Dois
Depois de escrever Epitáfio, que pode ser visto no post de 18 de abril, lembrei, pela semelhança, de uma história familiar - que conto, ou tento, nesse então também recente trabalho, que acabou de ficar pronto.
Bom, pode ser, claro, que ainda mexa numa ou outra palavra - mas a ideia que queria passar já está toda nele.
Neste trabalho de certa forma retomo, ainda que num conteúdo bastante diferente, um tema que usei tempos atrás no conto O outono e a cadeira - para quem quiser conhecê-lo, ou quem sabe revê-lo, o link de uma republicação dele neste blog é
http://wfpadovani.blogspot.com/2010/10/o-outono-e-cadeira-reimprimatur-nihil.html
Eis enfim a seguir o trabalho que citei no começo dessa história.
.
O quadro de Bertha
Em meio ao veloz efêmero de São Paulo,
Bertha Krasilchik,
traço a traço pelo tempo,
pinta um milimétrico intacto quadro:
justamente o que a mostra levando flor ao Túmulo de Tarsila.
E de cada instante que em cristal se capta
o quadro,
como todo quadro,
até mesmo o que já na moldura,
ou o que, como esse, rumo ao pronto,
escorre em úmidas tintas o movimento da cena:
a,
de antropofágica árvore,
pintora
que ali jaz sob a impenetrável distância,
junto a seu Autorretrato de Vestido Vermelho,
nome imaginário de,
pelo título se antevê,
uma mais que autêntica tarsilíssima mulher,
tem o imediato em volta
transformado por Bertha em pintura.
E cada vez
que
na quadra 36 do terreno 46 do Cemitério da Consolação
Bertha lança as pétalas à lápide
- as quais,
pelo contraste,
viram barrocas
por cima das retas modernistas linhas do rosáceo granito -
ela projeta outro traço à pintura,
o que, na intermitência do rito, torna tudo inédito,
sutil recente pouso no eterno.
O quadro, ainda que sem a pincelada final, suspende-se
na memória da cidade
- e se seguia oculto
é porque não tinha tido o véu aberto,
o que agora,
em palavras no desejo pintadas,
acontece,
num então vernissage não do que já encerra-se em pedra
mas do que é ininterrupto pó.
A constante visita a Tarsila do Amaral,
nome também imaginário
desse imaginário real quadro de Bertha Krasilchik,
é pintado à anônima luz
- que,
por trespassar a transparência do vitral o revela,
ao atravessar as costelas da diáfana imagem, a remonta.
Disperso no ar,
o quadro de gota em gota cintila
na lembrança das raras retinas que o veem ser concebido
- e também nas de quem
ao, pela história, recriá-lo
pinta
uma particular,
que cada um tem diferente pulso,
e diferentes olhos,
versão.
Pelas originais tintas,
ou pelas que delas se emanam,
o quadro de Bertha
produz também outra pintura:
a que pelos elos
compõe uma cena ao tempo não etérea
- pelo menos não até que essa moldura
fechada e aberta que é o tempo se esvaia.
.
Na sequência eis outro desses meus recentes trabalhos - Estilhaços e espelhos.
O coloco aqui porque, acho, ele tem a ver com esse O quadro de Bertha que você acabou de ler aí em cima e com Epitáfio.
Abraços, e sempre muito obrigado pelas palavras tão gentis enviadas por email.
P.
.
Estilhaços e espelhos
Se o vento esculpe do grão à montanha,
e da montanha
à - ser fantasmagórico de tanto tamanho - cordilheira,
esculpe também o nada,
o vácuo entre as terras-águas e os céus,
que na verdade
não se esvai
à vazão do vazio
porque feito de marcas em sua oculta nua pele
- por onde aliás,
com seu também oculto cinzel,
o vento ao esculpir se dissolve
como a chuva no mar
mesmo que tempestade.
O cinzel do escultor se esculpe ao esculpir,
e a própria mão que o empunha,
e o autor que dela se estende,
ou o contrário:
o todo gasta-se na concepção, concebe-se no uso.
O tempo,
em mais uma filosófica fresta que ele mesmo nos revela,
e a fenda se abre também como sua lasca,
é o vento que, se a faz, talha a ásperos golpes a vida
- e,
além da carne que se verga,
ele em si se esculpe
na nossa memória,
que, como aquela, e as outras, chuva no mar,
e o vento na atmosfera,
se ergue e dissolve,
e as pedras que restarem,
as ruínas,
fincam-se como estilhaços de espelho,
que,
é um jogo eterno até que o eterno o eterno dissipe,
se fundem ao ar, à água, ao próprio vento,
e,
ao neles o tempo
e suas ruínas
dissolverem-se,
a ancestral substância respinga,
cada gota formando,
pelo ciclo outra vez completo,
um novo,
aceso
e cego,
que só reflete,
espelho dos nossos estilhaços.

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