Friday, December 16, 2011

Bíblico


'Anunciação', de Philippe de Champaigne

Anunciação

A luz
desde o mais alto ápice
desce
– e, pela própria índole, única –
às pupilas da mulher
que emana-se
em flor de virgens pétalas:
a escolhida.
No puro dentro cântaro
absorverá
a seiva original
– o contato
pelo líquido dos olhos,
de elo em elo,
etéreas lágrimas,
já cintila o reflexo
de luz úmida
dissolvendo-se
para a casta milagre concepção.
A se deflagrar
da intacta membrana,
o fulgor,
o lume,
tem carne,
cândido corpo,
que é fruto,
invólucro de outro agonizante magnânimo fruto,
de sangue.
Esse fruto de sangue,
esse coração incipiente,
pulsa no ventre da mulher
já ao primeiro raio
advindo do infinito
à treva interior da pele,
e pouco a pouco
irradia-se no corpo
que,
pelo singularíssimo sublimíssimo ato,
não haveria,
pois ainda maior sobrenatural
do que traz a divina pomba,
como acolher
até o parto
não fosse o anúncio
a respectiva bênção,
a graça e o sacrifício
como súbito favor
– o inédito sagrado plasma
se forma
por inviolável febre.
O umbilical rito
então
deflagra-se:
o sopro e a dor,
a fonte e o pássaro,
o pássaro e o voo,
tudo,
da terra ao retorno,
é instante perpétuo do clarão,
e do clarão a destilada água,
da água o ramo,
do ramo o fruto,
carne a
– que deles vai se desprender
mas
ainda em mesma substância –
se fundir aos sangues,
às fibras
e,
pela travessia,
e por isso também ao sempre,
do útero em desague na luz que circunda o todo,
e dela vem,
às
– para o que representa o filho da íntima superior essência
tremeluzindo
na santa trindade costela
enquanto o raio jorra no raio –
tão sem paralelo vívidas chamas
que a mulher,
como um aberto lírio
exalasse
a glória e os abismos
que há no remoto fogo,
ao mundo translúcida entrega.