Thursday, June 09, 2011

Precipícios do figo (Reimprimatur Nihil Obstat)

Do figo,
à mão e dentes,
o vermelho líquido interior
escorre pela boca,
que rápida entra naquele até então casto universo,
vulva oculta em fruto a nosso desejo.
De retido contorno
logo,
à mão e boca,
despudora-se,
acaso fosse à formalidade da faca,
sem orgia,
e lambuza em sexo a extensão da língua.
Seu ácido aroma
atrai todo o corpo
- que réptil nos entrelaçados pequenos e grandes lábios irrompe.
Os dedos
penetram
a profunda seda úmida,
visco,
aquoso de em-cristal mistério:
buscam o último dos últimos sangues,
e os glóbulos de já intensa hemorragia
são,
cada gota,
um fruto de, no todo, correnteza íntima.
Sua sutil pele,
entre líquidos,
os de dentro
e os que o ato por saliva inunda,
resguardam a essência na canibal devassa,
e ainda que pelo ímpeto a língua se alastre
a membrana,
mesmo devorada,
é quem rapta.
A língua
e boca
e dentes
são sugados
pelo escondido abismo.
Quanto mais o réptil no ramo se arrasta
mais é envolto pelo que antes parecia avesso
- e agora
é exposta carnívora pétala
que o captura até quando queira.
De tanta língua
e sede
o fruto em carne
por exausto prenúncio esmaece
mas,
vivo,
dentro do nosso sangue
segue em fogo
pelo calor da seiva que dele se absorve.
- e o sangue no sangue
nos atiça
a procurar
de novo
todo esse reincidente fruto intacto,
outro súbito coito
de bocas,
dentes
e dedos
que faz do homem
ao se lançar no precipício
um quase suicida
a extrair do fruto
não apenas a sensação do salto sem volta
e sim
também
o que por suas entranhas em êxtase renasce.