Eterno agradecimento
Como disse em outro post, estou realmente numa fase quase insana - nos últimos tempos venho escrevendo muito, praticamente um poema, conto, ou etc., a cada dois, três dias. Como também disse, não coloco, claro, tudo aqui para não abusar dos possíveis leitores.
Mas tem tema que não dá para esperar.
É o que aconteceu agora.
Depois de muitos anos, conversei esses dias, por mensagem, com Tina Alvarenga. Ela trabalhou comigo na Vejinha e viveu uma maravilhosa, e inspiradora, história com Tales Alvarenga - um dos maiores jornalistas de todos os tempos no Brasil, e mestre de várias gerações. E que muito mas muito mesmo infelizmente nos deixou há pouco.
Bom, Tales não foi só um jornalista magnífico, o que, óbvio, já seria de uma biografia e tanto. Foi, ampliando o panorama, uma pessoa magnífica. Daquelas de que temos orgulho de estar perto - e, claro, no caso, como esse, de trabalhar com uma pessoa assim tão especial, poder, ainda que de forma mínima, colaborar a cada missão que se tem.
Bom, a conversa com a Tina foi muito emocionante para mim.
E acabou deflagrando uma ideia que levava sempre comigo - escrever sobre Tales.
Antes imaginava que escreveria um artigo, ou algo desse gênero.
Mas fui logo é para o poema.
O resultado está a seguir.
Espero que gostem.
Da minha parte, quem sabe tenha conseguido, com esse texto, demonstrar uma parte de toda minha gratidão ao Tales. E a expectativa de ter atingido o objetivo me deixa mais sintonizado com a vida - e com tudo que ele me ensinou.
Beijos.
Abraços.
P.
.
Palavras trabalhadas
Para Tales Alvarenga, sempre - e Tina, Isabel e Tomas, que seguem escrevendo tão bonita história
A palavra que se lê,
cada uma,
isolada,
é lasca,
mas de escultura,
e não lasca que, inútil, desprende-se.
É enfim lasca que,
ao autor,
mesmo fragmento,
projeta, por integrá-lo, o construído todo
- e então se deve alcançar a lasca que permanece,
a perpétua,
e mínima que seja,
pelo mais impossível esforço,
de, caso necessite, duras horas,
porque,
de perto,
no já pronto,
é grão compacto no ouro.
O ouro, no texto, além da forma,
está na diferença que, do tema, se obtenha.
“Padovani, podemos, juntos, agora, fazer
uma reportagem de capa sobre a palma da mão
- e não só porque não há uma igual a outra”,
disse Tales Alvarenga
a um jovem,
e para sempre,
admirado à sua frente
na madrugada da Veja
que,
ao contrário
da de Macbeth,
parece até hoje que de tão longa jamais encontrasse a manhã.
“É que toda palma da mão
tem seus próprios temas
- nem é preciso,
ainda que jornalisticamente fôssemos,
compará-la a outras.
Todo tema é tema.
Temos é que achar
as palavras que o componham.”
E disso tudo Tales sabia,
e ensinava,
como raros,
que também Guzzo, a fonte,
e Eurípedes, da mais nova correnteza,
todos de igual oceano
- infinito texto
que úmida a úmida palavra
esculpe
peixes,
répteis,
aves,
e toda a epopeia humana.
Voltando à imediata perspectiva do ofício,
o martelo,
o cinzel,
bruta força,
para cada lasca que fica,
de sílabas à luz
para que outros olhos atraiam,
há aquelas, poeiras, que o autor arranca.
Escrever,
além de cada imaginado quase algarismo da letra,
é corte,
talhe,
cicatriz que no instante desaparece.
Nada portanto de remorso quando,
ao golpe da mão,
afaste-se das palavras que a pedra, no excesso, guardava,
e por dissimuladas insinuavam-se como essência
da estrutura que de pouco em pouco na página se fixe.
Em meio às lascas que a cada linha continuam
e as que somem,
o escritor,
no entreato,
o de toda sílaba, palavra, frase qual por empenho molda,
produz outra peça:
seu pensamento,
que,
se ao externo prosseguirá oculto,
para a página, a dele própria, interior, de quem escreve
é a nova obra à mostra,
e por isso
sua mais última particular, a reflexo do que enxerga, estátua.

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