Contraste em campo

Ademir da Guia e Rivelino
Para o amigo Neldson
O largo aparente lento passo,
de tão própria lei da gravidade,
como no remoto limite da Via Láctea
mas,
se mesmo astronauta,
pelo mais possível rápido rumo à rede adversária,
contrasta com a elétrica corrida,
essa de curta a curta distância,
de inaugurais,
por isso súbitos,
movimentos até a explosão do chute
- e assim Ademir da Guia e Rivelino,
paradoxo um do outro,
e também porque destro e esquerdo músculo,
além,
claro,
do Palmeiras que é espelho,
se há contraste então há referências,
do espelho do Corinthians,
cruzam-se em campo,
transformando-o
num xadrez só de duas peças:
rei contra rei.
Um absolve-se no outro
pelo que não exibe:
barroco, de voltas em renda,
e moderno, às soluções mais retas.
Para quem vê,
os dois,
juntos,
ainda que em cada curso,
fazem de cada mínima parte o completo
- e se integram.
No Morumbi lotado,
na mais recente década de 70,
a consubstanciação dos corpos era de verdade:
ao longo do jogo
um virava mesmo o outro
igual a sombra impregna-se à catedral,
e uma catedral a outra,
e à sombra de outra catedral.
A sombra estende-se pelo tempo:
Ademir da Guia,
de ouro derramado a todo lance,
e Rivelino,
de, antes, somente um ele,
o que ressalta ainda mais sua única letal arma de hábeis elos,
têm as índoles nos rastros do campo,
ocultas marcas prontas a se revelar às luzes.
Para que o exclusivo derby aconteça
basta que o placar do Morumbi
- o mais high tech lança os nostálgicos e futuros arqueólogos olhos
ao que hoje surge apenas nos VTs quase em sépia -
volte à origem:
Palmeiras 0 x 0 Corinthians.
Não importa quem de cada time esteja com a 10.
É o duelo entre Ademir da Guia e Rivelino
que ao modo deles invicto sempre recomeçará.

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