Presentes pelo tempo para Raquel, minha lindíssima filhaPeixinha na minha memóriaEla aos 11No fundo da memória em que me levo
há um oceano intacto,
o oceano que,
naquele instante,
derramava-se
inteiro
na piscina onde minha filha,
uma peixinha de escamas recém-abertas,
flutuava imersa numa bóia em forma de estrela.
Essa bóia, paradoxo, acabou submergindo em outras águas:
as que se movem justamente na memória daquela peixinha
que,
antes de a luz,
essa água aérea,
de veias que em mim correm,
me dar,
era a memória da minha água mais glacial,
líquido
dentro de uma filha que flui para o oceano que também sou eu
e que por isso não faz minha memória
virar um náufrago de que sou mesmo.
Nas águas da memória daquela peixinha
também não houve um naufrágio:
aquela bóia sobe
eternamente
à superfície dos olhos da minha filha
e eles, assim, transformam-se em espelhos
projetando ao ar,
por imagens transponível,
o cúmplice cuidado
que eu,
um rio que se tornou peixe
e depois o útero em que uma peixinha nadava,
senti no reflexo que nos olhos dela o dos meus percorria.
A memória dela e a minha misturaram-se,
alastrando ainda mais o oceano interno de cada um,
um oceano em que o mais remoto
é o que a memória do mundo concebeu
para que os homens,
e suas criações,
não eliminassem o que se foi
e não eliminassem também o que lhes será antigo.
Nossas águas guardam a mesma cena:
a de quem ao me pedir socorro
me socorria da perda nas profundezas do esquecimento.
SozinhoEla aos 5Onde você estava
que eu fiquei
aqui sozinho?
Ah, agora ou depois,
e esteja onde esteja,
saiba que eu mesmo longe, e só,
me sinto sempre junto de você
dentro do seu coraçãozinho.
O vôo da bailarinaEla aos 9 Depois que a bailarina,
fina como uma linha,
aprendeu mesmo a dançar
viu
que nem precisava
se preocupar com a sandália
- e por isso nem por que
nela
ainda que quisesse
não havia nada nadíssimo de salto.
Foi quando percebeu
que,
na dança,
uma dançarina,
que não cria só os gestos, e junto também os em volta vazios,
nunca fica
com os pés no chão.
Leves,
levíssimas,
as pernas
– e os pés, é claro –
levam
todo aquele frágil mas forte corpo
para onde se escondem os mistérios
que existem no ainda não inaugurado alto.
Espelho na CatedralEla fazendo 14Fazer aniversário
é encontrar o tempo
e,
como num espelho profundo e certo,
ver-se pelo labirinto com o qual já se nasce.
Mas não é o ver-se só de contornos,
rosto,
boca,
cílios,
todas as ilusões dos olhos.
É o ver-se interno,
aquele em que tocamos uma imagem
que se reflete no nosso corpo todo:
a alma
ou o que em outra palavra, ou teor, se chame.
A cada ano
ela
guarda mais histórias, desejos, enigmas,
catedrais que o próprio tempo cria
para que o observemos à nossa volta.
O silêncio do tempo,
então,
é o mesmo das catedrais:
quando se entra nele,
ou por ele é entrado,
ganhamos uma compulsiva busca - que é entrega.
A do tempo que,
secretamente à mostra como um rubi que só a si pertence,
revela o que de nós é sombra e com ou sem espera resplandece.
DescobertaEla hoje, aos 21 - e sempreUma mulher descobrindo o mundo é mais bonita que o mundo sendo descoberto.