Saturday, November 28, 2009

Mandíbulas da água

Mares, e rios, e lagos, as águas são bocas, as bocas nas águas, as águas nas bocas, mandíbulas em feroz fome, tanto à margem, crocodilos, essas rochas que se movem, esses fósseis, esse Passado que agora se volteia rumo ao pescoço do búfalo, e, no ar, desprende as rendas da água, que caem soberanas perante a próxima morte, e as remotas, e tanto nos seus interiores de água, as águas feitas tubarões, hipopótamos, os peixes todos, os polvos, e das, ou nas, todas as águas, internas e à beira, as águas todas neles, emergem, ou sub, suas bocas, sua fome, de sangue, cartilagens, escamas, as rochas antiquíssimas dos crocodilos, as mais finas jóias de certos peixes, que engolem, e são, e os bichos da terra, e do ar, levam suas bocas em sede às mandíbulas da água, os búfalos, e as zebras, e os leões, e em boca contra boca enfrentam as águas, os dentes da água, e os pássaros, e eles bicam a água, e lançam-lhe as garras, raptam os, as, carregam-nos, o que for se possam, para as montanhas de onde saltaram, e as águas vão até o cume, retornam ao cume, inauguram o cume, e junto vai a boca das águas, para montanhas, céus, e, antes, e depois, em réptil água que também, pois não só água-água, ou vôo-água, e os aléns, e então antes ou depois, no cio, no cio que se externa, ou durante, trans-, a chuva, a água que há de novo na água, a água faz a, -borda-se, a água em mais bichos, feras, bestas, todas as aves, e ainda os répteis, as cobras, e os lagartos, e as águas buscam águas, e então os tigres, e as serpentes, águias, e, e a sede de todos, e, no cio interno, o desejo das águas nas águas em mais crocodilos, e peixes, e polvos, e, e todos, se dentro ou no mais longe, evoluem em todos, e a cada, e a sede e a fome de todos nos mares, rios, lagos, e todos os bichos, e todos os peixes, os répteis, aves, e todos são água, e o corvo, aquele, o mítico desconhecido corvo que, ao molhar-se, voltou, e cada boca da água são todas as bocas da água, e mandíbulas da água, e vôos e rastros da água, e as águas são todos os peixes, os répteis, aves, bichos, e, todas as águas estão neles, e todas as águas são uma só boca, e língua, e mandíbula, e tempestuoso sopro, febre de água que é da eterna convulsão das águas, fera de inatingível, e maior, corpo, oceano que do rio, e do rio, boca que se arremete da boca na própria profundeza, e também na quase superfície, tubarão que come peixe, e peixe peixe, e os polvos que, e também na margem após a espreita se pelo crocodilo ou pela incessante onda se por primitiva índole avança em letal naufrágio à busca de distantes náufragos.

Tuesday, November 03, 2009

Maestro

Oculta sob os instrumentos ainda retidos
a música,
nesse intacto silêncio,
é um ponto no vazio,
um nó,
à espera de quem,
por reação,
prestes conseguirá revelá-la
- o maestro.
Só a seu sinal,
pronto desde o instante de seus tímpanos,
que detectam finíssimos estalos do nada no mais longe cósmico,
terem,
num agora agudo,
encontrado justamente o exato nada
após o clamor embrionário entre os músicos e o público,
o elo nota a nota aparece,
visualiza-se:
ao reger o maestro desenha a música no ar,
extraindo-a
de onde,
tinta ou lápis,
se guardava
em marcas
que sem aqueles gestos
permaneceriam
como pedra,
fóssil,
eterno inaudível réquiem daquele que a compôs.
No seu rosto,
e braços,
e veias,
em giros da batuta no, para ele, fluído bronze sonoro,
o maestro esculpe as tensas correntes
ou os lentos profundos
que pela música do outro
lhe são sempre recente descoberta
- toda sinfonia é oceano
e por isso nela também a água vira busca,
e nunca repetitiva onda.
De remoto a remoto oceano
o maestro
capta
inéditos júpiteres e destinos
- e todos os demais exteriores ou não humanos mistérios.
O maestro,
ao recriar
o que,
por mais da posse,
não é dele,
e com quem,
por mais se estenda,
não é ele,
monta uma interna à mostra galáxia.
E nas suas particulares constelações
diferencia cada água no fogo,
cada faísca no fogo
e todo fogo no fogo do volátil perfeito.
Quando,
no aparente caos inicial antes do revelado nada que será tudo,
os músicos afinam os instrumentos
o maestro se decifra,
humanizando em si a incorpórea composição que outro,
corporizando-a,
deixou,
ao pressentir que dali,
chama de vários vértices,
de novo organizará
as órbitas,
e altitudes,
de um universo cujas minúcias,
mas quase a faca,
recorta entre os vastos séculos.
A cada corte
ele desprende o som há pouco em sigilo,
erupção do tempo
para, ao fim,
por, de paradoxo, seu antiderradeiro gesto,
a música voltar ao quieto pó
- até quando em obcecado desafio pela distante origem
o maestro num consentido rapto íntegra a reinaugure.

Monday, October 19, 2009

Miniensaio sobre José Saramago

Chegou um dos momentos mais instigantes para leitores do mundo todo: o lançamento de livro de José Saramago. Caim.

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A cada livro Saramago cria um personagem magnífico além daqueles a que dá vida na história - o idioma português.

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Em Saramago o idioma português é até mais que um personagem. É um enredo.

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E até mais ainda - em Saramago, numa de suas reais mágicas, o idioma português é que parece ser o autor. Suas histórias só poderiam ser contadas com aquelas palavras, e elas surgem tão certas ali que dão a impressão de assumir a autoria do que se narra. Só que, claro, é Saramago quem as concebe. Ele então é mais que autor. É autor-do-que-se-imagina-autor.

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Em Saramago lemos cada palavra como uma descoberta - uma descoberta que, mesmo sabendo não ser nossa, é nossa.

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Assim Saramago é também autor do leitor.

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Em Saramago enfim o leitor lê escrevendo.

Friday, October 16, 2009

Miniensaio sobre Escritor e Jornalista

Bom ou mau escritor, todo jornalista é escritor - e ser bom ou mau escritor não define se um jornalista é bom ou mau jornalista. Só que todo excepcional jornalista é ao menos bom escritor - ainda que um excepcional escritor não seja necessariamente um bom jornalista, e nem mesmo jornalista.

Wednesday, September 23, 2009

Em favor do relógio de corda

Bem mais real
o relógio em que se pode dar corda.
Com ele
sentimo-nos tocando nos dias – na semana:
se se der voltas no pino ele vive,
se não der ele não anda.

Mas,
alheia ação do tempo sobre si próprio,
inventaram outros:
automáticos, e eternos no pretenso rigor do a-quartzo.
Digitais.
E tudo ficou muito muito diferente.
Sequer nos enganar
que influenciamos nosso envelhecer
podemos mais.

Tuesday, September 08, 2009

Miniensaio sobre Desafio

O desafio do homem é o de ser maior que a soma de suas partes.

Miniensaio sobre Heroísmo

O herói muitas vezes é o vilão a nosso favor.

Fábulas quase adultas - O pescoço de Astéria

Astéria era uma menina em que a beleza pouco a pouco brilhava mais – e, quando chegou ao ápice, ainda que esperado, seu esplendor chegou a assustar a todos. Acostumada a ouvir que era a mais bonita, ela não sabia bem o que isso representava de verdade. Bonito, para ela, só o sapo amarelo que ganhou dos pais quando fez 2 anos – e que, onze anos depois, com a pele sem rugas de sapo que nunca envelheceria, a acompanhava na busca do sono toda noite. Astéria achava que o sapo continuava acordado depois que ela entrava nos mistérios noturnos mais profundos, e de certa forma estava certa. Afinal, sem ela, aquele sapo plantado na cama era apenas uma espécie de travesseiro. Apesar de sempre inertes, e sem vida, os travesseiros não dormem.

Foi nessa época em que tinha 13 anos que Astéria notou com mais clareza: todas as meninas que olhavam para ela - para toda a fulgurante beleza dela - desviavam rápido o olhar. Ao comparar-se se sentiam irremediavelmente feias. Olhar para Astéria era uma irresistível atração. E por isso mesmo já tendo escapado do olhar dela milhares de vezes as garotas reincidiam a mirá-la. E um segundo depois já afastavam as retinas. Elas eram normais. Algumas até bonitas. Acontece que Astéria era de uma beleza superior, única, que não se conseguia alcançar. Muitas meninas retiravam o olhar como um gesto natural, fuga de bicho que encontra o rival mais forte na selva. Mas outras iam além – ficavam tristes.

Astéria percebia. E também ficava triste. Não pela sua beleza – que isso para ela sequer valia muito, quanto mais a ponto de lhe causar qualquer sofrimento. Mas pelas garotas que entravam em melancolia ao vê-la. Assim como a máxima beleza lhe surgiu pouco a pouco, um fenômeno, esse inesperado, foi aparecendo nela de forma lenta. Tanto que nos primeiros meses ninguém reparou. Só repararam quando Astéria chegou aos 14 anos – e seu pescoço já pendia como uma tromba. Para deixar de entristecer as meninas, ela, por instinto, tinha passado a olhar apenas para o chão. Assim evitava que seus olhos encontrassem os das garotas – eliminando o confronto que as desesperavam. O pescoço com isso foi cedendo.

Astéria agora só enxergava os resíduos embaixo dela. Os insetos rastejando. A lama das ruas. Os buracos. No início seus pais acharam que era quase uma brincadeira. Não era. Por isso a maior beleza do mundo não estava nais à mostra – escondia-se na insignificância das calçadas, dos velhos tacos de madeira das salas, da terra dos quintais. Em vitória silenciosa ou demonstração de flagrante êxito, a maioria das garotas adorou a nova postura de Astéria. Menos uma – uma que não era nem tão gentil. Para essa garota, a vã disputa com a beleza de Astéria era melhor do que perder, como perdeu, a amiga para conversar, falar bobagem. Ou falar sobre os meninos, o que também era bobagem na maior parte das vezes. Realmente, Astéria, desde que começou a olhar só para o chão, permanecia distante, quieta, séria. Enfeiou-se. E não havia jeito de convencê-la a retornar ao normal. Os pais a levaram a todos os médicos – e nada. A filha parecia que jamais iria sair de sua rotina cabisbaixa.

E assim Astéria seguia seu destino. Não ligava que, em vez de elogios à sua beleza, ouvia, isso sim, chacotas por causa do pescoço caído. Mas pensava, e muito, na vida. Certa noite, num longo passeio solitário, o lago da cidade estava mais claro do que nunca – e ela, que nunca tinha feito isso, foi até lá olhar para aquelas águas. Espantou-se ao ver que ao lado de seus olhos, que no lago se refletiam como dois planetas murchos, reluziam todas as estrelas que aquele espelho líquido podia captar. Astéria teve então consciência de que ao olhar somente para os resíduos, insetos, lamas e buracos não vislumbrava mais a beleza do mundo. Nem ao sapo amarelo saltando sob sua saia ou pedindo companhia antes de zelar pelo seu sono Astéria dava mais atenção. Para ela o sapo virou uma pedra, ou pó, ou qualquer sujeira, como o restante seus pés. Para fugir da própria beleza Astéria enfim se privou de toda a beleza ao redor.

De imediato tentou levantar o ainda pesado rosto – rumo à constelação cujo nome ela nem imaginava. O pescoço até estalou. Mas reposicionou-se reto, delicado, perfeito. Olhando a beleza dos astros Astéria voltou a ser linda. A mais bela. E, no caminho para casa, de própósito fixou o olhar nos olhos de todas as meninas que cruzaram com ela. E viu que todo olho tem suas próprias constelações. Inclusive os seus, que o lago resguardou em pleno brilho - e aqueles outros ali à sua frente tristes.

Saturday, August 22, 2009

Erupção eterna

Muito antes
da época
em que não se faziam,
com as mãos,
nem o fogo nem o medo,
havia,
no oculto das faíscas a surgir,
o ímpeto
de duas órbitas
que,
camada a camada dos milênios,
iriam se dominar
num esparramado rastro
expandindo,
até os mais urgentes infinitos,
e com isso concentrando-os,
os instintivos todos sangues agora em jorro
das veias por destino de si vorazes
- e que dos pós iniciais
desinterrompem-se sob a concebida pele.
Uma atrai, e percorre, a outra
com mistérios que, ao íntimo, buscam mais mistérios,
e no simultâneo rapto coágulos se fundem dentro delas
e delas para o abrupto
em ápices, umidades e incandescências,
lavas irreprimíveis a cada súbito contínuo movimento
por, nelas próprias, vestígios a tornar

a órbita que
- sem o fluxo das artérias de outra,
não de qualquer,
mas da sua outra,
também, como ela,
à procura
do que
na profundeza da noite
nada fosse
estancado corte -
gira
na solidão
dos ainda externos remotos impulsos.
A boca
de dois corpos
se-engolidos
tem na saliva
o sangue em sangue
um do outro,
líquido
que irrompe
das mais secretas volúpias
por precipícios,
febres
e desejos.
Neles
o plasma é membrana,
que nem lábios,
cicatriz sempre em erupção.