Somos nosso esquecimento (Reimprimatur Nihil Obstat)
o de todos,
está pronto
para o fogo da boca,
o que a boca suga para todo o Desejo,
desejo que nem bem sai da barriga da mãe,
onde o Homem tem seu Primeiro Sonho,
e já sabe os vermelhos da Mulher onde se saciar,
vermelhos em que foram saciados
os que se descostelaram dos animais,
extensões do Nilo,
fenícios, Mesopotâmia, persas,
os vendedores de seda e sal,
os ciganos,
os Maus, os Covardes, os Traidores, os Gloriosos
e-todos-os-que-vierem-até-o-final-dos-Tempos
comendo,
como os primogênitos da Terra,
os figos do Pó Original,
cujo destino sempre nos anseia de volta.
Para quê?, ainda não se sabe,
exceto nos livrar um a um deste mistério.
Nosso Primeiro Sangue
e também os figos,
os medos, as visões, as pestes,
os amores, com sua noite, seu perdão e sua espada,
e até o que de Deus imaginamos
são faíscas do mesmo pó,
que fez
os filhos e os filhos dos filhos
construírem e derrubarem Idiomas,
Leis, Nações, Impérios
e,
sinfonia inexorável,
continuarem, primeiro, a procurar
os vermelhos da Mulher
logo que acordam do seu Primeiro Sonho.
E a mulher amanheceu dos vermelhos do Tempo.
Já envolvendo sua primeira costela,
a sedução da pele, do olhar, do gesto, das costas,
pernas, ombros. Dos pêlos. Da voz. Do corpo todo.
Dos seus dentros.
De onde vem essa sedução, escorpião e éter?
Da primeira água, que depois virou sal, vinho e palavra?
Ou do primeiro silêncio,
quando as pedras ainda eram treva?
Vem do que já germinava no calor do primeiro sol
e do primeiro rio e primeira fruta
(vermelha,
fatal,
ela própria gulosa para ser devorada).
Do seu sabor, elaborado no mais fundo da terra.
O mais fundo da mulher é busca na úmida noite.
Os homens são sua febre.
Vêm dela, ao contrário da fábula perpétua.
Vão para ela, destino sagrado.
Os lábios nos poros abertos, os beijos,
os iniciais contatos de Cristo
com a pele quente e doída de Maria,
as veias do corpo dele
também em irrompido desígnio humano ao Primeiro Instante
têm as diásporas
- são os mesmos vermelhos -
que fizeram o Homem buscar a fêmea longínqua Lua,
essa epopeia,
nossa herança que o Sol multiplica
em caravelas e Apolos.
O Homem navega pelos mares
e espaços
como escava dentro de si
à procura de sua origem:
o para fora
e o para dentro
são uma só viagem,
a que une os segundos aos milênios,
separando-os.
O Sol fabrica o Tempo, por enquanto impassível.
Ele acompanhou
nossas aventuras,
e a elas sempre soube o que dar com sua velhice,
como na época em que precisamos inventar o número zero
- que sinal representaria o Nada?
(sim,
isso também
foi uma viagem).
O Homem viajou até o nenhum-ângulo
- ah, dialética,
o nenhum-ângulo abrange todos eles,
zero tudo,
zero nada.
O sol dourou as guerras, febres, África, gregos,
eunucos, Galileia, romanos, nasci.
E agora de nada adiantam minhas dúvidas
ou minhas certezas: nasci.
Tanto faz,
o Sol ilumina igual
a Filosofia,
a morte,
o vinho,
que sempre nos resguarda o calor da fruta
no abismo do cálice,
assim como o quente do açúcar não fica fora do fruto:
o sabor feminino nas mãos do Homem.
E no que nele há de mais nascença:
a vertigem.
Ah, se os ossos
tivessem sido feitos
para suportar até o Eterno
a vertigem, e a melancolia, do Homem.
Mefistófeles (*) provoca:
Com as ideias que tens é possível arriscar-te.
Une-te a mim e verás: com toda minha arte,
posso logo te mostrar
o que nenhum homem pode ver.
Zoe (**) questiona:
Dar coisa e voltar atrás.
Deus pergunta onde isso jaz.
Se disseres que não sabes
É no inferno que tu cabes.
Olívia (***) põe fogo na dúvida:
Não me entendo e já temo constatar
Que a mente é submetida pelo olhar.
Forte fado, ninguém a si maneja:
Tem de ser o que queres - e assim seja.
Os personagens,
esses deuses à nossa imagem e semelhança,
sabem que tentamos, e como.
Sacrificamos as ovelhas para aliviar essa dor,
ironia bíblica.
Eis o pecado:
ignoramos o Destino,
que no entanto é tão certo.
Mas o sonho da eternidade já existia em nós
quando éramos peixes, gelo, escuridão,
e com ele viajamos pelo Tempo
sempre em busca dos vermelhos
- nos seios das mulheres,
na pele do Espaço,
nos nossos tendões, nervos, arterias,
entranhas que nos ligam ao Universo
e foram criadas
para nos diferenciar um a um,
igualando-nos.
Um Homem, à margem do Tigre,
deitou-se,
cobrou algo da Lua,
depois dormiu e não acordou.
Esquecemos os homens que antes fomos.
Os homens que antes fomos
esquecem o que seremos.
Somos além da nossa memória.
Somos nosso esquecimento.
(*) De Fausto, Goethe (século 19)
(**) De Ulisses, James Joyce (século 20)
(***) De Noite de Reis, Shakespeare (século 17)

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