Ultimíssimo

Olá.
Escrever no ritmo que nos últimos anos me tomou é quase uma insanidade - mas tem lá seu encantamento.
O texto aí embaixo, por exemplo, não existia às 2 da madrugada de hoje, e lá pelas 7 passou a existir.
Com acréscimos feitos durante o dia eis ele nesta página.
Tinha outros trabalhos também novos, e outros, igualmente inéditos, mais antigos, para colocar aqui, que, para não abusar dos possíveis leitores, não ponho todos – e, por ser o último-ultimíssimo, esse, dessa vez, ganhou a preferência.
Tomara que gostem.
Beijos, abraços,
e obrigado sempre,
P.
.
Via Láctea contra Andrômeda
(Galática Troia)
Aquiles ergue a espada contra Heitor
e a Via Láctea,
sem a funda de Davi,
subjuga-se
à força do ataque muito além do rapto de Helena
- e Andrômeda
na tão longe nova planície de Elah
exibe com orgulho a cabeça não decapitada.
A, pelo remoto antigo, quase fictícia homérica Troia,
a sétima,
de uma sobre outra anatoliesca dinastia turca,
se projeta no,
pelos do mesmo modo remotos 5 bilhões de anos depois,
intrínseco mítico espaço
- a irromper
do ímã
a 500 mil quilômetros por hora.
Não haverá rapsodo cego entre cortes e ágoras
que conte o enredo,
não o da hipótese,
e sim o verdadeiro,
ainda que no suspenso Egeu
bem mais que mil navios
- são bilhões de estrelas
em militares legiões -
insurjam-se unicamente pela índole
porém como por resgate
da beleza que Páris tirou de Menelau.
Mas não.
Não haverá Homero
porque não haverá
Páris, Menelau, Helena,
nenhum homem,
nenhuma mulher,
talvez nenhum Deus.
Aquiles e Heitor,
e seus exércitos,
são sombras identificáveis apenas neste instante
- e nos outros,
poucos,
que do nosso limite a anos-luz vislumbramos,
resíduos do rastro do eterno que segue.
A batalha,
então quieta em livro póstumo não escrito,
se preservará de julgamentos
à isenta velocidade do universo
- que ignora
o cavalo de madeira,
o calcanhar de Aquiles,
a flecha de Páris,
o pescoço de Heitor,
o vento contra Ifigênia,
a profecia de Ulisses,
a armadura que não era de Pároclo,
as, de Agamenon, barbárie e maldição,
a súplica de Príamo,
e todo o esplendor helênico.
Como em greco-romana sinopse,
a Via Láctea se fundirá a Andrômeda
- a um tempo em que o sol já estivesse à míngua,
e se não estiver irá, do ex-reino, pelo sequestro da coroa.
O feixe dos astros
refulge
na espada da vizinha canibal Andrômeda.
Só que a explosão também é autofágica:
ao fim dos 100 milhões de anos de cárcere,
por orbitais motivos mútuo,
que se conforme a nenhum traço de ambas reste,
nem nada de nada
da anteirressurreta civilização que prevê o confronto,
e,
por deduzi-lo,
o talha, embora em vão, no seu maior episódio, a linguagem.
Tanto que até o pó de Iliada e Odisseia,
e da virgília Eneida,
flutua involuntário sobre épicas estrelas.
Dispersos uns dos outros
em remanescentes substâncias
- a mão de Aquiles na adaga
cada vez mais se separa dos olhos em pânico de Heitor -,
guardaremos,
nessa oculta humana nuvem,
a memória
desde nossos primeiros séculos
até o que a nós
(a nosso espelho,
o qual, ao refletir, fixa,
sob o martírio do que sempre nos foge,
o postiço pelo autêntico)
será o último dos mais extremos futuros
antes do recomposto cósmico silêncio.

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