
Ó ele aí
Tum, tum, tum
Cuidado pra não pisar!

Dá aqui, dá aqui meu coração
Pro meu peito vai voltar!

Tum, tum, tum
Ó ele aí
Tum, tum, tum
Cuidado pra não pisar!


Me enganei

O que eu faço
pra chamar sua atenção?
Danço que nem uma louca?
Passo mais batom vermelho na boca?

Você veio na festa com outra
Você não percebe
que essa menina
não tem graça nenhuma?
Ela é fria
não se sente sua
E você
todo mundo vê
que você
também não é dela
(Isso vai estragar sua festa)
Já tem 2 horas
nenhum beijo
É só mão na mão
olhares distantes
(Reparei)
Vocês estão juntos por estar
Não tem química
não tem reação
Pensado bem
se você é assim
também não é pra mim
(Me enganei)


Paixão pelo vampiro

Sou tão romântico
mas me acham perigoso
Só porque beijo a boca
e depois mordo o pescoço

É a saga do vampiro
Atravessar os séculos
correndo atrás de sangue
E agora, agora você cruzou o meu destino

Aceite meus dentes
como um grande presente
Vou te dar meu amor secreto,
meu amor mais eterno

É noite
está escuro
O beijo do vampiro
que perigo
É noite,
estou puro
Meu beijo de vampiro
vai ser lindo

Fui te beijando, mordendo
Os olhos ficando vermelhos
Seus últimos momentos, é o fim
Ah, morra apaixonada por mim

Sunday, February 12, 2012

O artista

Há mais ou menos um ano deixei um comentário nestas páginas dizendo que a arte-falando-da-arte produziu muitas das maiores obra-primas de todo o mundo.

O texto continuava assim:

Há muitas obras que poderiam ser citadas - eis alguns exemplos:

No cinema, "Crepúsculo dos deuses", de Billy Wilder, "Nasce uma estrela", de Frank Pierson, e "Cantando na chuva", de Stanley Donen e Genne Kely, que também faz o inesquecível papel principal. E, claro, "Cinema Paradiso", de Giuseppe Tornatore - e, na mesma linha, e época, "Splendor", de Ettore Scola.

Na pintura justamente o quadro chamado "A arte da pintura", de Vermeer, e ainda "As meninas", de Velázquez.

Entre as sinfonias, "Bolero", de Ravel, que, com suas ondas de repetição, é uma contínua ode à música.

Na literatura, "Dom Quixote", de Cervantes.

E no teatro a maior obra já realizada em qualquer área: "Hamlet", Shakespeare
.

Bom, aconteceu de novo.

Acabei de ver "O artista", filme do diretor francês Michel Hazanavicius, que conta a história de um ator e de uma atriz na passagem do cinema mundo para o falado - assim como os três citados antes, "Crepúsculo dos deuses", "Nasce uma estrela" e "Cantando na chuva". O filme é excepcional, e por isso recebeu dez indicações ao Oscar. E além da questão da arte trata de como resistir e dar a volta por cima na profissão, no amor, na vida.

Ah, a última cena é uma espécie de homenagem a um dos maiores finais de cinema já feitos - o do mais uma vez reverenciado aqui "Crepúsculo dos deuses".

"O artista" enfim é um filme que vai ficar para sempre.
Obra-primíssima.

.

Aproveito para falar de um dos melhores programas em São Paulo: pegar a sessão das 2 aos domingos nas salas 1 ou 2 do Espaço Unibanco Itaú da R. Augusta.

As salas nunca estão cheias, e ainda tem um bom café no salão de espera.

Num dia de chuva como hoje é perfeito.

Friday, January 27, 2012

Selvagens

Inéditas bocas
Parte 1

Relva, ramo, fruto,
por dessemelhança de outras peles, e lábios, e seios, e vermelhos,
e assim só para a então primeira, e única, humana língua,
que já em longa sede máscula,
surge a fêmea,
a fêmea de homem,
e as bocas, de iguais, e diferenças, de diferenças iguais, se atraem:
a eles agora o destino se completa.
Adão,
sob espontânea língua à uva,
e ao líquido da uva,
e outras frutas,
e delas líquidos,
lambe a recente pele como se irrompesse do galho,
romã que aos maxilares abre,
e a ilusória maçã pendurada no Éden
mantém a volúpia à real boca, às reais bocas, de Eva,
e por isso a maçã virou saga
mesmo se, enquanto à romã, de dura pele, e carne,
e de mais sutil líquido, e sem rubis de plasma, sangue, coito.
Com a língua submergindo-se
na delicada complexa feminina pele, e bocas,
Adão,
agora no ímpeto que após o lento medo do desconhecido
o força à inusitada cena
- fez-se o humano sexo, e fez-se o pecado, e o prazer, e a culpa -,
se transforma em refém,
e de si autor do rapto,
de todo seu veloz sangue a se concentrar,
por impulsos,
por impulsos até que se fixe,
em inéditas, virgens, veias,
e se assusta,
de um susto também de desejo, agonia, gana, e saliva,
e suposta luta,
luta que depois da expulsão do Éden,
porque nos predecessores raios
o mundo se compunha de tempos madrigais,
o salva das imunes feras,
que para muitas os homens, e mulheres, saciam, e têm sabor,
e das, nos antropofágicos outros, remotos interiores.
Boca na boca, braços, pernas,
uma,
à futura luz,
dança de hipotéticos gladiadores ataques,
Adão domina Eva,
e a ela se rende,
e ela, ao se entregar, refém e rapto, o domina,
e ambos não conhecem o que os une, libertando-os,
e o que, ao fim, ocorrerá
- são dois corpos na mútua conquista,
e cada um ao corpo próprio,
em sempre irrevelado mistério,
mistério a,
no júbilo do segundo a segundo,
emergência que deixa mais perto o inalcançável,
e inalcançável que arrasta o júbilo da emergência,
incitá-los ao máximo para junto, dentro, íntimo.
E no começo Adão,
e tanto que vislumbrasse antes lobos e lobas,
e os outros animais,
em hereditário uivo,
pensa,
no pouco pensamento que lhe sobra no ápice tão imediato,
que é de fato uma luta, a com Eva,
e Eva reflete nos olhos o que idêntico lhe saltara,
monstro dentro do homem contra monstro dentro da mulher,
mas,
no durante,
ele foi vendo, tocando, sentindo as formas da mulher,
e volumes,
e profundezas,
e sedas,
e aromas,
e gostos,
e não era então luta,
e ela,
no durante,
foi vendo, tocando, sentindo as formas do homem,
e volumes,
e noite atravessando suas umidades,
e aromas,
e gostos,
e não era luta,
e era sim o que,
pelos milênios do sexto dia,
neles é próximo do selvagem
buscando o selvagem em quase morte,
pequena morte,
efêmera morte
que dos medos todos, e espantos, os ressuscita, jorro.

Thursday, January 26, 2012

Peixes

Cardume
Reimprimatur Nihil Obstat

Um, juntos, a um, os peixes,
em cardume,
cortam quietos a água
e,
em vez de à eventual deriva,
o destino os segue pelo mais calor,
se fuga do irradiado Antártico,
pela boca,
se de próxima imediata sobrevida,
pelo fixo rumo,
se de hereditária busca.
De cada particular peixe,
mas de único que iguala todos,
o todo, já em recente monstro, deixa líquido rastro de animal
que, no contato de escama em escama, desbrava o em volta
como se, ainda que sem fúria, ameaçador transatlântico tubarão.
De maleável vitral,
o cardume,
pelo mais profundo vidro,
é, no detalhe, fibra,
fio de cor até têxtil
que, ao inteiro quadro, é compacto tecido
desfiado em pedras, que vidros, e, retidos, mosaico, por ladrilhos.
Um, só um, peixe
é, embora complexo, de horizontal simplicidade
e,
vários,
em série,
de nítido enredo contanto a paralelos prolixos traços.
Sob a trama,
os peixes,
no cardume,
formam, o que num a num já é, clássica geométrica pintura,
agora de extensa tinta.
A pintura, ao fim da sina, desmancha,
ponto a ponto que se move até escapar da repleta imagem
- todo peixe continua sua íntima saga,
que, se, de a cada, o faz efêmero bloco,
faz, do ao todo, também transitório nó,
e com exclusivo também vestígio.
Os vestígios,
de tanto,
viram marcas na suposta imperpétua água
pois,
peixe a peixe,
e de cardume a cardume,
os riscos,
pelas sólidas frestas da destilada imensa substância,
revelam os cursos que o novo mesmo peixe,
se a próprio âmago ou, por múltiplo, cardume,
sempre procurará
com sua plácida reta quase a lápis,
se então um,
ou numeroso incêndio,
se então anexado absoluto corpo vasto.

Thursday, January 19, 2012

Luíza

Olá de novo.

Nossa, é muito divertido fazer letra de música para casos curiosos do momento - e essa que acabei de fazer, e está a seguir, é sobre um que acabou de acontecer.

Nem vou precisar contar a história aqui. Basta ler a letra para entender tudo.

Espero que gostem.

Aproveito para agradecer as mensagens que recebi sobre o texto deste blog que fala da música do Michel Teló e da reação desvairada dos pseudointelectuais - texto que traz a letra que imaginei como uma parte 2 de Ai se eu te pego.

Lá vai então na sequência a nova.

Beijos, abraços,
P.

.


Luíza já voltou

É Carnaval
Tá tudo bem
Tá tudo bom
Tá, tá legal

Só falta a Luíza
que está no Canadá
Mas se eu chamar
ela vem já

Nem sei
o que ela
foi fazer lá
Quando eu vi
Hmmmm, quando eu vi
ela já estava lá

E agora
chegou o Carnaval
Olhei de novo
e ela já estava cá
Não falei
É só chamar a Luíza
que ela vem já

Ainda mais no Carnaval
Ainda mais no Carnaval

No Canadá faz muito frio
faz frio demais
A festa lá
não é como cá
Jamais!

Por isso a Luíza
que estava lá
já está cá

É Carnaval...

Friday, January 13, 2012

Ensaio

Oi.

De uns tempos para cá venho publicando mais poesia neste blog - mas continuo escrevendo em outros gêneros, como contos, fábulas, teatro etc. Entre os ensaios, já pus alguns aqui - numa linha sobre o cotidiano, que os outros são maiores, e a leitura ficaria estranha, acho, neste espaço.

Ah, fiz hoje um novo ensaio-do-cotidiano, e então resolvi postar.
É o que está aí embaixo.

Espero que gostem.

Beijos, abraços, e sempre obrigado,
P.

.


A tocaia de todo verão

Sobretudo nas redes sociais, a vítima da vez
é a música de Michel Teló
– mas por que quem critica o sucesso
Ai se eu te pego
nunca postou nada elogiando a 5ª. de Beethoven?

Os pseudointelectuais, pseudoartistas, pseudomúsicos, pseudos-qualquer-coisa enfim, vivem de tocaia. Sobretudo no verão. Como é certo que o sol fica mais forte nesta estação é certo também que no período surgirá uma música bastante popular que vai tomar o Brasil de norte a sul. Aconteceu de novo: Ai se eu te pego, do Michel Teló (a canção original, de Sharon Acioly, a da já clássica Dança do quadrado, e Antonio Dyggs, passou por várias mudanças até chegar à versão definitiva dele), que já vinha mostrando suas garras há um tempo, sacudiu de vez o país agora – e os pseudos-tudo começaram seu coro pretensamente solene de lamentos, críticas, desvarios. Uma vítima de pouco tempo atrás foi Rebolation – do grupo Parangolé, capitaneado por Léo Santana. No ano que vem o alvo será outro. Que bobagem.

Primeiro de tudo: por que uma música incomoda tanta gente a ponto de se montar uma reação orquestrada? Não é um novo Plano Collor tungando o dinheiro do povo nem uma 3ª. Guerra Mundial à vista – ou, vá lá, nem o preço do feijão maior na quitanda da esquina. É só uma música, e ouve quem quer. Para tentar entender o incômodo é mais útil analisar a questão de outro ângulo, e não só pelo lado do gosto pessoal. Os pseudos, e justamente porque são pseudos, na verdade adoram descer a lenha em trabalhos, digamos, simples que fazem sucesso. É a forma de eles parecerem inteligentes. Mas não: isso, analisado em perspectiva, só aumenta a sombra de objeto sem conteúdo que eles carregam. As redes sociais, por exemplo, estão lotadas de tiros desferidos contra a música do Teló. Muito curioso: nunca esses fuzileiros deixaram na rede qualquer post elogiando Beethoven, Mozart, Bach, Rachmaninoff, Debussy. Nunca. Nem aqueles curtos textos afetados de quem na prática sabe pouco – do tipo nossa, o Beethoven não é um gênio? – eles postaram. Elogiar com propriedade Beethoven e toda a dinastia sonora em que se insere, isso nem por julgamento sumário conseguiriam. Para elogiar desse jeito é preciso saber.

Mudando de campo artístico, enaltecer Shakespeare – relembrando, enaltecer com propriedade – é bem mais difícil do que pôr os cachorros correndo atrás de Paulo Coelho, e é por isso que esses pseudos que hoje dão tiros, ou socos, em Teló dão pontapés no ex-mago. É mais fácil tentar nocautear um boxeador que não seja de primeiríssimo time. Quero ver é enfrentar o Muhammad Ali. Ou o Anderson Silva. E elogiar é também uma forma de enfrentamento. Tem que encarar. Resumindo tudo, esse tipo de ópera-bufa dos pseudos é só um truque para jogar a própria ignorância embaixo do tapete, e posar de vencedor. Dizer que essas críticas servem como referencial para colocar os pingos nos is, ah, melhor deixar de lado isso aqui. Vamos nos poupar de certas coisas.

E mais. Por onde anda essa canastra de pseudos para ouvir tanto o novo hit do Teló? Sim, porque na Sala São Paulo, a catedral da música clássica de São Paulo, e do país, ela não chega. Nem nas livrarias. Nem nos cafés metidos a parisienses. Ah, esses ases da inteligência brasileira parecem ouvir é rádio popular, assistir é programa de TV popular – e talvez até frequentem escondidos as casas de forró e música sertaneja. É nesses lugares que Ai seu eu te pego toca, e eles devem ser mortais. E nada contra, claro, que a música toque onde for. Pessoal, é só uma festa - e há outras festas, cada um pode escolher a sua. E também há espaços sem festa para quem preferir. O fenômeno Ai se te pego enfim é um singelo ritual de verão. Ou vai se passar a comemorar a estação do sol em público com o Réquiem de Mozart? Nem uma sinfonia com trechos mais alegres - aquelas que incluem o folclore de um povo, e, oi, sim, há muita sinfonia que inclui folclore - daria para isso. Sinfonias são para outro tipo de, bom, nem há razão para continuar a frase.

Um dos hits da bossa-nova, O pato, também não daria. O pato/Vinha cantando alegremente/Quém! Quém! Jamais alguém tentou orquestrar nada contra esses versos - tão magníficos né? E essa música, repetindo, é mesmo um hit. Tocou até não acabar mais. E contra Obladi, oblada, dos Beatles? Life goes on, bra/La la how the life goes on/Obladi, oblada/Life goes on, bra/La la how the life goes on. Não, não é um Goethe. Nem um Cole Porter. E antes de um mas-a-bossa-nova-fez-mais-isto-e-aquilo ou os-Beatles-fizeram-mais-isto-e-aquilo que se retorne rápido para a pergunta do começo, não deixando o, nesse caso, lateral se transformar no principal: por que uma música, só ela, isolada, incomoda tanta gente? Por favor, não exponham a falta de, olha que chique, em francês, joie de vivre de vocês assim. É constrangedor. Vergonha alheia. Tudo tem sua ocasião própria, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu, Eclesiastes, Bíblia, Antigo Testamento.

Agora o mais instigante - a música que o Teló consagrou em seu estilo é legal. De uma sensualidade meio ingênua, meio atrevida ela cumpre seu papel: divertir. Até os pseudos no fundo se divertem ao criticá-la. Esse tipo de murmúrio é o playground, ou o Louvre, que eles podem ter. De volta à literatura, uma das peças mais espetaculares do Shakespeare, Júlio César, tem no começo boas lições de sabedoria popular – o maior escritor de todos os tempos usa a voz de sapateiros para contar o que quer. E olha que Júlio César é o auge da literatura quando o assunto é retórica: os discursos de Brutus e Marco Antônio logo após o assassinato de César são o supra-sumo da vocação de falar e convencer. É justamente por isso aliás que Shakespeare deu a voz inicial aos sapateiros, às pessoas simples. Montou o painel da sociedade. Teló é um músico simples, e que faz sucesso, muito sucesso. Está no painel.

Indo para a mais importante peça de todas, qual o único personagem de Hamlet que leva adiante de igual para igual uma discussão com o príncipe atormentado, e culto, da Dinamarca? Um coveiro. E em muitos outros trabalhos de Shakespeare as pessoas mais simples entram em cena com destaque. É claro que só por ser simples ninguém pode ser considerado melhor do que ninguém. Do mesmo modo uma pessoa, xi, complexa também não pode. E isso Shakespeare mostrou como poucos. Ele realmente entendia tudo. Ou quase. A questão do ataque dos pseudos ao Teló é o que os movimenta a malhar-sem-necessidade - ou, para ser mais concreto, com necessidade escusa -, porque às vezes malhar, como a vida mostra, é essencial sim. O ponto então não é malhar ou não malhar. É o que malhar, e por qual motivo.

Shakespeare não malhava um para parecer outro. Não queria ser outro. Era Shakespeare. Até quando malhava. Por que os pseudos malham Teló? Claro, não são Shakespeare, e se fosse por isso todo mundo sairia às ruas com pedras na mão para atirar no primeiro que passasse. Afinal ninguém é mesmo Shakespeare. A necessidade deles - que conscientemente ou não tentam sempre esconder - já, a despeito dessa tentativa, ficou bem clara. E apontar isso nos pseudos tem outro tipo de necessidade, e isso também já ficou bem claro. Dando uma chance a outra pífia argumentação de que o Teló ocupa um espaço que deveria ser ocupado por artistas, lá vai, mais conceituados tem mesmo que lembrar que ninguém ocupa o lugar de ninguém? Lavoisier de ginásio: dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Querem ocupar outro espaço, um espaço infinitamente maior que o do Teló? Escrevam, por exemplo, a 5a. de Beethoven. Vão durar séculos na memória, e no sentimento, dos seres humanos. Ou saibam de fato elogiá-la. Isso vai lhes dar mais espaço na vida. Teló não quer nada isso - nem poderia. Só quer fazer sua festa. Que cada um faça a sua parte.

Para concluir vou deixar aqui quem sabe mais combustível para os pseudos seguirem se martirizando, e se entretendo com isso, no fogo em que eles adoram assar suas vaidades - e assim participar, a seu modo lúgubre, do ritual. Fiz, ou procurei fazer, que não sou músico, a continuação de Ai se eu te pego. Na música do Teló tudo acontece no sábado – ele está na balada e procura pegar uma mulher que chamou sua atenção. Antes que um patrulheiro-do-vácuo se arme até os dentes por causa desse pegar é interessante avisar que o verbo já é conjugado nesse sentido – conquistar – até pelas mulheres. E, ei, de novo, é só uma brincadeira. Apenas os travados veem deturpação social nisso. Eles sim é que são obscenos: enxergam obscenidades onde não há. Retomando, se a versão original acontece numa balada de sábado nessa que procurei fazer já se está no domingo – é o day after na casa do tal conquistador. Ele está com a mulher ao lado, e pegou. Agora quer que ela se apaixone por ele. O restante? Eis a nova história toda:

Nossa, te peguei

Te peguei, te peguei
Agora o que é que eu faço?
Ai se eu te ganho
Ai, ai se eu te ganho
Carícia, carícia
Assim você me prende
Ai se eu te ganho
Ai, ai se eu te ganho (pra sempre)


Domingo lá em casa
De novo tudo começou a rolar
Eu já tava com a menina mais linda
Senti sua boca e continuei a beijar
Te peguei, te peguei
Assim você me prende
Ai se eu te ganho
Ai, ai se eu te ganho
Carícia, carícia
Agora o que é que eu faço?
Ai se eu te ganho
Ai, ai se eu te ganho (pra sempre)

(E acho até que já ganhei)


Gostaram?

Quanto aos pseudos, um ótimo verão a todos. Mas cuidado mesmo com o sol – ele pode expor a inteligência, ou arte de levar a vida, que de fato têm.

Friday, December 16, 2011

Bíblico


'Anunciação', de Philippe de Champaigne

Anunciação

A luz
desde o mais alto ápice
desce
– e, pela própria índole, única –
às pupilas da mulher
que emana-se
em flor de virgens pétalas:
a escolhida.
No puro dentro cântaro
absorverá
a seiva original
– o contato
pelo líquido dos olhos,
de elo em elo,
etéreas lágrimas,
já cintila o reflexo
de luz úmida
dissolvendo-se
para a casta milagre concepção.
A se deflagrar
da intacta membrana,
o fulgor,
o lume,
tem carne,
cândido corpo,
que é fruto,
invólucro de outro agonizante magnânimo fruto,
de sangue.
Esse fruto de sangue,
esse coração incipiente,
pulsa no ventre da mulher
já ao primeiro raio
advindo do infinito
à treva interior da pele,
e pouco a pouco
irradia-se no corpo
que,
pelo singularíssimo sublimíssimo ato,
não haveria,
pois ainda maior sobrenatural
do que traz a divina pomba,
como acolher
até o parto
não fosse o anúncio
a respectiva bênção,
a graça e o sacrifício
como súbito favor
– o inédito sagrado plasma
se forma
por inviolável febre.
O umbilical rito
então
deflagra-se:
o sopro e a dor,
a fonte e o pássaro,
o pássaro e o voo,
tudo,
da terra ao retorno,
é instante perpétuo do clarão,
e do clarão a destilada água,
da água o ramo,
do ramo o fruto,
carne a
– que deles vai se desprender
mas
ainda em mesma substância –
se fundir aos sangues,
às fibras
e,
pela travessia,
e por isso também ao sempre,
do útero em desague na luz que circunda o todo,
e dela vem,
às
– para o que representa o filho da íntima superior essência
tremeluzindo
na santa trindade costela
enquanto o raio jorra no raio –
tão sem paralelo vívidas chamas
que a mulher,
como um aberto lírio
exalasse
a glória e os abismos
que há no remoto fogo,
ao mundo translúcida entrega.