Monday, June 27, 2011

Climaxes

É muito bom ouvir o novo cd de Marina Lima, Climax: ela voltou. E voltou de forma instigante.

Por estar numa fase complicada de trabalho só pude entrar rápido no cd, e ainda assim em meio à confusão de uma livraria cheia. Gostei da vigorosa Não me venha mais com o amor, parceria de Marina e Adriana Calcanhotto, e com espectral ruído - é esse o termo? Se não for me desculpem - logo depois do início, baixo de Edu Martins marcado pela sina pungente de outros momentos da carreira da cantora-e-compositora e guitarra em chamas (tocada por ela própria, o que ocorre mais em outras faixas), da incisiva Keep Walkin, da misteriosa De todas que vivi, da nostálgica modernidade de Call me e da delicadíssima Desencantados, com Alex Fonseca, Karina Buhr e Edgard Scandurra. Todas estão no nível o-melhor-de-Marina após os explosivos anos de seu início, como Três e Valeu, do penúltimo álbum dela, Lá nos primórdios. E, ah, o disco, que quase-começa com aquele ruído em eco atraentemente sombrio, de uma penumbra de caverna que se abre aos raios da guitarra de Marina logo a seguir, fecha com Pra sempre, ela ao lado de Samuel Rosa, num panorama bem diferente - de um sol de determinadas tardes, pulsante mas casto.

Em todas essas músicas Marina exibe o som romântico-urbano-sofisticado que a caracteriza de forma singular no cenário brasileiro.

A foto de capa - ela em imagem de sua eterna transformação tocando, adivinhe, guitarra - remete a Todas ao vivo e, de novo, Lá nos primórdios. É no fundo a evolução de uma mesma Marina.

Por causa daquele motivo de trabalho não deu para ir ao show aqui em São Paulo neste final de semana que marcou a estreia da turnê do novo ciclo dela. Quem sabe no próximo.

Aliás, acabei de achar esses vídeos do show no Youtube - e eles mostram parte da singularidade de Marina.

Emocionantes:

Deixe estar
www.youtube.com/watch?v=nWMPjMKavFo

Não me venha mais com o amor
www.youtube.com/watch?v=e2CSYTAf_Qo&NR=1

O chamado
www.youtube.com/watch?v=1jvAY8CW9uI

.

Por falar em Marina, eis a seguir um poema, já publicado neste blog, sobre um dos momentos mais bonitos da música no país.

Meteoro e galáxia
Para ler vendo os segundos iniciais do vídeo de Marina Lima cantando Lígia com Tom Jobim (www.youtube.com/watch?v=iyH_ab1AltU)
Reimprimatur Nihil Obstat




Da imensidão vazia
da eternidade
mira-se
súbito
o meteoro
na fricção do seu último rastro
até alcançar
o que
em fogo
há muito, e por destino, de instinto buscara:
entrar
nos mais profundos mistérios do universo
extraídos da galáxia de feminilidades recém-abertas
- uma galáxia
ainda perdida
na noite ancestral
à espera
do ímpeto que a desprenderá.
Então
na Via Láctea que inédita enfim lhe surge
o meteoro se fixa em curso
nos perigos do precipício
ali envoltos com leveza de finíssimos véus
- e os perigos
irradiam-se ao núcleo,
chama da chama
que
em sexo vermelho de boca já nas umidades
para os átimos todos
emite
no refulgir de um perpétuo raio apenas aparentemente mínimo
o jorro
do encontro em seu ápice:
os urros sussurrados
cujos ecos
por si mesmos deflagram
dentros e órbitas,
lavas,
seios,
línguas,
impulsos e entregas
que nas origens da mulher são dela infinitos desejos.

.

Para continuar nessa atmosfera um trabalho que fiz - sobre outro climax - já há um bom período e ainda não tinha colocado nessas páginas:

Bono e a egípcia bailarina
Para ler vendo a versão de Mysterious Ways, do U2, em ZooTV
(www.youtube.com/watch?v=gtMiBdO1Yng)

O umbigo da bailarina como pequeno avesso do pêssego
resguarda os aromas, e as peles,
da mulher que gira à volta do homem em susto
diante do ímpeto que o atrai por seus mais remotos desejos.
O olhar recém-desobscurecido do homem
alastra-se pelos espelhos dos olhos quase em véu da mulher.
Ela o vislumbra no rosto inteiro - e ele a imagina
pelo seu por enquanto oculto brilho.
O mistério em atávico plasma
por paradoxo desata a fêmea galáxia interna
que, pelos todos os lábios, busca o dedo do homem,
e toda sua origem.
O homem estica o sangue até que se manifeste
- e seu completo sangue agora à beira
procura o ímã em chama que o atiça.
A egípcia mulher segue a dança
com seu encoberto rosto
que,
mesmo se o contíguo corpo estivesse nu,
obstrui
o que perto advém - embora
o mais do avesso à mostra
induza à cítrica particular cicatriz.
Ao homem,
na sua íntima escuridão,
e susto,
a mulher transforma-se em ampliada etérea imagem
- e portanto de diáfanas intransponíveis veias.
Mas sob as reais faíscas que da mulher emanam
ele, após súbito essencial silêncio, se aproxima,
e seus desejos,
e seu dedo.
O rastro do sangue estirado à frente da cena
leva ao precipício que supõe o umbigo de egípcia fonte.
É o lunar crepúsculo,
o que antecede o auge,
e o desmaio
- que o dedo,
se atravessa a sutil margem de espontâneo nó,
o homem, de raro cósmico regozijo, desfalece pelo abismo.
A mulher sente o perigo
a que,
com sua teia desprendendo-se do profundo nó,
enreda o homem.
Por isso já separa o nem concluído elo.
E liberta o homem,
pelo menos naquele instante,
do seu efêmero destino,
para no melhor momento,
que ela, e se escolher, escolherá,
deixar,
ao homem impactado pelo que era afinal miragem,
os anseios do seu rosto há um átimo descoberto
- retendo, no véu, toda a essência do corpo revirado
a partir do pequeno avesso do pêssego
antes, e ainda, tão próximo.
O homem toca a mulher
- urgente e volátil -
no véu agora entre suas mãos.
É o que lhe restará
até que o complexo tecido se dissipe
e,
pelos glóbulos de novo em tumulto no sangue,
a mulher ressurja
- consentido então àquele ímpeto,
o do primórdio,
que também era dela,
e, pelo avesso do avesso, a transponha
para prendê-lo no profundo ramo
onde no todo inédita enfim se revele.

.

Para terminar esse bloco tão musical, uma possível canção que procurei fazer tempos atrás - e este texto também já publicado no blog.

Urgente

Antes eu nascia e morria
a cada ano, depois a cada mês
Hoje estou mais urgente
Nasço e morro a cada minuto,
a cada segundo

Meu mundo gira à beira do fim
Passo a passo eu desfaleço
mas por enquanto sobrevivo
Carrego muito perigo escondido
- e vou sozinho

Meu caminho tem pressa
Não deixa margem para enganos, ou brisa
Nem bem escapo nada ileso da armadilha
haverá outra, que me desafia:
revelar minha sina ao seguir - ou me extinguir - a cada esquina

Antes eu nascia e morria...