Imaculada atmosfera

Detalhe de 'Criação do sol e da lua',
Michelângelo, Capela Sistina
Primeiras inocências
Para Thaís, agora de volta à melhor parte da sua órbita
- de onde sempre irradia a pureza original
Os raios do maior elevado fogo dissipavam-se no Eufrates
e o espelho líquido do rio
por segredo mantém o que projeta
do mais único homem em irreprimível caça
ao celeste animal que lhe fugia:
Adão, nas lamosas horas, levou-se pelo desespero
de supor que o sol se punha fora do Éden para sempre,
exílio a que ele,
e Eva,
e a descostelada humana clã,
ainda que essa nunca pisasse na original relva,
depois enfrentara por ferir o código que reveste o fruto
– aquele fruto.
A amargura pela perda do que lhe aqueça o isolamento,
o isolamento da espécie,
no primeiro dia da iminente édipa Terra
fez a busca ter a urgência da água para a remota,
e após,
sagrada absoluta sede.
No depressa extenuante curso
suas narinas reemitiam
o magnânimo sopro ao solo de virgens ramos
– confundido agora ao que da natureza respirasse,
e à fúria de não alcançar o desertor cúmplice.
O sol tinha secado os respingos da lama
de que ao mundo Adão irrompeu,
e fornecerá desde o início a claridade
para que ele diferencie os bichos dos bichos,
as árvores das árvores
– e desse modo as aves das folhas,
que as aves são folhas desprendendo-se das árvores –,
e o calor do calor que torna seu corpo
o mais novo corpo hereditário.
Por isso,
ao tomá-lo como em aliança
para deter o pavor do abandono de sem-iguais
– Eva escondia-se no mistério dos sangues –,
Adão corre, e tanto.
Mas,
com extremo cansaço,
e o ar frágil,
teve de interromper a trilha,
conformando-se com a privação – para ele no átimo eterna.
Baixou a cabeça,
e seu choro,
uivo a atrair,
se existisse,
a matilha que faz do homem o lobo do homem,
transpõe num risco o compacto escuro.
Sim,
a lua,
já na infinita cúpula,
desde o instinto se exibiu a ele,
e Adão,
ao sentir os inéditos eflúvios
do que viria a prenunciar o desejo por femininos enigmas,
cai, de júbilo, à margem do contínuo Eufrates.
Só que logo,
lasca do efêmero perpétuo,
e por um tempo que as Escrituras não registraram,
ele enlouquece:
a lua,
mesmo no rastro de muito próxima carnal comunhão,
também, numa ponta do complexo, o abandonaria.
O animal celeste esfogueado desbrava-se
e, outra vez soberano, estende os ouros do império,
porém Adão,
que o adorara,
reluziu
em seus olhos,
e no avesso de sua inédita inocência,
os brilhos
como os de assassinas lanças
- que já tinha visto
os dentes do guepardo de crua haste à lâmina na impala -
da futura momentânea desconhecida Eva.
Então veloz,
e com profunda cólera,
persegue os antigos passos,
apesar de com pedras nas mãos,
que arremessa,
eis suas recém-eventuais lanças,
sem que atinja o longe
– e,
se porque cumpre o intuito
ficasse entre sombras de cego,
ele ignora,
e não sabe o que é, pela falta, suicídio,
e fim do planeta.
A volta da lua na sequência dos dias e noites,
para ele o que convém,
foi, por mais que sem os ritos, a pioneira ressurreição
à ilusória retina do homem.
E em série:
o sol, aos primitivos olhos, mata a lua a todo crepúsculo,
pois que a fêmea das trevas,
com as glórias a ressurgir da luz que a eclipsa,
guarda, para aqueles olhos, o suave flanco no novo giro à mostra.
Adão demora o tempo de sua loucura,
que aos séculos é lógica,
para perdoar o sol do crime não cometido,
e pelo qual, na outra ponta do complexo, quis extirpá-lo.
E o tempo de sua lucidez,
aos séculos delírio,
para tentar entender as órbitas,
em si inocentes,
castas,
e o próprio tempo,
e o sol,
e a lua,
e os grãos,
galhos,
frutos,
feras,
répteis,
pássaros,
e os pecados,
e as indulgências,
e Deus e a mulher e o homem
– e,
de todos,
humanos ou não,
os possíveis tão semelhantes diferentes desígnios imprevistos.

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