Saturday, July 09, 2011

Agonia na agonia

Tem assunto que chega e não importa a fase em que estamos: enquanto não escrevemos sobre ele dá agonia, ou mais agonia do que já se tem. Foi o que me aconteceu com esse tema aí embaixo. Ele me veio uns dois, três dias atrás - e hoje durante a manhã me livrei do seu domínio, ou então a ele me acorrentei para sempre. Escrevi o que imaginava.

O resultado é esse a seguir.
Espero que quem leia goste.

Como nos textos recém-acabados que determinadas vezes coloco aqui pode ser que ainda mexa numa palavra ou outra depois - serão mesmo, e se houver, pequenas mudanças.

Muito obrigado,
P.

.

Circo de humanidades

Já a primeira chama
desequilibrou
os Wallenda Voadores
na bicicleta sobre o precipício
entre o milimétrico espaço do arame suspenso
e o,
da altura,
mortal solo do picadeiro:
o Circo dos Irmãos Ringling,
de ainda contemporânea dinastia,
logo,
em trágico enredo,
será destruído pelo incêndio.
Sete mil pessoas,
das quais,
claro,
pela ingênua índole do evento,
grande parte formada por crianças
- crianças com bexigas,
algodão doce
e todas ilusões à mão -,
o público todo,
enfim,
se,
anterior,
mesmo junto,
de individual,
e até solitária,
arena,
converte-se
no maior bruto touro em fuga
- um touro como se estivesse despedaçado,
mas vivo,
e à fúria pelo corpo em retalhos.
Crianças pisoteadas,
adultos numa gigantesca masmorra de tortura medieval
em que os corpos, ao choque, são os instrumentos de suplício,
e tudo com o fogo a lhes impávido perseguir.
Os elefantes,
leões,
cavalos,
os animais todos do circo
no átimo indomesticaram-se
para em vão se debater contra a selva de chamas.
Mesmo sob as letais lavas,
a banda começou a tocar a Marcha dos Desastres
- The stars and stripes forever,
hino de glória patriótica
que aos mastros que seguram circense universo
é sinal de ameaça,
desastre em curso.
O macabro espetáculo
da lona caindo corroída pela queimação
naquela matinê de julho de 1944 em Hartford
alastrou-se por ancestral incêndio:
as labaredas,
em enxurrada,
atingiram
os acrobatas guerreiros chineses das pinturas de 5 mil anos,
os malabaristas nos sulcos impregnados nas pirâmides do Egito,
os indianos de devoto contorcionismo
e,
fogo no fogo,
que é sempre igual fogo,
de original pó,
e que nos remeterá mesmo ao pó,
o incêndio se fundiu
ao que pôs abaixo o Circo Máximo de Roma
- dando lugar a outro,
o Coliseu,
também,
como naquele momento o Ringling,
de horrores a céu aberto.
Saltimbancos nos rastros da Europa,
a rivalidade entre Astley e Royal,
o Circo de Moscou, Oz, Plume, Gran Fele, Atayde, Mundial,
o Soleil,
o Vostok,
e o menor circo do mundo,
o Plim Plim,
com quatro personagens
e galinha como escambo pelo valor do ingresso,
o faquir realmente faminto dos circos pobres,
o Garcia,
que sempre há um Garcia por perto,
os desbravadores do curto infindável território
do Globo da Morte,
a trapezista de pernas que se perpetuam aos olhos,
a criança que não ri do palhaço,
que,
ela sabe,
saberá,
a vida é árdua demais
para ser assim por quase cinismo ironizada,
todas as tragédias embaixo da lona
de antes e depois daqueles minutos,
daquele pernóstico lapso,
tudo de certa maneira
foi,
vai ser,
consumido pelas chamas que ali,
no Ringling,
deixaram 168 mortos
empilhados na areia do que era picadeiro
em meio ao uivo de gritos das mães aflitas.
Os anões,
de coadjuvante sina,
se heroizaram:
agora são vívidos espectros da lembrança
pelas muitas idas e vindas
diante da voraz goela do incêndio
para tirar da morte
as crianças que,
pelo tempo,
ao fogo cada vez mais forte adversário,
a seu excessivo esforço pudessem.
A faísca que provocou a desgraça no Ringling é mistério:
um homem disse ter entrado em transe
e,
no transe,
um índio o incitara a tacar fogo no circo,
o que, acordado do pesadelo, viu que de fato fez.
Porém na sequência negou a confissão.
O que resta
é a confissão do fogaréu
esparramando-se rápido pela parafina diluída em gasolina
como falsa impermeabilização da lona,
química à espera do que a deflagrasse
para cumprir sua inflamosa saga.
Restos de lona,
ossos calcinados,
as cinzas do holocausto que é o tempo
nesse assustador circo de humanidades
continuam voando sobre nós,
sobre a História,
sobre a Terra
- sobre a Terra,
esse circo de estratosférica lona
em que a cada dia,
inclusive sob a lona mais rente,
nosso trêmulo escudo próprio sempre prestes a incendiar-se,
nos martirizamos entre tantas transitórias redenções.