Thursday, December 01, 2011

Mistério, desejo, tumulto


'O beijo', de Edvard Munch

Mulher incógnita na livraria

Pronto:
o impacto
do há pouco tocado olhar
de amplo
mas a mim já exclusivo
universo,
que continua à pele em pétala noturna
a cada feminino movimento,
me paralisa em meio ao tumulto
- e me faz irromper em outro,
íntimo.
Única,
ela deflagra
seus discretos raros raios
só para minhas retinas
ali intactas
à margem das letras,
e da música que flui das letras,
e das pessoas,
e de tudo que não é urgente.
É a nova
e de si em essência chama
que por contraste oculto rastro
ao súbito aparece para revelar
todos os desconhecidos - e também conhecidos - mundos.
Sob a diáfana seda,
a mulher
que,
pelo enredo de astronômicas linhas,
intercepta o meu sem lógica risco a risco curso
nem sabe do quanto de seus eflúvios
nasce a recém-galáxia.
E ela própria é de tão misteriosa origem:
seu enigma
transforma
a lei da gravidade
e
como o astronauta
na lua de primeiras fêmeas súplicas
cada gesto que faço
leva toda a dimensão do eterno.
O precursor átimo de futuro na Terra
projetou os convexos labirintos
que desencadeiam a cena
depois de oceanos de séculos
nesta livraria
por cima de onde
explodiram
cometas,
constelações,
relâmpagos.
E mesmo com o impacto
tudo vira silêncio.
Não ouvia nada
além do sangue em febre
a correr
em torno dos músculos,
tendões
e membranas
rumo ao coração
– coração,
esse Mercúrio
suspenso no peito
por sístoles
e diástoles
em ininterrupto perto colapso.
Os pilares da Acrópole,
os arcos do Coliseu,
os impérios de Istambul
se deslocam
junto com meu sangue
– o tempo se irradia sem limites,
e por isso
há nesse constante segundo,
partícula do agora
que ao extremo se repete
e gera um mais longo outono,
o inicial divino sopro
e a inatingível última saga,
de naves em pós-matemático desenho
voando pelo perpétuo
para encontrar
o que
naquele momento
em segredo encontrei:
a fonte,
e o motivo,
de, para o homem, e a mulher, todo o universo,
internas Vias Lácteas
que também por eles,
num beijo,
ou lasciva ânsia dos lábios,
aceleram a Terra
a 107 mil quilômetros por hora
ainda que o planeta pareça nem se mover.
A Terra
não se desprende
de Júpiter,
que não do Sol,
que de Saturno,
que de Órion
ou Centaurus:
se faísca,
grão
ou antiguíssimo gelo,
uma conexão está na outra,
e todas em cada.
Pela mesma cósmica lei
o olho da que é a ápice mulher
com magnetismo logo ao princípio contato
terá sempre no redor o meu
– que,
de um possível inédito egípcio Neith de Vênus,
em voo profundo dela virou satélite
e assim gira,
na reinventada órbita,
até por suas instantâneas eclipses,
as quais,
no paradoxo das penumbras sobre a noite,
refletem às constelações os mais remotos humanos desejos.