Cidade-mulher

Implícita fêmea
(Para o que o Rio nunca deveria deixar de ser)
Reimprimatur Nihil Obstat
Montanhas, mares, lagos, seios,
o Rio, bocas, mistérios, é mulher
sempre
transformando-se
em mulher
– e que,
por profundos desejos,
dos líquidos à beira,
nos envolve em seus externos dentros.
O Rio é uma cidade nua.
Descostela-se
das pedras, peixes, relvas
em inéditos ombros,
costas,
pernas
– a cidade prossegue
na tênue essência feminina
que há
entre a superfície da água
e o ar,
o ar e o vento,
e entre
o vento
e todos os seus lábios,
úmidas películas,
membranas,
órgãos.
Em ímpeto arriscamos tocar sua imediata nudez,
sedas e cios de ininterrupta mulher,
o que a torna, ali, rente, todas as mulheres
e ao mesmo tempo à parte,
única.
Sob cristais noturnos
o Rio
nos desafia por outra transparência,
sutil,
que se insinua no agora vulto dos morros na névoa do escuro,
nos aromas das marés,
no fogo ainda aceso nas retinas
– no enfim extenso fluxo, que, do alto,
a cidade
deitada como fêmea à espreita,
e espera,
vislumbramos de todo fragmento por jorros, ondas e fulgores
a mover-se nas conexões do vazio entre precipícios.
Mesmo ferida,
com,
à altitude também vistos,
e no raso,
hemorrágicos cortes,
o Rio, a inata fêmea, persiste,
sina selvagem de mulher
– pela índole,
se refém ainda nos capta.
Mas moldada sem se saber, por contraste, desnuda
a cidade,
com as mulheres que dela se deflagram,
emerge do Atlântico em brumas do etéreo:
quanto mais se quer tocá-la
mais, ao, em volúpias ou minúcias, se mostrar, o íntimo esconde,
fera de indecifrável núcleo, desconhecido umbigo.
Com esse enigma,
de quem pelo que se oculta do Rio
busca o ventre,
o nó atávico,
um homem, até o último longe, leva em si a cidade:
nas maresias, memórias, a incorpórea pele
embora se à revelia
emana-se por nossa ávida procura
– e a cada seu mínimo vestígio
essa implícita fêmea
em vertigem,
e ao eterno,
nos arrasta.

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