21 November 2017

Para ela

Bom dia Ângela – meu amor:


W.

20 November 2017

Para ela

Boa noite Ângela – meu amor:

Bizet, Sinfonia 1, 2º movimento, Adágio
Orquestra Sinfônica NHK, Japão
Maestro Ali Rahbari
https://www.youtube.com/watch?v=-eynEjjaVpc

W.
Obrigado

Agradeço a todas, e todos, pelas mensagens, e telefonemas, tão estimulantes falando do meu aniversário – ontem. E também pelas palavras sempre generosas sobre meu trabalho, e minha vida – vida que, como respondi nas mensagens e telefonemas, e todos aqui sabem, é realmente viva, viva na plenitude, com ela

Realmente obrigado.

W.

10 November 2017

Essencial maçã
(Últimas mudanças/Versão ainda mais certa)
Para Ângela, que é a minha essencial tudo

Seria, para mim, esse 10 de novembro, um dia comum,
desses sem merecer, da data, a reverência
até o instante em que tudo,
tudo mesmo para o ainda remoto
mas perplexo
– mais remoto do que sou agora que já existo,
e mais perplexo do que com os olhos há um suficiente,
de suficiência que nunca se basta até que me extingua,
tempo nesse infinito pequeno mundo –
Werther, eu, Padovani,
que nasceria logo depois,
mudou:
ela nasceu.
Mas,
ainda que só como
espectro no espectro
do mínimo ponto a deflagrar-se na Via Láctea,
eu,
ou o que naqueles vagos átimos,
e séculos,
e milênios,
em que o que será ainda não é,
pressentira a sua,
em si própria,
tão íntima,
núcleo que se expande,
envolvendo-me,
galáxia
– Ângela.
Pele,
e pétalas,
noturnas e ao-sol pétalas,
e então olhos,
líquidas pétalas,
e boca,
e então lábios,
úmidas pétalas,
e peito,
e então, nele, outras flores,
de pétalas sobre pétalas,
ela,
e suas pétalas todas são as mais delicadas pétalas,
inteira me atrai,
magnética órbita,
e o todo espaço,
voo e mergulho,
e precipício de onde,
mar embaixo,
diferente mas igual,
ao megulhar eu voo.
Aquele dia virou sim data.
E a Ângela,
única Ângela,
vai acordar hoje,
10 de novembro,
querendo de presente só maçãs, e peras, e palavras
– inclusive a palavra maçãs, e a palavra peras,
e todas essas que aqui estão:

Seria, para mim, esse 10 de novembro, um dia comum,

desses sem merecer, da data, a reverência
até o instante em que tudo,
tudo mesmo para o ainda remoto
mas perplexo
– mais remoto do que sou agora que já existo,
e mais perplexo do que com os olhos há um suficiente,
de suficiência que nunca se basta até que me extingua,
tempo nesse infinito pequeno mundo –
Werther, eu, Padovani,
que nasceria logo depois,
mudou:
ela nasceu.
Mas,
ainda que só como
espectro no espectro
do mínimo ponto a deflagrar-se na Via Láctea,
eu,
ou o que naqueles vagos átimos,
e séculos,
e milênios,
em que o que será ainda não é,
pressentira a sua,
em si própria,
tão íntima,
núcleo que se expande,
envolvendo-me,
galáxia
– Ângela.
Pele,
e pétalas,
noturnas e ao-sol pétalas,
e então olhos,
líquidas pétalas,
e boca,
e então lábios,
úmidas pétalas,
e peito,
e então, nele, outras flores,
de pétalas sobre pétalas,
ela,
e suas pétalas todas são as mais delicadas pétalas,
inteira me atrai,
magnética órbita,
e o todo espaço,
voo e mergulho,
e precipício de onde,
mar embaixo,
diferente mas igual,
ao megulhar eu voo.
Aquele dia virou sim data.
E a Ângela,
única Ângela,
vai acordar hoje,
10 de novembro,
querendo de presente só maçãs, e peras, e palavras
– inclusive a palavra maçãs, e a palavra peras,
e todas essas que aqui estão:

É,

a Ângela,
no que se refere às palavras,
quer ganhar essas que já foram lidas,
e as que virão:
ela sabe o ciclo do tempo,
e por isso sabe que as palavras,
as lidas,
e as que serão lidas,
e as que ainda não foram,
e as que ainda nem existem,
todas formam o que do olhar se extrai como faísca, e ouro
– não faísca de devastador incêndio,
e não ouro de opulento adorno,
mas de, faísca, relâmpago que encanta ,
e ouro que, no vaso como cola, une,
e distingue,
a história, as palavras, do próprio vaso.
E,
já vindo,
essas palavras,
como as de há pouco,
ela então espera ganhar também:
o poema tem que ter o ouro,
discreto ouro,
que liga as palavras às palavras,
e as palavras ao silêncio,
e o silêncio às palavras,
e o silêncio ao silêncio,
que todo silêncio no poema,
a mais ancestral, e maior, música,
é palavra.
E é música em que o compositor é maestro, e toca
– e toca todos os intrumentos,
e toca quase invísivel,
pois, mesmo oculto, quem lê suas palavras, ou quem o lê, o sente.
Só que o autor do poema sente ainda mais,
e sente até o que sente quem, ao ler suas músicas, o sente,
e sente até o que sente quem,
de forma exclusiva,
e à obsessão,
é a palavra da palavra do poema: Ângela.
E a Ângela acaba de nascer,
e assim surge sua primeira palavra
Ângela –,
que ela, pura, resguarda.
A palavra,
a palavra Ângela,
com o tempo,
o tempo de que Ângela sabe o ciclo,
se irradia pelo cosmos,
e encontra a minha boca,
na verdade, que ela é magnética órbita, a capta,
destino,
sina,
saga.
E a minha boca ao ser captada também a capta,
absorvendo ao ser absorvida toda a umidade, e pétalas, dela,
traduzindo-a, depois, em palavras,
e tudo é palavra da palavra da palavra,
pétala da pétala da pétala,
maçã da maçã da maçã.
Ângela nasce,
e o 10 de novembro
– não pelo que um escritor,
esse obscuro Werther Padovani,
escreveria sobre ela,
mas pelo que de tão puro além do nome ao nascer ela já resguardava –
se torna palavra,
e portanto data,
pois toda palavra é o tempo,
humano tempo,
e o que de antes a boca, e mão, do homem rastreia,
a revelar o que nem palavra ainda tinha,
e o silêncio, o silêncio do gelo, e outros, é palavra,
e os urros, os urros das feras, e os outros, dos, se, astros, é palavra,
e por ser tempo a palavra tem,
Faça-se o tempo,
o silêncio,
que houve algo, ainda que fosse um nada na redoma, antes do silêncio,
ou então o silêncio foi sobreposto por outro silêncio,
um silêncio de outro timbre, e insígnia,
e a palavra,
que, ao bíblico significado, é
mulher e homem,
pó,
e costela.
E Ângela.
Ângela nasceu.
Ela tem, de mim, as palavras.
E quer só, e sejam até palavras, maçãs e peras.
Estenda as mãos Ângela
– sentiu ao tato o frescor das maçãs e das peras?
Não, elas não são mais palavras.
Elas agora são maçãs e peras.
É o meu presente para quem,
por conhecer o ciclo do tempo dentro delas,
só queria hoje ganhar de fato, e em palavras, maçãs e peras,
e para quem me faz transformar palavras em frutos,
pétalas,
órbita,
faísca,
ouro,
vaso,
universo,
o nosso universo.
Universo feito de desejos,
o desejo da maçã,
e entregas,
a entrega da maçã,
e essas, a maçã desejada e a entregue, são o nosso sumo,
líquido,
a água dentro do fruto
e da nossa boca
quando,
por ser seiva um do outro,
nos absorvemos,
fazendo o instante
transmutar-se
– pelo que em nós é,
o que vem do seu ao nascer,
essencial tempo –
em data,
nossa sempre urgente, e só nossa, seja que dia for, mais mútua data.

W.

28 October 2017

Palavras ao rastro de nós mesmos
Esboço
(Nihil obstat quominus reimprimatur)

As palavras vão num jorro,
mas não a traço completo do jorro,
linha,
vão em jorro despedaçado,
só que cada parte é inteira,
jorro a jorro,
coágulos derramando-se das feridas,
estilhaços de sangue,
lascas,
glóbulos,
plasma,
coração,
esse pássaro selvagem em pós-réptil que não recolhe os restos do que era,
pois, sina do, ao universo, recente réptil, rasteja em voo por impulso,
músculo independente
que mesmo sem a atávica sina insiste em bater no peito
até,
faca,
febre
ou setembro,
as palavras serem incorporadas ao silêncio,
e o tempo parecesse ele próprio fóssil
que de imensas minúcias do pó será recoberto,
porque voltou,
antissíndrome,
ao primeiro quartzo,
e que seja o quartzo não a básica pedra
– que não era pedra, era, se, ponto no nada, nada no tudo, cápsula,
e cápsula que é fora,
originário,
ou reincidente originário,
comprimido espaço,
e, simultâneo, comprimido tempo –,
seja o quartzo a palavra quartzo,
da, se, invisível explosão, e, ainda se, pelo vácuo, o vago estrondo,
silencioso quartzo,
quartzo antes do quartzo,
sólida pulsante água,
água antes da água,
de que tinha,
e que seja a água a palavra água, ou gás, ou nada, ou tudo,
saído,
e que à época ainda intacto já anunciara
pela sua própria presença
o futuro verbo
sob o estigma da noite
– e seja noite a palavra noite,
e cada palavra a palavra –
com seu rastro de sombras na vastidão do escuro.
E nosso coração
é o das mitológicas feras,
aorta e carótida monstruosamente humanizadas,
impetuosidade sanguinolenta
deflagrando-se
entre a época em que os Toscos Bichos faziam seu rastro na história
e o tempo em que os novos bárbaros passaram a procurar esses vestígios,
deixando,
assim,
os seus,
que,
no último futuro,
da terra serão fogo.
Um dia,
na cela,
o monstro acorda do escuro que o enclausurava,
o longo desmaio,
e arranca o coração em cólera,
fúria dos precipícios,
ira descomunal,
ímpeto cruel
– desentranha a dor,
aumentando-a,
e
com olhos ainda rasos de luz
ao escapar do rapto
das trevas de que veio
inaugura para suas mãos
aquele músculo sem forma,
sangue em incessante fluxo,
substância que dele é desejo.
Recoloca-o sob rústica costura.
E na trajetória para se fixar  
nas colunas já decepadas
da Roma de lanças, elmos e leões
o sangue,
outro mesmo sangue,
espirra em nosso coração.
O que éramos
ou o que não éramos
vive também nos séculos em que não vivemos,
cada século com seu destino.
O efêmero é feroz.
Martirizamo-nos
como se,
à vaga luz dos olhos,
líquido cego,
procurássemos
o corte escondido no coração.
O jorro
do sangue
não permanece na lâmina,
e sim na memória da lâmina:
penumbras,
águas,
pétalas,
contornos,
extremos,
sedas,
mistérios,
hemorragia em que se resgatavam o homem e a mulher.
As estrelas,
e constelações,
também se buscam.
Muito antes
da época
em que não se faziam,
com as mãos,
nem o fogo nem o medo,
havia,
no oculto das faíscas a surgir,
o ímpeto
de duas órbitas
que,
camada a camada dos milênios,
iriam se dominar
num esparramado rastro
expandindo,
até os mais urgentes infinitos,
e com isso concentrando-os,
os instintivos todos sangues agora em jorro
das veias por destino de si vorazes
– e que dos pós iniciais
desinterrompem-se sob a concebida pele.
Uma atrai, e percorre, a outra
com mistérios que, ao íntimo, buscam mais mistérios,
e no simultâneo rapto coágulos se fundem dentro delas
e delas para o abrupto
em ápices, umidades e incandescências,
lavas irreprimíveis a cada súbito contínuo movimento
por, nelas próprias, vestígios a tornar

a órbita que
– sem o fluxo das artérias de outra,
não de qualquer,
mas da sua outra,
também,
como ela,
à procura
do que
no acúmulo da noite
nada fosse
estancado corte –
gira
na solidão
dos ainda externos remotos impulsos.
As bocas
dos dois corpos
que se atraem
têm na saliva
o sangue em sangue
um do outro,
líquido
que irrompe
das mais secretas volúpias
por precipícios,
e vertigens.
Neles
o plasma é membrana,
que nem lábios,
chama sempre em erupção.
O já-pronto,
com seus raios mais supérfluos,
é o fim,
o amorfo
em sua vã cristalinidade,
pedra sem alma.
Melhor o inacabado:
o atrito,
o corte,
a veia aberta
 um sangue
que provoca
a essência
com o brusco pouco-a-pouco,
o milimétrico em jorro,
do eterno.
É a lasca na rocha
que,
oculto fio,
e não-ruína,
constrói todo o perpétuo:
a mão
se mantém
ali,
tocando,
como na mulher,
o mistério que,
aos olhos rasos para o se é externo,
e,
pela feminina ruptura,
de ímpetos sob a penumbra dos corpos um no outro,
torna-se
não só o recente completo,
ainda que o completo, ao que entrou, sempre seja úmida chaga,
mas a busca do que,
difuso,
é a origem
da enfim nossa única incessante, e por isso fixa, substância,
e ela,
em talhes, fibras e tendões,
e a cada desejo que pelos glóbulos em meio se forma,
justo para a substância prosseguir na substância,
me atrai.
Nela os mistérios não se contêm no corpo
e giram
em órbitas invisíveis a olhos sem ilusão.
Líquidos,
reflexos
e profundezas
jorram incessantes pelo ar.
É,
aos poucos até o súbito,
um tremor como se de recente mar
que sequer se desata da origem:
mesmo dos seus dentros
expande,
ela própria,
e a um espaço ainda nem alcançado,
toda a já incontida imensibilidade feminina.
No imediato do que a ela assim é urgente
faz também suas solidões
revelarem-se
de ocultos Netunos,
riscos à galáxia de lâminas e cicatrizes internas.
Umbigo,
costas,
éter,
bicos,
lábios,
tudo em suas órbitas sempre está em extrema margem,
sangue esperando o corte,
fio que à minha retina
e a cada veia
é o não-limite
entre o voo e o mergulho
na atração agora em ímpeto de nossas vontades.
E o universo reflete a mulher olhando em desejo o universo:
os fogos do espelho.
E ela,
ao mirar,
sob as internas chamas que se alardeiam,
seus lábios,
costelas,
pernas,
e as próprias retinas,
seus todos femininos mistérios enfim,
faz do espelho,
esse líquido fixo igual vidro concebido de fogo em fogo,
um quadro
 – um quadro em revolta.
Da mesma índole do espelho
o quadro,
o universo,
reproduz, então no instante em bruscos traços, outro mistério,
urgente após aquele:
o do homem
a entrar,
sob o impacto do incontido recém-mútuo anseio,
no escuro,
e nos abismos,
dos fogos que na mulher o atraem em convulsivas águas,
que se misturam a outras convulsivas águas,
como os fogos aos fogos,
os lábios aos lábios,
costelas a costelas,
ápices a ápices
– e a mulher,
assim,
a cada íntima pele irrompe seu mais escondido âmago,
que ela logo na origem,
e portanto à essência,
ao devolver para o universo
no reflexo de si própria
em já impreterível futura cólera,
igualmente no reflexo dele,
e por isso em mesmo colapso,
de volta capta.
À pele,
e olhos,
bocas,
costas,
exclusivas águas,
e incêndios,
a mulher transpõe-se em mulher no auge
– a mulher deflagrada dentro dela
corre por sanguíneos enigmas
para,
à fúria pelo homem,
e do homem,
apossar-se,
sem controle,
em águia, instinto, cio,
fêmea de ancestral herança,
a de antes da bíblica costela,
que a converte no remoto elo de sua sempre ilíada saga.
O no momento liberto infinito,
jorro de cálida fêmea Ártica, 
tumultua o que a ela antes era tão casto etéreo
para que a correnteza, súbita, num pretenso eterno a desate.
Da imensidão vazia da eternidade
desponta o que há muito,
e por destino,
de instinto se buscara,
e assim da nua Via Láctea irrompe a sempre nua mulher
– e ela transpõe, átimo a átimo, os ventos,
e os céus,
e no paradoxo entre o inclusive remoto fulgor e o imediato reflexo,
lança-se, inata, ao sol,
e noite,                                                                                
igual a jovem pássara que,
da mágica nunca ninguém saiba,
amarra-se,
mas em voo,
o voo original,
ao que no céu nos parece o vazio,
sem aparente fio para elevá-la, corda, nada.
Por também invisível fio no ar,
e à sua maneira de jovem pássara,
a mulher irradia o seu sempre exclusivo voo:
com secretas asas
faz do que está ao redor, acesas então as trevas, o seu infinito espaço,
mantendo,
estendida pelo voo,
a sua saga.
A mulher então,
íntegra Atena,
translúcida, se da mulher a mulher, a toda batalha,
e íntegra Vênus,
a bela, se da mulher a mulher, levada por cisnes,
vai aos desígnios do Olimpo,
de prévios deuses.
E que a ela todos os mares, e rios, mantenham cada caráter
– para que,
e no reflexo de um no outro,
são espelhos,
eles,
às diferenças,
que no profundo é igual voo,
se propaguem,
fixando-se depois à memória como fluida montanha.
Incumbida pelo juízo das divindades
a cumprir tão solene, e complexo, ritual,
e por elas em anuência das greco-romanas personificações,
a mulher se deflagra,
e gesto a gesto,
olhar a olhar,
mistério a mistério,
anuncia até às longínquas órbitas sua mais íntima dança
– universo por ela naquele instante reconquistado.
E a águia levou o mais alto ramo de um cedro no Líbano,
e a águia é mulher,
e o cedro em ramo, dentro, é a seiva que percorre a mulher.
As sedas do Oriente em quase Ásia
despontam nos árabes mediterrâneos líquidos
de que fenícios, à mão, e alfabeto, criaram Cartago,
e com isso a sombra como contraste sobreposta a Roma.
Helenizado,
e no após ptolomeico Egito,
selêucida era
e bizantina cruz,
o Líbano,
fluindo-se dos 3 mil metros do monte,
percorreu um real imaginário rio Litani até que o islâmico manto,
ainda que com latinas veias de Jerusalém,
e ventos otomanos,
e sob mesopotâmeo-palestino tremor de franco-britânica onda,
o cobrisse em maioria cedro,
que há cristandade pela raiz,
e dela o ramo de Davi.
Dessas históricas brumas,
e envolta por solitária dabke,
surge em pétalas a rara mulher.
São pétalas da noite, neve, sol, uivo, profunda Qadisha
– eterna sagrada flor.
Eterna sagrada flor de Beqaa.
A meus olhos,
que a projetam em única, e particular, dança,
a íntima dança,
como se aos eflúvios
do mais precioso ancestral vinho que brota do vale,
mas concêntrica nela mesma pelo feminino silêncio,
a mulher,
com relevos, e dentros, da flor que em si traz,
reluz todo seu esplendor
– fogo que antes se fechava em nó,
o nó que prende o desconhecido,
deixando-o sob distância do súbito acaso
de,
à revelação ao menos da parte mínima da essência,
converter-se em mistério.
As penumbras ocultas do mistério,
e justamente por ser de um mistério,
dissipam-se pelo espaço:
o olhar que as atiça
cria em torno da cena
um íntimo exterior universo.
As órbitas dispersas se unem,
o que refaz os céus, e os destinos.
As pétalas milimetricamente compõem-se ao passar dos séculos
para, por mais se já pétalas, agora é que seja o ápice.
Também milimetricamente,
as retinas dos meus olhos então as despertam,
resgatando-as das águas, abismos e crepúsculos do Gênesis
– e do tempo em que,
mesmo em flor,
só que inconclusa flor,
não teriam o espelho,
e os sonhos,
onde no átimo enfim completas se deflagrassem.
E as pétalas convergem à sua corola: umbigo da mulher,
labirinto em flor sob os mais profundos desejos.
No ímpeto o desejo dos olhos
busca
a cada giro seu próprio núcleo
a cicatriz de oculto mas fluído sexo.
O nó que se retrai ao ventre
é paradoxo em si:
ainda que com rústicos fios enlaça uma sempre recente seda,
intrínseco tecido a nos envolver em consenso rapto.
Infinita embora fechada,
ao homem
a seda decorre da mais particular feminina essência,
plasma externo,
que nos congrega.
O umbigo irrompe da mulher,
e a fenda se abre ela mesma como boca.
O tremor do mar está amarrado por aquele nó.
Jorro prestes a eclodir – palavra saindo do uivo.
As mais antigas águas
guardavam
as palavras,
criadas nos ecos de seus fluentes cristais,
para transmiti-las
aos homens que sabiam,
nelas próprias,
e por elas,
estar em gestação
 as palavras foram expulsas da borda
pelo destino de entregar as sílabas
a ainda inexistentes homens,
refinando-as,
sob absoluto silêncio,
até,
no esforço de ser répteis e voos
em espera anunciada,
tornarem-se o que em si esculpiam,
nós,
mas,
pelo rastro,
mantendo o caráter, e o exterior, também em água,
sua essência,
guelras, escamas e vogais.
E assim há muito dizemos,
e confessamos,
as palavras,
todas elas,
e todas que conheceremos
 e todas são busca,
agora por outra época quase eterna,
esta de retorno,
do oceano que,
em ondas,
da boca
desaguamos
no ar.
E Deus
disse
Faça-se o homem que é da sua mulher, e a mulher que é do seu homem,
e então Ele disse Faça-se a voz, e sangue, deles se misturar, e assim foi,
e a voz,
à extensão do sangue,
ressoa das marítimas correntezas,
e do tempo,
e de todas as criações
– céus, terra, luz, sombras, águas, frutos,
manhãs, noites, feras e o tudo mais –
a consagrar a íntima bíblica origem:
as puríssimas águas,
e os puríssimos voos,
que águas também são voos,
e voos, águas,
e deles o homem e a mulher.
Em voo,
e mergulho,
junto ao homem
a mulher,
no ímpeto,
busca o mais extremo limite,
e até interno,
em direção ao que,
reinaugurando o mundo,
antes nenhuma alada deusa
– de Éfeso, Samotrácia, Cólquida
e as outras à mão direita de Atena 

chegara.
No impulsionado voo
a mulher procura,
e também na volta,
água,
sua mais remota origem:
a profundeza de ser mulher.
Tudo a seu redor é órbita,
esplêndida Vênus que corre pelo céu,
e da própria Vênus
é mítico desigínio, sina.
O voo da fêmea,
de extensiva águia,
muda a correnteza, ainda que quase rente, aérea..
Seus olhos,
naquela mínima fração do infinito antes do ápice,
mesmo fechados miram o paradoxo entre o efêmero e o eterno.
A mulher, ao homem, desvenda-se sem fronteiras e a cada entrega,
entrega que é conquista,
deixa,
de sua enigmática essência,
o rastro que o homem,
ao perseguir,
também alastra
em ininterrupta conquista,
conquista que é entrega.
O voo,
mútuo voo,
e mergulho,
então
é mais que um voo,
e água.
É destino da mulher na própria mulher
 e no qual o homem
em sua  saga por ela se excede.
O mundo todo é inédito:
oceanos,
répteis,
raios,
iras,
números,
as remotas antiguidades de cada coisa,
tudo
a nossos olhos
é o limite mais recente
daquilo que em séculos ainda se forma.
Por mais que tudo pareça feito não está.
Falta sempre quem o inaugure,
o que lança a faísca
para pôr em ação
a engenharia do mundo:
os guepardos correm,
as nuvens concebem o trigo,
o espelho cega,
mas tudo,
embora em movimento,
permanece em sua própria fronteira,
no contido quase irrefreável dos acontecimentos,
inexibição do destino.
E mesmo com o mundo em frequente ação
tudo se mantém intacto
até quando,
de olhar em olhar,
cada mínimo infinito,
súbito,
inaugura-se.
Cada ato se refaz
nas sucessivas inaugurações
que os homens,
e mulheres,
do todo,
deflagram em si mesmos
– o que transforma
a água original
em pedra,
e faca,
e palavra.
E no universo de cada um.
E agora as palavras vão num jorro,
mas não a traço completo do jorro,
linha,
vão em jorro despedaçado,
jorro a jorro,
só que cada parte é inteira,
coágulos derramando-se das feridas,
estilhaços de sangue,
lascas,
glóbulos,
plasma,
coração,
esse pássaro selvagem pós-réptil que não recolhe os restos do que era,
pois, sina do, ao universo, recente réptil, rasteja em voo por impulso,
músculo independente
que mesmo sem a atávica sina insiste em bater no peito
até,
faca,
febre
ou setembro,
as palavras serem incorporadas ao silêncio,
e o tempo parecesse ele próprio fóssil
que de imensas minúcias do pó será recoberto,
porque voltou,
antissíndrome,
ao primeiro quartzo,
e que seja o quartzo não a básica pedra
– que não era pedra, era, se, ponto no nada, nada no tudo, cápsula,
e cápsula que é fora,
originário,
ou reincidente originário,
comprimido espaço,
e, simultâneo, comprimido tempo –,
seja o quartzo a palavra quartzo,
da, se, invisível explosão, e, ainda se, pelo vácuo, o vago estrondo,
silencioso quartzo,
quartzo antes do quartzo,
sólida pulsante água,
água antes da água,
de que tinha,
e que seja a água a palavra água, ou gás, ou nada, ou tudo,
saído,
e que à época ainda intacto já anunciara
pela sua própria presença
o futuro verbo
sob o estigma da noite
– e seja noite a palavra noite,
e cada palavra a palavra –
com seu rastro de sombras na vastidão do escuro.

W.

7 October 2017

7 de outubro

Umbilical voo: mais que viagem, destino
Astronauta feminina
Para Raquel, minha filha – que expande sua beleza pelo universo

Ela sempre, a todo instante, quer ser astronauta,
e por isso seu mundo é muito mais amplo:
envolve até o último remoto, e desconhecido, ponto,
inclusive, então, que as galáxias se expandem, o ainda a se criar,
externo amniótico universo
onde o astronauta,
o que ela, querendo, é,
o real,
o seu real,
e seja ele o seu real,
flutua como se de subaquático corpo.
Ligado,
por fio,
o da umbilical gênese,
entre o espaço
– e além,
a viagem,
e,
de maior além,
não a viagem,
efêmera,
mas o destino,
e outro maior além,
que o homem também se expande,
interno voo,
não o destino da viagem,
que burocrático,
e sim o seu,
da vida,
indômito
– e a nave que, exceto pane, lhe é agora tangível vulto,
ele,
e reitere-se que, pelo desejo, é ela,
à fronteira da origem e da sina,
explora a pós-atmosfera
como se fosse há pouco, e eis o consubstanciante verbo, nascida.
E é.
Aquele espaço não a conhecia,
nem ele a ela,
que mesmo assim a carregava:
parto.
A Via Láctea,
e as outras quando for,
e se,
e se já,
é que a expele em tão longe, mas, pela própria natureza, dentro, gravidez
– o,
reconsubstanciante termo,
pois, é certo, as palavras impulsionam-se entre si,
silábica constelação,
astronauta não se lança ao lugar:
o lugar é que, atraindo-o, o dispara.
E todo astronauta,
e aliás portanto os que da Terra,
ou diverso abismo,
e tenha,
e a Terra,
outro,
que a geografia, até a espacial, se subjetiva, muda,
relevo,
logo,
ao espectro da história,
e se houver história além da que em história transformamos,
partirão,
é precursor do aparente, pelo mistério ainda que sob foco, infinito vago,
e até, caso junto a outros, o único.
Deste modo,
ela,
e é sempre dela que aqui se fala embora se fale de galáxias,
e do último remoto, e desconhecido, ponto do universo,
é única astronauta,
e está em permanente voo.
Desbrava não só o espaço,
a gravidade,
o tempo:
desbrava-se.
Ela é a viagem em si.
E a órbita
– mútua órbita,
porque esse voo é,
ele nele,
o que constitui-se ela nela,
milímetro a milímetro,
e pelo mais humano desígnio,
etérea feminina marca de indelimitado rumo.

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Mais presentes

Flor na flor 
Para Raquel, minha filha sempre em flor e de tão delicadas intensas pétalas

Ela entre flores: essência da essência
No limite máximo da pétala em contato com o ar,
última camada da flor antes de que ela deixasse de ser flor,
pois ali inicia-se o que não é ramo, folha, pétala,
ocorre o,
ao mundo em expansão,
mas de expansão que o aglutina,
exterior interno processo:
a membrana, que é pétala, captura,
sem desfiá-los,
o ar,
a nuvem,
os mares,
a terra,
planetas,
galáxias
– e o que seria além das finas fronteiras da flor
vira seu avesso,
submerso.
Ao abranger tudo que existe,
a pétala, por sina, abrange-se:
ela não brota para, exígua, se limitar ao espaço das margens.
Avança a ponto de que suas bordas fundam-se com as do maior infinito.
Então quando contemplamos uma flor,
a gérbera,
não é nosso olhar que a envolve
– é ela que envolve o nosso olhar.
Até o que na nossa retina vem por reflexo, e memória, da flor
nos chega, no amplo contorno, coberto de suas pétalas.
O sol é sua corola mais diáfana.
A lua, seu noturno fecho
– feminino adorno na já feminina pele,
broche,
camafeu,
joia.
Sol,
lua,
rubi,
toda flor tem uma pedra preciosa escondida:
suas folhas a camuflam.
O mistério projeta da mulher a flor
– em tecidos que a cobrem,
como à flor as pétalas,
ela se congrega,
substanciando-se, pelo que oculta, nela própria.
Assim a mulher se resguarda para o que nela eclodirá,
transformando-a,
a cada último ápice,
no mais tênue pólen
– o qual, de tão sutil, permanece invisível,
mas que exala-se.
Os tanto depurados femininos grãos se irradiam.
Junto à membrana que é pétala,
capturam,
também,
e igualmente sem desfiá-los,
o ar
– e então a etérea trilha por onde correm fica dentro ainda que fora,
cápsula a conter a casca –,
a nuvem,
os mares,
a terra,
planetas,
galáxias.
Do pólen ao perfume,
que a partir dos grãos,
e da essência em flor de onde eles partem,
se alastra,
o processo,
ainda igual ao da pétala que captura o universo,
ocorre de leves súbitos
– o perfume apreende o mundo,
e se mescla a ele mesmo:
aroma no aroma,
efervescência de porém imperceptível oceano.
A mulher,
pela intrínseca fêmea saga,
desponta da flor na flor,
pétala na pétala,
folha na folha,
ramo no ramo,
raiz na raiz,
perfume no perfume,
e febre na febre,
de insurgente mar,
e lago no lago,
de estendido remanso.
Sua febre
e remanso
compõem,
entre o sumo das folhas,
e ramos,
a, pela natureza, ancestral de si gerada seiva da raiz até a pétala:
a mulher é sempre inédita,
e enigmática,
pelo segredo de sua preciosidade,
hereditária tácita água em erupção da mais única íntima espécie
– a que faz da flor na flor ininterrupta fêmea.

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Detalhe do quadro 
"Menina dormindo com a gata", 
 de Renoir
mistérios femininos
viram o centro de toda cena

 
Gata 
Para minha muito linda filha Raquel 
– que ama gatas, e gatos

Síntese absoluta de fêmea,
e, por síntese, que se expande sempre ao universo,
a gata,
a cada abrupto giro,
e inclusive milimétrico passo,
silêncio,
induz o em volta a seus mistérios
– ela é o centro de toda cena.
Sucinto excessivo corpo:
enrola-se
até ser um ponto,
núcleo de si mesma,
e se multiplica em súbito átimo – o salto.
De egípcias, persas e bizantinas dinastias,
entre todas mais,
a gata não tem só enigmas internos:
a incógnita exterioriza-se em sua ápice beleza,
seja o tecido por que estiver coberta
–  a seda, na trama dos pelos, também é seu corpo,
e seus instintos.
Se, no cio, de imediata febre, uiva em contínuo desespero,
a gata,
na inércia do mundo,
sem emergência,
faz o tempo desdobrar-se às suas próprias,
de verdade apenas delas,
horas lentas.
A gata assim,
ainda que em não áridos riscos,
arranha o mundo como ela quer:
soberana.
Mas, ao menos a humanos olhos, não há gata sem perigos:
cada uma anda como se existisse um precipício a seu redor
– apesar de ao fim dominá-lo.
E o domina com a mesma precisão a cada ato
da época em que,
há 10 mil anos
– com embrionários olhos
que alcançam as mais densas sombras da noite
e mecanismos
que captam
toda mínima variação de vento por onde se move –,
pulou dos galhos,
por sua rústica vida de quase aérea alcateia,
para rente a nossas pernas
num Chipre de possível mediterrâneo turco rastro.
Agora em antimatilha,
quase o mundo todo,
pois,
à exceção do deserto,
não o do monárquico sol,
o do gelo,
a longa viagem é seu território:
jornada a jornada,
desde o ainda não-fêmeo divino espirro do leão na Arca,
do qual sob a bíblica luz surgiu,
esgueira-se
– entre as ruínas de Roma,
e as anteriores águas, se Bastet,
com o sagrado musical sistro na defesa de Rá,
solar divindade de que, pelas estirpes do Nilo, se deflagra,
ou gregos bronzes, e então no fluxo para a lua, se Ártemis,
– até a mais futura civilização que virá.
A gata, em signo, no rito, é a nossa mais perto Ásia,
e não por outro de seus pioneiros ramos,
e sim, também, pela discreta mulher
que oculta, e expõe, selvagens rastros
– afagos de gueparda na esfinge de Khnopff.
Assim como na mulher,
as sutilezas no caráter de uma gata
fazem dela vestígio e ao mesmo tempo eclipse:
vertigem entre o estar e o não estar.
Independente,
a gata,
no contato
– e com mulher a substância delas se vincula,
prorrogando-se –,
ou resoluto distanciamento,
retém, em espontâneo curso, sua máxima nobre espécie.
E diante do novelo que do próprio corpo estenda,
ou resuma,
já que constitui a feminina síntese,
e até, pelo vazio, nos lembre, 
nunca ficamos sabendo se a gata é o que sonhamos dela
ou se somos o sono
em que, protagonista, exerce
a sua saga,
a sua fábula,
a sua obstinada indômita sina.



"La baie des anges", de Marc Chagall:
a mulher em voo além da moldura

O mundo revelado
Para Raquel, minha sempre tão linda filha, e encanto
 

O universo era todo avesso de si mesmo,
nó em resumo quase inexistente,
à espera de, ao difundir-se, se revirar, revelando-se
desde o primitivo peixe
lançado da cósmica poeira
até o último futuro,
tudo enfim que no vazio,
ou no mais mínimo nada pós-absoluto nada,
em irrestrito único silêncio
antes do inaugural estrondo concebia.
Até a treva estava em gestação.
Pouco a pouco,
com milímetros de séculos,
milênios,
do tempo todo,
se forma,
aos fragmentos da posterior lua,
e dos seus plasmas,
a mulher,
a mulher sublime entre as ancestrais fêmeas,
ventre e pétala,
pétala e enigma,
enigma e noite,
noite ainda que sob o sol.
A mulher
é a rara flor
que era peixe que era pássaro que era peixe
que foi Grécia a efluir de Aqueloo.
Máximo extremo da correnteza
de quantos haja aéreos oceanos em órbita pelas galáxias,
fábula corpórea de sutis vértebras,
ela se funde a seu ininterrupto redor:
água, secreta asa, voo.
E,
seja então no alto pois também à mulher é atávico espaço,
ela
–  ela igual em pétalas –,
ao levitar pelo contato com as flores,
substância que se refina na substância a ponto do volátil,
exala o primor do essencial aroma por todo o azul
– azul sobre a Terra,
sobre o quadro,
sobre a gota, 
inclusive se, 
pela busca do externo, 
já feita azul, 
da tinta criada por Chagall
que brilha no pincel agora 
quando está para concluir
mais um dos seus intrínsecos exóticos mundos.
A tinta fixa a mulher sem restringi-la
e, se a transmite, expande-a,
pétala,
plasma,
peixe,
asa,
palavra.
No seu sempre inédito eflúvio,
e à hipnose do éter,
nunca se retém na cor,
no tom,
no quadro,
nos,
o real e o de cada um,
universos:
desprende-se das molduras todas,
que é, ela própria, pelo inato eflúvio, pólen.
Pólen e pétala,
pétala e ventre,
ventre, pólen, pétala, enigma e noite,
noite ainda que sob o mais absorto ou incontido feminino sol. 

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"Mulher na sua toilette",
de Berthe Morisot:
intimidade feminina

Mulher passando perfume
Para Raquel, minha muito lindíssima filha
– e que é a essência da essência para mim

 
O esparso líquido do perfume toca a pele
e já em eflúvios exalta a sublime essência a que se ata: mulher.
Pescoço,
ombros,
colo,
toda a feminina pele destila o aroma que atrai.
E é a mulher que leva o líquido à sua própria essência,
âmago,
íntimo momento a partir do qual cada ingrediente pouco a pouco,
em gotas,
vapor,
névoa,
exala-se
– remota fragrância,
de jardim da pré-mítica maçã,
quando a mulher se envolvia a frutos, folhas, flores,
e dos quais seu corpo é pétala, ramo, relva.
Cítricos, florais, das profundezas do mar,
ou do que mais o raríssimo faro do perfumista deter
transformando-o em notas, acentos, acordes,
o perfume,
ao volatizar o extrato da mulher,
o fixa
– e o fixa inclusive pelas inebriações do liberto álcool.
A mulher passando perfume
se integra a seus mais delicados instantes,
como o líquido do perfume a seu líquido,
aroma a aroma,
mistério a mistério.
O toque das mãos na pele após cada mínimo intenso jorro
– a esparramar a fórmula
como se para arraigá-la muito mais em si –
provém de espontâneo gesto,
instinto de fêmea.
O frasco que resguarda o líquido é outra feminina parte:
o vidro,
de anterior maleável membrana,
prossegue o corpo da mulher,
mas,
pelo que significa,
redoma da redoma,
essência mais interna,
o abrange, protegendo-o, como o úmido véu que dele se lança.
A proteção é, a um só átimo, pelo encanto, desafio:
a mulher sabe que ali,
naquele pote,
há,
basta decidir a hora,
a mágica que a deixará ainda mais
– que, oculta, ela já é –
selvagem para conquistar noites, e estrelas de outro éter.
A mulher então desafia a mulher que há dentro dela.
Assim,
se a cena em que a mulher passa perfume pelo corpo
mostra as até abstratas sutilezas femininas,
seu efeito,
o cheiro da fêmea,
produz o quadro,
concreto,
e rude,
de mulher no seu mais recente expandido auge.
A sina continua:
seja em que época for,
barroca ou nos mais penúltimos pós-futuros,
e em que idade,
a mulher sempre está se transformando em mulher,
e a cada fase há uma nova mulher que se alcance nela mesma.
Portanto ao passar o perfume pelo corpo
uma mulher,
de perpétuo em perpétuo extrato,
fixo volátil,
também o faz passar,
como aqueles particulares segundos,
séculos,
toda enfim a ali concentrada imensibilidade do tempo.


.

Rachmaninoff e o piano:
sublimação absoluta

Rach 2 ao vivo
Para minha linda filha Raquel – que viveu comigo a experiência de ouvir o Concerto nº 2 para piano do Rachmaninoff, a música mais bonita de todos os tempos, nos dias 23 e 24 de março de 2013 no Theatro Municipal de São Paulo, com o pianista Arnaldo Cohen, a Orquestra Municipal de São Paulo e o maestro John Neschling

 
As primeiras notas
do sempre por ele recém-inaugurado piano
como se em segredo, quase confissão, se deflagram
e o teatro
aprofunda-se 

no silêncio do silêncio:
o Concerto nº 2 para piano do Rachmaninoff começa,
desatando o nó do íntimo ritual.
O silêncio,
úmido,
de lágrimas,
da sala
é contraponto,
e eco,
do que o piano logo proporciona:
toda a tensão da beleza, feita de modo que mulher, em ápice.
Vênus renascida tão próxima,
é de barrocos, sua natureza, indícios,
pois abrangentes curvas, elipses, labirintos.
As cordas agora nos atraem ao sinuoso caminho,
e as madeiras, e metais, e percussões,
também projetam-se,
tudo sob o contínuo milimétrico do piano.
O belo vai ficando mais belo,

e a mulher, nele, que é dela, mais mulher,
por desdobrar-se em camadas, e ondas, sobre o que já era auge
– alastrando-o.
O piano vira mina à lavra,
profusão de diamantes, cristais e quartzos que,
de muitos,
quase escapam,
jorro.
Soberana,
ainda que às vezes tênue,
a beleza,

a beleza de femininas linhas,
ao se impor,
nos interroga,
e liberta,
sem culpa.
O Rach 2 ao vivo,
com suas alturas, paralelos e volumes,
é, sagrada mulher, de absoluta sublimação:
nos envolve como se domo,
e altar,

mas à profana pele.
E,
a toda remota extrema onda esticando-se no limite da areia,
igual mar parece se extinguir
– mas volta,
e em correntezas que junto a outras águas,
a se transubstanciar de furor a calmaria,
e vice-versa,
por serem corpo o narram.
Nossas interiores ondas,
dele captadas,
à semelhança parecem nos extinguir,
mas,
a tanta beleza,
resistimos.
E,
numa variação da hipnose de Dahl,
que retirou Rachmaninoff de densa treva,
resistimos justamente pela fêmea beleza:
por ela criamos nossa, e no momento eterna, emocional cúpula,
e amparo.
O violino,
a trompa e o fagote,
tuba, clarinete, violoncelo, trompete,
viola, contrabaixo, bombo,
trombone, prato, tímpano,
a flauta,
o oboé,
e o piano em fixo volátil touro à frente,
que cada um inclusive nos anônimos instantes é,
e o maestro fosse um toureiro de tudo,
e até dele-touro,
que tudo,
consanguíneo ao universal russo piano,
é de fato touro,
que não mata nem morre,
embora deixe perpétuas vertigens,
o Rach 2 segue sua saga:
o êxtase cresce a tanto impacto
que no suposto último final,
e portanto 
de múltiplo em múltiplo imaginário espontâneo ramo ele se adia,
a onda então se alicerça
para ressoar o que do fim
é anunciação,
e já memória,
de,
ao belo o belo da mulher no incessante retorno,
máximo signo,
enredo e,
o mar é o navio
e o navio é o mar
,
viagem
– longa,
de uma vida inteira,
interna,
a real,
na busca pela mulher como resoluto mas perplexo ser diante do destino.

* Pena não ter disponível um vídeo com a versão daqueles dias no Municipal. Então fica aqui uma execução também primorosa do concerto:

https://www.youtube.com/watch?v=13RdQM0cGN8

Orquestra do Festival de Lucerna
Piano: Hélène Grimaud
Maestro: Claudio Abbado
Centro de Cultura e Congressos de Lucerna, 2008
 

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"O nascimento de Vênus", 
obra-prima de Botticelli:
sutilezas e ímpetos
Pérola na pérola
Para minha filha Raquel

(ela é a mais linda pérola)
– hoje e sempre,
com todo meu amor


O nácar envolve-se camada a camada
até que,
da mais perfeita joalheria,
a preciosa pequena esférica rocha,
que é calcário,
irrompa das ocultas sombras,
sombras que também a tecem,
à abertura da concha: pérola.
As femininas sutilezas externas da pérola
resguardam os ímpetos ainda,
na semelhança,
em redoma da mulher
– por isso,
às renascentistas botticellias eternas tintas,
da concha que se deflagra
pelas greco-romanas espumas do mar
surge,
ao sopro do deus Zéfiro,
que compartilha fraternos pontos cardeais do vento,
e ao espanto,
pelo contínuo rapto,
e imediata admiração,
de Clóris,
e também sob o manto de pelas civilizações em laço Flora,
todo o esplendor,
no instante ao máximo descoberto,
da já adulta, e de nudez casta, Vênus
ou, se portanto apenas de gregas águas, Afrodite,
de hierárquico fenício culto de Astarte.
A sagrada cena,
de brandas puras cores numa irrestrita Citera,
ou absoluto Chipre,
e entre ritualísticas folhas de murtas,
e esvoaçantes açucenas,
intacta-se aos líquidos véus do cristão batismo,
e de sinuosa medieval Madona,
unindo o itálico Olimpo ao não apóstolo império em Belém
e ao ramo que a ele no todo depois cobriu.
As madrepérolas
que, no ápice do enredo, concebem a mulher
projetam suas chamas
– a aquosa superfície em glóbulo as retém –
ao agora exterior olhar,
antes único às órbitas da concha.
São órbitas em trama até que o destino dê o harmônico nó.
Os olhos da mulher
pendem conforme brincos
– espontâneos adornos perolizados da fêmea matilha,
que toda mulher se compõe de várias lobas,
a atrair o universo.
Então a mulher é a pérola na pérola,
o belo no belo,
sublime no sublime:
confluência que liga a galáxia ao homem
e,
ao modo de pérola que capta o espaço,
faz girar à sua volta até as mais longínquas imensidões.
A mulher transforma-se sempre em mulher
como se a todo mínimo átimo Anadyomene Venus
– e assim
a cada instante,
a cada ano,
a cada tempo enfim do que é perpétuo,
a mulher
consubstancia, e distingue, a beleza
que,
em suma na pérola,
de camada em camada
cristaliza-se ao longo dos íntimos efêmeros momentos
do seu particular difuso,
o qual pelo atávico alcance não se pode deter,
brilho de renascida Vênus.

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Scarlett Johansson no filme que se inspirou 
no quadro de Vermeer: destino copiado

Filha com brinco de pérola
Para minha tão lindíssima filha Raquel – hoje em seu aniversário, e sempre, e a cada instante, e com todo meu maior amor


Os olhos ao máximo oblíquos
pendem,
mesmo ali em ápice eternos,
fixos,
como se brincos.
E a real pérola
no meio de tantas joias femininas
– boca, pele, mistério –
junta-se à trama em tesouro
concebida,
de traço em traço,
tinta em tinta,
imagem em imagem,
pelo pulso de Vermeer,
e que muito tempo depois
em partículas correm pelo ar
à revelação do escuro,
convertendo,
no quadro que é a tela do cinema,
a beleza no que mais próximo de verdadeira viria a ser:
a da única mulher em única mulher,
que se move fora de uma e outra tela,
pois de íntima moldura,
e de tons, e reflexos, próprios.
Na tela original,
e já na tinta a líquido antes do átimo que a reterá,
os olhos,
pelo branco que sustém as cores
da, a refletir o dentro ou o externo, vasta circunferência na pupila,
foram feitos como sob as águas, e o sol, do Oriente
– que induzem o auge
de todo detalhe da marítima oculta rocha.
Também de jeito oculto,
e também sob o véu do enigma,
pois o enigma é o oculto que sabemos oculto,
os olhos,
e todas as joias,
da mulher sempre se transformando em mulher por sua órbita
filtram a luz do mundo
igual a tinta no quadro que a imita
exerceu há séculos no sideral espaço para moldar-se,
o que a película,
cena a cena através do escuro na sala,
moldou de vez ao realçar o primor do belo no já instigante belo
– portanto,
sob suas marcas do fictício,
o cinema foi mais fiel
ao esplendor
que na pele de ainda úmidos anos
se lança ao universo.
Vermeer copiou o destino,
e os mais posteriores pincéis,
os das lentes em foco,
vão pelo rumo às voltas do,
que por análoga índole é de traço em traço,
recém-destino
– e dele até os encobertos fulgores dos olhos,
tão intensos quanto os à mostra.
São raios sob a penumbra,
e que ao irromper expõem a força do que já se previsse.
Os olhos no quadro,
e assim da mulher no após-séculos
que de fato o inspirara,
e por isso a outra, maior, tela,
captam os nossos no perpétuo.
Espelho que atrai a água do outro espelho,
e suas memórias e ilusões,
esse olhar nos envolve como o calcário,
que é sutil rocha,
ao redor do núcleo da pérola.
É ele que nos vê
– mas,
ao das sombras surgir,
é nele que nos vemos.
As pérolas,
que do remoto concentram nossa galáxia à síntese da esfera,
refletem a si próprias
e a quem seu brilho
– um brilho então não derramado como o do cristal,
e sim discreto,
de segredos –
no espelho em frente ao espelho
irradia-se por suas camadas, tintas e infinitos via-lácteos giros,
e com eles,
a cada elipse do em torno,
os espectros, sonhos e futuros. 


.

Galáxia hereditária
Ela fazendo 23

Nas veias em instintivo impulso
o sangue dela teve origem
pela imersa chama do sangue no meu corpo
e,
pernas, cabelos, braços, olhos, mãos, ombros,
sua essência feminina ao fluxo,
e febre,
já existia na inédita costela
– a mulher que de mim se gerava entre glóbulos e desejos
irradiou-se então por meu corpo em oculto eflúvio.
Meu coração a incita até que à pele, e à luz, surja
e agora que do meu corpo irrompe
ela continua nas minhas artérias,
enredo de fundamental aorta.
Assim embora à luz do mundo
ela está sempre naquele mesmo sangue
que carrega seu mistério sob minha pele,
invólucro da bíblica tâmara,
de que eu folha, raiz, árvore,
e da atmosfera o vôo.
De sua intacta pele
ela está dentro de mim
ainda que externa
como Monoceros a Perseus, Centaurus e solar Órion
– e com isso em sanguínea corrente
me ata a toda imensidão do universo.
A invisível veia que me liga a ela é de umbilical órbita
mas desde seu primeiro instante
eu que sou dela espiral interestelar poeira,
incandescente grão de película e membrana,
marca do nosso íntimo sangue.
A mulher que antes nas minhas veias
entre possíveis coágulos se cristalizava
para o além de mim me capta
e dela levo sua portanto eternizada descendente seiva
– que me faz,
da Via Láctea,
ter o ímpeto gênesis da mais futura hereditária galáxia.


.

Espelho na catedral
Ela fazendo 14


Fazer aniversário
é encontrar o tempo
e,
como num espelho profundo e certo,
ver-se pelo labirinto com o qual já se nasce.
Mas não é o ver-se só de contornos,
rosto,
boca,
cílios,
todas as ilusões dos olhos.
É o ver-se interno,
aquele em que tocamos uma imagem
que se reflete no nosso corpo todo:
a alma
ou o que com outra palavra, ou teor, se chame.
A cada ano
ela
guarda mais histórias, desejos, enigmas,
catedrais que o próprio tempo cria
para que o observemos à nossa volta.
O silêncio do tempo,
então,
é o mesmo das catedrais:
quando se entra nele,
ou por ele é entrado,
ganhamos uma compulsiva busca – na verdade também uma entrega:
a do tempo que,
secretamente à mostra como um rubi que só a si pertence,
revela o que de nós é sombra e com ou sem espera resplandece.


.

Peixinha na minha memória
Ela aos 11


No fundo da memória em que me levo
há um oceano intacto,
o oceano que,
naquele instante,
derramava-se
inteiro
na piscina onde minha filha,
uma peixinha de escamas recém-abertas,
flutuava imersa numa bóia em forma de estrela.
Essa bóia, paradoxo, acabou submergindo em outras águas:
as que se movem justamente na memória daquela peixinha
que,
antes de a luz,
essa água aérea,
de veias que em mim correm,
me dar,
era a memória da minha água mais glacial,
líquido
dentro de uma filha que flui para o oceano que também sou eu
e que por isso não faz minha memória
virar um náufrago de que sou mesmo.
Nas águas da memória daquela peixinha
também não houve um naufrágio:
aquela bóia sobe
eternamente
à superfície dos olhos da minha filha
e eles, assim, transformam-se em espelhos
projetando ao ar,
por imagens transponível,
o cúmplice cuidado
que eu,
um rio que se tornou peixe
e depois o útero em que uma peixinha nadava,
senti no reflexo que nos olhos dela o dos meus percorria.
A memória dela e a minha misturaram-se,
alastrando ainda mais o oceano interno de cada um,
um oceano em que o mais remoto
é o que a memória do mundo concebeu
para que os homens,
e suas criações,
não eliminassem o que se foi
e não eliminassem também o que lhes será antigo.
Nossas águas guardam a mesma cena:
a de quem ao me pedir socorro
me socorria da perda nas profundezas do esquecimento.


.

O voo da bailarina 
Ela aos 9 

Depois que a menina,
fina como uma linha,
aprendeu a dançar
viu
que não precisava
ter levado um susto,
aquele susto que antecede os medos, 
na hora em que pôs
a primeira sapatilha,
amarrando-a,
em laço,
pelo quase desconhecido tornozelo,
até então um irrelevante pedaço do corpo,
nem bonito nem feio.
O fato 
de a sapatilha
não ter,
ainda que a menina
que já sonhava em ser mulher
quisesse,
nenhum salto,
e que ao menos fosse curto,
mas, isso sim, bico duro, e achatado
– para ela,
enquanto na vida cresce,
se equilibrar
quando,
no palco,
a partir dos pés,
ou melhor,
de seus destemidos dedos,
toda esticada surge,
como se de elástico fosse,
mantendo-se firme
até mesmo
nos estonteantes rodopios
dessa prolongada pose –,
não faz do diferente calçado
nenhum estranho objeto
a que, pois só temporário laço, está presa.
Seda na forma de cetim em cima da pele,
é,
no fundo,
proteção para a menina não ter,
nos pés,
nenhum ferimento,
nenhum trauma,
nenhum machucado,
podendo assim,
corpo mais que reto,
se esticar até o tudo,
fique onde fique cada canto.
Foi quando ela, então já calma, também descobriu:
com a sapatilha,
a bailarina
– que não cria só os gestos,
mas junto cria também os em volta vazios –
nunca coloca,
embora às vezes pareça,
os pés 
em contato
com o chão,
seja ele,
conforme a história,
madeira,
pedra,
grama em volta do lago,
areia na continuação do mar
ou terra à margem do rio.
Delicadíssimos,
os pés
estão,
com a aérea, de tão leve, sapatilha
– esse,
como a sandália de salto,
a menina aprendeu,
muito feminino calçado –,
num ponto já sempre elevado
para carregar,
com a ajuda das pernas é claro,
todo aquele frágil mas forte corpo
até onde se escondem os mistérios
lá em cima,
lá fora,
lá no espaço
que para a bailarina
é sempre um ainda não inaugurado alto.

.

Sozinho
Ela aos 5

Onde você estava
que eu fiquei
aqui sozinho?

Ah,
agora ou depois,
e esteja onde esteja,
pode saber viu
que eu
mesmo longe,
e aparente só,
me sinto sempre junto a você
– dentro do seu coraçãozinho.


.

Descoberta
Ela sempre

A mulher descobrindo o mundo é mais bonita que o mundo por ela sendo descoberto.

W.