Friday, October 07, 2011

7 de outubro


Scarlett Johansson no filme
inspirado no quadro de Vermeer


Filha com brinco de pérola
Para minha tão lindíssima filha Raquel – hoje em seu aniversário, e sempre, e a cada instante, e com todo meu maior amor

Os olhos ao máximo oblíquos
pendem,
mesmo ali em ápice eternos,
fixos,
como se brincos.
E a real pérola
no meio de tantas joias femininas
– boca, pele, mistério –
junta-se à trama em tesouro
concebida,
de traço em traço,
tinta em tinta,
imagem em imagem,
pelo pulso de Vermeer,
e que muito tempo depois
em partículas correm pelo ar
à revelação do escuro,
convertendo,
no quadro que é a tela do cinema,
a beleza no que mais próximo de verdadeira viria a ser:
a da única mulher em única mulher,
que se move fora de uma e outra tela,
pois de íntima moldura,
e de tons, e reflexos, próprios.
Na tela original,
e já na tinta a líquido antes do átimo que a reterá,
os olhos,
pelo branco que sustém as cores
da, a refletir o dentro ou o externo, vasta circunferência na pupila,
foram feitos como sob as águas, e o sol, do Oriente
– que induzem o auge
de todo detalhe da marítima oculta rocha.
Também de jeito oculto,
e também sob o véu do enigma,
pois o enigma é o oculto que sabemos oculto,
os olhos,
e todas as joias,
da mulher sempre se transformando em mulher por sua órbita
filtram a luz do mundo
igual a tinta no quadro que a imita
exerceu há séculos no sideral espaço para moldar-se,
o que a película,
cena a cena através do escuro na sala,
moldou de vez ao realçar o primor do belo no já instigante belo
- portanto,
sob suas marcas do fictício,
o cinema foi mais fiel
ao esplendor
que na pele de ainda úmidos anos
se lança ao universo.
Vermeer copiou o destino,
e os mais posteriores pincéis,
os das lentes em foco,
vão pelo rumo às voltas do,
que por análoga índole é de traço em traço,
recém-destino
- e dele até os encobertos fulgores dos olhos,
tão intensos quanto os à mostra.
São raios sob a penumbra,
e que ao irromper expõem a força do que já se previsse.
Os olhos no quadro,
e assim da mulher no após-séculos
que de fato o inspirara,
e por isso a outra, maior, tela,
captam os nossos no perpétuo.
Espelho que atrai a água do outro espelho,
e suas memórias e ilusões,
esse olhar nos envolve como o calcário,
que é sutil rocha,
ao redor do núcleo da pérola.
É ele que nos vê
– mas,
ao das sombras surgir,
é nele que nos vemos.
As pérolas,
que do remoto concentram nossa galáxia à síntese da esfera,
refletem a si próprias
e a quem seu brilho
– um brilho então não derramado como o do cristal,
e sim discreto,
de segredos –
no espelho em frente ao espelho
irradia-se por suas camadas, tintas e infinitos via-lácteos giros,
e com eles,
a cada elipse do em torno,
os espectros, sonhos e futuros.